Domingo, Abril 30, 2006

POR QUE PRECISO DE TV A CABO

Andei um pouco sumida daqui. Porém, contrariando as expectativas mais realistas, o mundo continuou a girar. Um pouco canhestramente, é claro.

Keith Richards foi hospitalizado na Nova Zelândia após cair de uma palmeira na ilha Fiji. Parece uma dessas frases absurdas que a gente usa para dar um toque de nonsense às tardes estivais, mas é verdade.

Noutra nota, Acelino Popó Freitas subiu ao ringue ontem, por volta de meia-noite – transmissão ao vivo da Band – para disputar o cinturão dos leves com o americano Raheen Whatever, a very catimbeiro kind of fellow.

Popó trajava um macacão verde-e-amarelo em lamê e encaminhou-se ao ringue ao som de axé music. Nem assim conseguiu superar o figurino de Raheen. O americano usava uma longa capa fofa de pelo branco de coelho e, na cabeça, uma coroa branca cravejada de pedrinhas coloridas, estilo Casa Turuna.

Enquanto ia em direção ao ringue em meio a platéia do Cassino Foxwoods, em Connecticut, cercado por assessores vestidos como num videoclipe de P. Diddy, assentia ao refrão repetido por eles: Raheen, você é forte, mau e campeão. Você é forte, mau e campeão. Você é forte, mau e campeão.

Raheen usa bigodinho fino, o esquerdo mais que o direito.

Há uma noite e dois dias sem dormir, acomodada no sofá ao lado da gata totalmente preta [exceto pela área onde um ser humano teria pêlos púbicos, que a gata apresenta totalmente branca e em forma de triângulo, o que tem efeito perturbador sobre as visitas], senti uma pequena pontada da antiga e imatura vontade de boxe.

Foi mais um jabzinho curto e sem consequência, visto que perdi quase inteiramente esse impulso quando mudei de bairro, embora continue imatura. Fiquei com preguiça de ir três vezes por semana até a academia em Copacabana e não gostei da cara dos rapazes da academia do bairro novo. Na outra academia, era óbvio que eles não tinham a intenção de destruir as meninas que treinavam em classe mista, e me deixavam usar as luvinhas deles e socar aquela coisa que parecia o cadáver de alguém embrulhado num pedaço de couro vermelho, pendendo do teto, em que era tão bom bater quando eu chegava do jornal. Na academia aqui perto, não senti o Amor quando passei por lá pra ver um treino.

Só tive idéia da extrema gentileza com que éramos tratadas as moças na aulinha de boxe e kickboxe em Copacabana quando fui a um torneio. Dois, na verdade. Uma vez entrei numa kombi com nossos bravos compeditores e fomos parar no galpão de um clube na Ilha do Governador, perto do aeroporto do Galeão. Os mesmos cavalheiros que desviavam do meu supercílio quando eu baixava a guarda pra olhar a tarde cair sobre Copacabana pela janela da academia, esses mesmos fizeram sangue esguichar algumas vezes da cara dos adversários naquele galpão. Squeech squeech, e jatos de saliva voando junto. Na arquibancada, bebíamos Coca Light. Ao Clube Tamoio, em São Gonçalo, fomos de van ouvindo hip-hop. Passamos o dia inteiro lá, assando debaixo de telhas de zinco, e vi menininhas magras que ainda não tinham menstruado também tirando sangue umas das outras.

Sou sinceramente grata ao cavalheirismo daqueles rapazes. Mas nunca me meteria à besta com outro treinador, noutra academia. E vou sempre bater os cílios, nostálgica, quando lembrar do competidor que tinha o nome do avô, rei de Copa, tatuado no ante-braço: Guinle.

Assim acabou a minha meteórica carreira no boxe. E no kickboxe, encerrada temporariamente na faixa amarela com ponta laranja, mind you.

Boxe é um exercício físico que ajuda na concentração, de modo geral. Além de ser um incrível gastador de calorias, efeito que toda moça procura no esporte. A namorada faixa marrom do treinador era aluna do Sacre Cour.

Era nessas coisas que eu pensava quando Popó e Raheen começaram o primeiro round. Raheen, oh, what a presepeiro!, logo no segundo round deu uma cabeçada em Popó. Sua principal estratégia era clinchar e empurrar o adversário contra as cordas como um filhotinho de touro contrariado. Raheen seguiu dessa forma até o fim da luta, atravessou doze rounds nessa demonstração vergonhosa que fez o juiz sacudir a cabeça algumas vezes – os comentadores: “o juiz está constrangido” – e levou o treinador no corner de Popó a cunhar um refrão próprio para o Brasileiro: “você é homem”. Raheen, com os abraços, cabeçadas e empurrões – teve até um golpe de judô, em que empurrou Popó para o chão – não era. Sem falar na coroa e no bigodinho.

Tudo isso pra dizer que preciso desesperadamente de TV a cabo.

Para quando a dor nas minhas costas for tão grande que eu não consiga emendar a décima oitava hora seguida sentada na frente desse computador. Preciso de TV a cabo como alternativa para o trabalho. Meia horinha dessa alternativa me deixaria nova às vezes. Trabalho em casa. Por isso tenho andado sumida. [A língua pode ser feia às vezes, sem culpa do usuário – “tenho andado sumida” é exatamente o que eu quero dizer, mas não neste ritmo. E não me mandem alternativas por e-mail].

Prefiro trabalhar em casa. Ou na rua, quando é alguma matéria que pede isso. Pode significar meses sem nenhum trabalho. Por exemplo: de dezembro a abril, no Brasil. Especialmente no Rio de Janeiro. São Paulo sempre dá um jeito de funcionar. Nessas ocasiões, uma deselegante sensação de desespero me atormenta, como uma unha encravada. O freelancer fica sem dinheiro às vezes mas dinheiro algum no mundo pode pagar a satisfação de não ter que estar diariamente numa redação ou escritório. O que, vocês não são assim?

Não adianta chegar em casa à noite e “Ah, agora vou pegar um livro ou ver um filme”, o estrago já está feito. O dia inteiro, aquela gente toda, dá pra ouvir eles pensando por cima das baias nos escritórios. É um dom, não o desejem.

Agora que acabou o carnaval e o pessoal começa a sair da praia, faço dois trabalhinhos ao mesmo tempo. Por isso fiquei em recesso aqui e no sono.

Gosto de trabalhar com a gata por perto. Gente é pra ocasiões mais festivas, com espumante e outros anti-depressivos. [Não se trata de misantropia. Mas Vê? Gente sempre tem um crachá com um nome feio escrito à Bic pra pregar no bolso da camisa de alguém.] Passo relativamente bem sacolejando numa kombi com meia dúzia de guris de calções dourados ou preto-e-vermelhos até o subúrbio mas fico enjoada em redação de jornal.

***

A Casa & Vídeo tá com uma promoção de decodificador de ironia para o Dia do Trabalho.

***

oh bite me.

escrito às 9:36 PM por giannetti

EXÍLIO

Dear Mr. Mayor of Basel [in Switzerland, where English is the fifth language],
Please accept me and my husband as refugees in your neutral and not at all bizarre city. I can´t take this anymore.

***

“O ex-governador do Rio de Janeiro Anthony Garotinho (PMDB), pré-candidato à presidência da República, iniciou na tarde deste domingo uma greve de fome em protesto contra o que chamou de ‘campanha mentirosa e sórdida’ para desconstruir sua imagem.”

escrito às 7:32 PM por giannetti

Sexta-feira, Abril 28, 2006

PREGAÇÃO

“Neste mundo, companheiros de bordo, o pecado que pagar a sua passagem pode viajar tranqüilamente, e sem passaporte; ao passo que a Virtude, se for pobre, é detida em todas as fronteiras.”

escrito às 10:52 AM por giannetti

“Uma boa risada é algo poderoso – algo bom e raro, o que é lastimável. Por isso, quando um homem dá motivos para que os outros se riam, é melhor que não hesite, e se permita a agir desse modo com alegria. Se esse mesmo homem tiver algo de muito engraçado nele, é certo que vale mais do que se pensa“.

escrito às 8:53 AM por giannetti

Quarta-feira, Abril 26, 2006

FIM DA MÃO-BOBA?

Ontem andei de trem das 6h05 da manhã [direção Santa Cruz] até às 8h [direção Central] fazendo esta matéria. Segundo um entrevistado, o pedreiro Etevaldo, o que a Alerj não levou em consideração ao criar a Lei Anti-Sarro foi a ação da mão-boba de gente “do mesmo time” nos vagões exclusivos para mulheres.

I think Etevaldo has a point.

A matéria está lá no No Mínimo.

escrito às 11:37 AM por giannetti

BOM DIA PARANÓIA II

Josh Wolf, de 23 anos, é jornalista, blogueiro e dá umas de ativista [modalidade de gente muito citada “lá fora”]. E agora o moleque tem um vídeo que interessa ao governo federal norte-americano. Vai ter que entregar o material que filmou enquanto fazia uma matéria por conta própria.

[O chato na atividade de jornalista é descobrir que sempre tem gente mais maluca que você.]

escrito às 8:31 AM por giannetti

Terça-feira, Abril 25, 2006

BO BREGUET

Tem mais na galeria do homem.

escrito às 9:50 PM por giannetti

BOM DIA PARANÓIA

Repórteres paranóicos com a possibilidade de terem desde seus bloquinhos de notas até suas ligações telefônicas investigados contam com dicas da Slate para controlar a devassa dos promotores.

Fazer ligações, por exemplo, somente por celulares pré-pagos, os preferidos de Tony Soprano e da Al Qaeda.

Quem tem precedentes, tem medo.

A paranóia, é claro, está “lá fora”.

escrito às 9:44 PM por giannetti

Sábado, Abril 22, 2006

VLADIMIR CLAVIJO-TELEPNEV

[russo fotógrafo óäèâèòåëüíûé aqui]

[áëàãîäàðÿ mojo]

escrito às 9:21 PM por giannetti

ESSES GRINGOS RECLAMAM COM A BOCA CHEIA DE CANAPÉ


Salman Rushdie, à direita, com a Playmate do Ano Heather Kozar, e Morgan Entrekin,
editor da Grove/Atlantic, em festinha de lançamento na Playboy Mansion em 1999.

IN his new novel, “The Good Life,” Jay McInerney describes a book party in shell-shocked post-Sept. 11 Manhattan, where the glitterati sip white wine in the garden of an Upper East Side town house. “The party was a somber affair,” he writes, “even by the relatively tame standards of contemporary publishing events, absent the kind of vicious gossip and social swordplay that usually enlivened such gatherings.”

An astute chronicler of his milieu, McInerney at once captures and contributes to the wistfulness inherent in New York literary life. It has always been a world driven by nostalgia, by the gnawing sense that back in the day the conversation and elbows were sharper, the drinks stiffer, the editors defter, the writing better.

escrito às 7:23 PM por giannetti

Quinta-feira, Abril 20, 2006

PARA NÃO RECLAMAR

Oh just shove it, vamos ver figura.


Road trip, Rama Hughes.


Ikava, Minka Argillander.

escrito às 11:34 AM por giannetti

MAPA DE DESVIOS, FALSOS COMEÇOS E BECOS SEM SAÍDA

Mr. Talese, who has compared writing both to passing a kidney stone and to “driving a truck at night without headlights, losing your way along the road and spending a decade in a ditch,” is a painfully slow worker ¿ a tinkerer and reviser, an obsessive typer and re-typer. He keeps track of his progress, or lack of it, with memos and exhortations to himself that he posts on white foam panels on the wall, and the ones documenting his work on “A Writer’s Life,” which took him almost 14 years to complete, are a road map of detours, false starts and dead ends.

escrito às 11:04 AM por giannetti

VERRINAS

É uma história antiga: simpletons por cima assinando embaixo de crimes que matam pela matutice. Pede citação preguiçosa à altura das regras eternamente vigentes. Recordações do Escrivão Isaías Caminha, “Breve notícia”; Capítulo VII, primeiro e segundo parágrafos. Edição velha do Círculo do livro.

Nem me dou ao trabalho de copiar os trechos. Qualquer pessoa que se mete a escrever deve ter esse código gravado no DNA.

escrito às 10:56 AM por giannetti

Terça-feira, Abril 18, 2006

NEW TIMES MEDIA EMPENHADA EM AVACALHAR VILLAGE VOICE

E eu fico putinha. Querem acabar com as reportagens investigativas. Demitiram James Ridgeway, autor de séries investigativas sobre o movimento neo-nazista, o incidente nuclear de Three Mile Island e o 11 de setembro, entre outras, considerado o “DNA do Voice”.

“There are people there who are superior in this work and are just waiting to have their heads lopped off,” said Sydney Schanberg, 72, the Pulitzer Prize-winning reporter who left The Voice in February over his objections with the new management. “Not a good atmosphere.”

Now, staff members are awaiting word of a permanent editor in chief, meanwhile reading into every change a predictor of their own fortunes. Along those lines, the termination of the investigative reporter, James Ridgeway, alarmed many in the newsroom and prompted 20 journalists to sign an open letter that called the action “shameful.”

“It also sends a terrible message as to the sort of coverage that the new ownership portends,” the letter, printed in last week’s issues of The Voice, stated.

escrito às 3:17 PM por giannetti

Domingo, Abril 16, 2006

Homens armados invadem a Prefeitura do Rio

Seria elitista, ingênuo [e por quê não dizer escrotinho] afirmar que isto é um “divisor de águas”, que agora sabemos o quanto a cidade está entregue: coisas mais violentas acontecem todos os dias em lugares onde a menção à autoridade da Prefeitura causa apenas indignação ou risadas. Mesmo assim não consegui deixar pra lá a notícia com a facilidade com que esqueci aquela sobre a falta de projeto dos candidatos em campanha hoje no país e aquela outra sobre – waal, não interessam.

Como ainda não me desvencilhei dessa do assalto à sede da Prefeitura no Rio de Janeiro, recorro ao meu consultório online. Preciso dividi-la.

É possível que isso não seja tão absurdo quanto parece? É possível que qualquer metrópole do mundo esteja sujeita a esse tipo de crime? O Rio já não é capital há décadas [“get over it, cariocas”], mas será que virou mesmo só um balneariozinho entregue ao bang-bang, como se diz pelos botecos? [E aí está um assunto que eu adoraria que fosse apenas conversa de bêbado].

16/04/2006 – 20h44
da Folha Online

Cerca de dez homens armados invadiram a sede da Prefeitura do Rio de Janeiro na manhã deste domingo. Eles renderam funcionários da prefeitura e 15 guardas municipais que faziam a segurança na área.

O objetivo dos bandidos era levar dinheiro dos caixas eletrônicos que ficam no anexo do prédio, mas eles conseguiram arrombar somente dois caixas do Banco do Brasil. Ainda não se sabe o valor roubado.

A assessoria da Guarda Municipal informou que os homens armados renderam o guarda que estava na guarita de segurança e o levaram para a sala de plantão. Lá, o obrigaram a chamar os demais guardas para a sala. Conforme eles iam chegando, eram rendidos e amarrados com lacres de plástico.

Os criminosos levaram também celulares, um spray de pimenta, uma rádio-transmissor, um farda da Guarda Municipal e uma motocicleta usada pelos guardas que não tinha a caracterização da corporação.

***

Outra notícia do dia que não esqueci:

A gatinha Molly, presa há duas semanas sabe-se lá Deus por quê em um buraco detrás da parede de uma loja de conveniência em Nova York, foi resgatada hoje. Hurray.

Jornalistas e desocupados em geral aplaudiram a gata preta do lado de fora da loja quando ela apareceu. Nas duas semanas em que Molly, de 11 meses, ficou presa, 359 artigos foram publicados sobre ela na imprensa, de acordo com o Google.

Se o resgate de um felino foi capaz de gerar esse tipo de barulho, imaginem se a prefeitura de Nova York tivesse sido invadida por dez homens armados. Que escândalo não teriam feito, não é?

escrito às 10:45 PM por giannetti

Sábado, Abril 15, 2006

São cinco horas da manhã de um fim de semana prolongado e a maioria das pessoas saíram por aí fazendo coisas mirabolantes em dupla ou em grupo. Ultimamente [meses] fico em casa esquecendo um projeto de livro [que no final das contas, no fim do ano passado, acabei achando uma porcaria], e terminando de escrever outro que me agrada.

“Buddy, faça as pazes com seu senso de humor.”

Foi ali que eu mandei o texto anterior pro espaço. Bem ali. [A frase não é minha, mas também não digo de que escritor é, porque estou implicante, estou com sono e quando fico assim eu tenho ciúme dos meus autores.]

Foi difícil olhar pra quase uma centena de páginas – que significaram alguns meses de trabalho – e concluir que eu preferia escrever outra coisa. Mais fácil teria sido tapar o nariz e desovar.

Lembram do livro sobre a barata que se transforma em homem, que eu comentei aqui? Sabem o que o ex-inseto faz poucas horas após a mutação? Pois ele – ainda que fosse estreante na coisa – senta-se ao vaso sanitário direitinho para fazer number two. A justificativa que o autor dá para isso é que, em sua vida de barata, o personagem tivera oportunidade de assistir a alguns seres humanos utilizando o sanitário para aquela finalidade, portanto sabia aonde deveria acomodar seu novo traseiro de homem para defecar.

No meu livrinho não cheguei a cometer coisa remotamente parecida ou da mesma estirpe da passagem citada. Claro que não. Pelo que me tomam, hunos?

Mesmo assim, por enquanto, o primeiro projeto – pesadão o tempo todo, no relief – vai pra gaveta. Eu gosto do novo, é o que eu quero ver impresso agora.

Quanto ao livro da ex-barata – que é de autor norte-americano -, Graciliano Ramos tem uma idéia a respeito:

“Os livros idiotas animam a gente. Se não fossem eles, nem sei quem se atreveria a começar.”

escrito às 5:05 AM por giannetti

escrito às 4:40 AM por giannetti

Quarta-feira, Abril 12, 2006

A TORRE

“Depois da morte de Noé juntarom-se as cabedees do poboo eno campo de Senaar, e temendo-se outra vez do deluvio, começarom, per conselho de Nemroth, que queria reinar, a fazer hua torre que chegasse ataa os ceeus, e fizerõ-na de adoves, e de betume; e descendeu enton nostro Senhor pera veer a torre, quer dezer, parou mentes pera lhes dar pena, e disse: Vijde, e confundamos as linguas destes; que fazem esta torre em tal guisa que un non emtenda a lingua do outro. E entom destruiu nostro senhor a torre, e departiu a cada hun sua voz propria, porem foi chamado aquel logar Babilonia, que quer dezer confondimento.”O Pentateuco da Bíblia Medieval Portuguesa

escrito às 11:06 AM por giannetti

CONFONDIMENTO

[p.s.: Por que fazes assim comigo, oh dignidade infinitamente superior dos offline? Tentas levantar ira no meu coração qual poeira em rally e reduzir minha expectativa de vida e causar-me rugas com terríveis mensagens, que perpetuas como atentados em mail-bombs. Por quê?! Por quê?! Reitero publicamente: preferiria mil vezes estar sorrindo discretamente num baile em Pemberley no século XIX ou bebendo scotch fabricado numa banheira do hotel Algonquin com a equipe da New Yorker durante a Proibição. Ou você acha que eu gosto tanto de internet assim? Mas estamos neste tempo aqui, catzo.]

Levei quase uma semana para responder mensagem de uma amiga em que ela proclama aversão total às ferramentas de internet mais “umbiguistas”, entre elas os blogs. Assim como não gosto de telefone, ela não gosta de internet. Ora, existem blogs melhores que colunas publicadas em jornais e revistas. Muito melhores. O que não é nenhum furo de reportagem. Mas, se ainda é uma necessário discutir isso, não posso deixar de reclamar [ah, sempre a paixão mais forte].

Com cerca de meia década de atraso, portais brasileiros contratam blogueiros. Enquanto isso, a coisa já avança até para o citizen journalism por aí afora, vide BBC. Boa promessa: temos jornais tão mobral quanto chatos; seria a breath of fresh air ler sobre os acontecimentos do dia em artigos assinados pelo padeiro ou pelo apontador do jogo do bicho.

Mesmo tendo tirado meu celular da reta, uso o aparelho fixo – espero ate o décimo quinto toque; se não houver mais ninguém por perto, aí atendo. Mas, por mim, o telefone comanda apenas o segmento de pedidos de pizza em pizzarias e de Vick Vaporub em farmácias [nunca inverter]. Pro resto, Gmail, Skype e MSN dão conta.

Estão de déjà vu? Imaginem eu.

Até aceitaria conversar um bocado ao telefone se a pessoa do outro lado da linha ostentasse duas cabeças sobre o mesmo pescoço, uma com a personalidade e o Q.I. de Stephen Hawkings e outra tipo o Ringo Starr. E as duas falassem ao mesmo tempo. Aí eu ia querer. Mas enquanto a tecnologia não cria nada parecido, minha distração mais constante continua sendo o blog.

escrito às 3:58 AM por giannetti

Terça-feira, Abril 11, 2006

“Call me Jonah. My parents did, or nearly did. They called me John.” – [k.v.]

E começa a longa jornada.

escrito às 12:24 PM por giannetti

Segunda-feira, Abril 10, 2006

GOGOL BORDELLO

A BBC colocou no ar este especial com os roma punks ilegal imigrantos da Ucrânia mais estimados do mundo. Pra quem não conhece a música, não vale muito a pena e o melhor é downloadear por aí antes. Emoçãozinha porque o programa foi ao ar no dia do meu aniversário e há mais de seis meses eu só ouço Gogol Bordello, Leningrad e Balkan Beat Box.

escrito às 7:40 AM por giannetti

Domingo, Abril 09, 2006

PAU NELES TUDO


Cadetes lendo o pocket book da City Lights em academia militar na Virginia, EUA, 1991

Greil Marcus critica o clima de canonização do poema, a babação repetitiva e as incongruências de uma antologia de “resenhas” com pinta de narrativa pessoal, comemorativa dos 50 anos de “Howl”, de Allen Ginsberg.

escrito às 7:35 AM por giannetti

Sexta-feira, Abril 07, 2006

CENTERFOLD

escrito às 9:43 PM por giannetti

[hoje é só gatinho]

escrito às 9:23 PM por giannetti

Quinta-feira, Abril 06, 2006

É UMA VERDADE UNIVERSALMENTE CONHECIDA

Pelo menos entre quem me conhece: desmarco coisas quando arranjo um trabalho bom, urgente e de última hora. Trabalho em casa e casa, temporariamente, significa um ambiente habitado por criaturas expansivas other than myself. Quando deixo meus nobres aposentos em busca de um copinho de clight, anuncio “vocês não estão me vendo!!!” ou “não estou aqui!!!”. Não funciona. A gata mia, a TV cacareja, o telefone apita, a família se anima, quer falar da novela. Na saída seguinte [cerca de cinco horas depois], passo novamente pela Área de Convivência com um lençol que me cobre da cabeça aos pés e o copinho vazio de fora. Com a mão que está desimpedida vou tateando o caminho até chegar à Praça de Alimentação.

“É o fantasma do nosso Tio que era garçom! KKKKKK.”

Sempre arranjam um motivo pra puxar conversa.

“Vocês são todos malucos e vão acabar numa lavação de roupa suja impressa tipo Complexo de Portnoy“, respondo debaixo do lençol.

“KKKKKKKK” [Esses K todos são risadas que nem precisam de pontos de exclamação pra vocês entenderem como são estridentes.]

Vão ver só!

escrito às 1:04 PM por giannetti

Quarta-feira, Abril 05, 2006

HAVIA UNS HÚNGAROS VESTIDOS DE VERDE TOCANDO E STEWIE HUNTER COMEÇOU A REGÊ-LOS COM UMA LUMINÁRIA

Como eu contei ao bom homem que me mandou The Disenchanted, adoro o clube da festa ininterrupta dos anos 20. Uma vez entrei no Algonquin e fiquei me esfregando na mesa deles pra ver se pegava alguma coisa. Obras publicadas e bastidores – a época inteira é irresistível. Mesmo que a festa non-stop fosse um sintoma psicopatológico entre-guerras que acabou mal para quase todos aquelas autores. Hemingway ainda conseguiu bater o martelo sobre a década, ao menos em livro, com Moveable Feast. No caso dos outros convivas-anfitriões, foi a década que lhes desceu o pau. Scott Fitzgerald gritou postumamente em The Crack-Up, só não chegou a terminar The Last Tycoon.

Budd Schulberg, que conheceu Scott do avesso e brevemente em Hollywood, no declínio, conseguiu escrever este Os Desencantados, a melhor história pós-Depressão sobre o casal Fitzgerald e a rebarba da festa – ainda estou lendo. Melhor que qualquer biografia e muito recomendável a escritores.

O guri, Shep Stearns/Budd Schulberg, deslumbrado nos primeiros encontros com o ídolo, comenta:

Que ano feliz, irresponsável, 1925 deve ter sido, com a bolsa de valores subindo, o gim descendo e nada mais sério para se preocupar do que a ressaca na manhã seguinte.

Por mais bobo que soe dizer “a minha época era mais esperta que a sua”, impossível não conceder uma ponta de razão ao personagem [o desencantado numba 1 do livro é Scott Fitzgerald/Manley Halliday, “uma relíquia milagrosamente trazida de volta à vida”], para além da nostalgia e do egoísmo:

Nessa década de vocês, um escritor como Odet grita GREVE e todo mundo o coloca junto a Tchecov e Ibsen. (…) Havia algo especial naqueles tempos. As pessoas eram mais inteligentes e faziam melhor as coisas. E sabíamos como dar a elas a sensação de serem as melhores de todos os tempos.

***

Alguém se lembra disso?

“Mamãe / o meu sapatinho / Era tão novinho / Foi o Charleston / Charleston, Charleston / Só quem dança sabe o que é bom”.

***

O título do post é do “Diário de uma Dondoca em Nova York”, de Dorothy Parker. A dondoca do conto relata uma semana inteira de festas nas quais os húngaros sempre aparecem, assim como Stewie Hunter, que a cada vez usa um objeto diferente para regê-los. Ao final de uma década inteira de festas com outros músicos estrangeiros vestidos de verde ou laranja e outros Stewies regendo-os com um garfo, um abajur ou um sapato – todas as rotinas mirabolantes envolvendo nonsense etílico – acho que a Depressão teria acontecido com ou sem o crack da Bolsa de Valores.

Se a combustão inicial pode ser traduzida em uma equação simples, dá pra apostar em Consumismo do Pós Guerra + Lei Seca. Mais ou menos como diz Halliday/Fitzgerald nos Desencantados, eles se livraram de todos os cacarecos vitorianos mas não se preocuparam em arrumar a casa.

escrito às 12:02 PM por giannetti

Segunda-feira, Abril 03, 2006

COLUNA NO COMUNIQUE-SE

A primeira está aqui; a segunda entra hoje. É um daqueles sites que pedem para que a gente se cadastre. Além disso, nesse começo, confesso que os dois textos já haviam sido publicados aqui. Os próximos quero que sejam outra coisa [ou vale a pena re-postar – com leves edições x.pl.a.i.n.-it-l.i.k.e-i-m-a-5yrold – para reclamar em larga escala? Afinal, a população de leitores do Comunique-se há de ser maior que a de um blog.]

escrito às 9:34 AM por giannetti

Domingo, Abril 02, 2006

CLUBE DA FESTA ININTERRUPTA

Hunos. O que quero eu dizer ao chamar de hunos os meus vizinhos?*

Que me mudei para uma rua “movimentada”. Que o paraíso artificial deles é a temporada no inferno de quem tenta ler, escrever ou mesmo assistir a um filme com o volume da TV marcando 29. Que a minha agenda tem que ser refeita para acomodar melhor as oscilações na rotina de farras deles.

Se chegam cedo ao bar – em torno das dez da manhã – por volta das cinco eles vão pra casa, depois de terem cantado Ana Carolina, Zeca Pagodinho e/ou Chico Buarque sem acompanhamento exceto pelas palmas fora de ritmo; de terem brigado; de terem me torrado a paciência a ponto de eu sonhar em fazer aquilo que me transformaria em tudo que, quando adolescentes, jamais imaginamos que um dia desejaremos ser: a pessoa que joga balde d´água nos bêbados.

Mas eles não são adolescentes. Dizem até que ali no meio da baderna está sempre uma professora de uma universidade onde estudei. Quero crer que não, porque as discussões – escuto todas – têm o nível de um talk show ambientado sobre um pau de galinheiro. Porém, há carros bons. Há algum dinheiro. Há uma cidade imensa cheia de melhores bares e lugares.

Então por que, Deus Todo Poderoso, essa gente não pega esses carros, esse dinheiro e essa disposição toda e não vai à praia roer queijo coalho no palito? Por que não vão almoçar em Santa Teresa em vez de subsistir de uma dieta restrita a ovo rosa e lingüiça frita servida no prato de plástico? Um shoppingzinho? Um cineminha? Uma Livraria da Travessa, já que há entre eles – dizem, dizem… – uma Professora?

Então, se eles saem “cedo” – ainda à tardinha – eu tenho a noite para aproveitar e escrever minhas tretas. Se eles chegam à tarde, a noite será dedicada a ouvir seus colóquios, suas óperas, suas angústias de casais desafinados que já não entendem mais quem começou qual baixaria e se acusam das coisas mais boçais.

Se isso ocorrer às primeiras horas da madrugada, não estarão no bar pela manhã. Aí eu calculo que posso dormir mais ou menos durante quatro ou cinco horas e então começar a trabalhar. Até meio-dia, quando retornarão, descansados e esquecidos de tudo que disseram e fizeram na noite anterior.

Se a última cantoria e/ou debate ocorrer no começo da noite, significa que poderei escrever durante a madrugada e dormir até às dez horas da manhã, quando o bar já estará aberto, recebendo as primeiras vedetes desse grupo tão simpático – síntese do carioca, se levamos em conta a maioria dos cronistas. Salve, simpatia.

Apatia. Já pensou como é parecidinha uma palavra com a outra? Não vou entrar no assunto “radical” disso, “rabinho” daquilo – que ameaçar com balde d´água e pseudo-filologia ao mesmo tempo é golpe baixo. Mas olha, repara.

Apático e simpático se tornam coisas muito semelhantes sob certa luz. Especialmente a luz do poste, em cima de um povo fudido, que bebe tudo que tem pra aplacar o calor e outras mazelas.

[*Não é indignaçãozinha moralzinha, não. Experimenta…]

escrito às 9:22 AM por giannetti

Sábado, Abril 01, 2006

A PROPÓSITO

Dê uma coluna em revista a um escritor ‘novo’, e ele logo começará a blogar: I want to take back some things I said last month. Or rather, I don´t so much want to take them back as to modify my tone, which is a pretty poor show, considering that writing, especially writing a column, is all about tone: what I´m essentially saying is, don´t read last month´s column, because it was all wrong. I was way too defensive, I see now, about my relative lack of literary consumption (two books, for the benefit of those of you who are too busy busy busy to retain the minutiae of my reading life from one month to the next).

escrito às 3:12 PM por giannetti

PROGRAMAÇÃO DO DIA

Sábado passado foi Dia de Ver Figura. E hoje é Dia de Karaokê. Você abre o link e escolhe entre dezenas de hits do cancioneiro americano de todos os tempos. Tem Simon & Garfunkel com “Cecelia”, Supremes com “Stop In The Name Of Love”,. The Animals com “House of The Rising Sun”. E muito muito mais. Cantem aí que eu escrevo a minha coluna daqui. Um a mais, um a menos fazendo barulho enquanto eu tento me concentrar não vai fazer diferença. A felicidade torna a explodir na calçada deste predinho antigo. Hunos.

escrito às 9:34 AM por giannetti