Sexta-feira, Março 31, 2006

ESPELHO ESPELHO MEU

A possibilidade de acharem que estou de puxa-saquismo público ou puxação de brasa em causa de sardinha própria, isso não me demoverá do post: recebi um e-mail grande em tudo – tamanho e ajuda e generosidade – que me deu coragem pra desovar outro capítulo da minha trinca encrencada [os que eu não considerava totalmente fechados]. Agora dá tempo até de entregar o conto pra antologia e seguir com o trabalho. É bom ser lida – claro, em blog é bom, mas é diferente receber uma Resposta sobre aquele meu outro esforço, e é bom agradecer também com palavras: muito, muito obrigada.

escrito às 4:22 PM por giannetti

O BIG BOOK BRASIL

2. [que você aí, espertamente, lerá depois do 1]

O BBB foi o pulo do gato. Cada um dos participantes, enquanto concorresse na casa pela preferência do público, tinha que produzir um livro, conto ou romance. Já na primeira prova, que decidiu quem escreveria o quê, o revés para alguns BBBs: teve contista que deu azar de pegar romance e romancista obrigado a aprender a arte do fazer curtinho. Ao longo de 70 dias de confinamento, o público teria nove saraus para decidir quem era o autor da obra mais interessante. Ao vencedor, o Milhão e a primeira edição do livro pela Cosac [capa dura].

Escrever na frente das câmeras é estranho para qualquer um, mas dificuldades maiores encontrariam a blogueira e o jornalista que entraram no programa “pela janela”.

Com apenas uma ligação, Márcia Moreira da Silva, a MarSil, garantiu seu lugar na casa. Mineira de Poços de Caldas, chegou humildezinha com seu laptop quando os participantes cultos já estavam instalados na casa. Desde o começo não escondeu de ninguém o desconforto que sentia ao ser chamada de blogueira pelo crítico da Veja.

– O problema, Bial, é que ele fala isso como se eu fosse sifilítica, leprosa e analfabeta. Pelo menos eu sei qual é meu sonho desde a primeira vez que liguei um computador. Eu sempre quis ser escritora. Ele não. Passou a vida enrustido e veio sair do armário na frente do Brasil inteiro. É um frustrado, Bial!


Réplica da ABL construída no Projac, onde ficaram os participantes do BBB

Da Pavuna surgiu Antonio Maria. “Meu pai era amigo do cronista”, explicou ele, que também enfrentaria o preconceito dos colegas por preferir escrever não-ficção. Com experiência na cobertura de Cidade em jornais como O Povo e O Dia, seu sonho de publicar uma grande reportagem só poderia ser realizado com o Big Book Brasil. À beira da piscina, enquanto os outros discutiam “Aspectos do Romance”, de E.M. Forster, Antonio Maria conquistava o carinho do público e o coração de MarSil, lamentando-se sobre a vida de repórter da geral.

Esse não foi o único namoro que engatou na casa. Os saraus sempre terminavam com um casal debaixo do edredon: Sonia Sanja – a escritora de São João do Meriti influenciada por Bukowski, literatura dos anos 20, W.C. Fields e Graciliano Ramos [de quem roubara o estilo de beber cachaça enquanto batia nas teclas] – e Pedro Paulo Thiago [o que psicografava].

O Brasil parou quando Mauro Cunha, o crítico literário, teve seu primeiro bloqueio de escritor. Encolhido em posição fetal numa das prateleiras da dispensa, chorando muito, pediu a Deus para que o tirasse da Casa. Seu analista, que assistia ao programa no pay-per-view, garantiu que o paciente fazia charme: ‘Cunha não acredita em nada, muito menos em Deus. Isso é molecagem dele.’

No auge dessa efervescência cultural, um terrível golpe armado contra o Presidente – aquele que de nada desconfiava – pôs abaixo toda a literatura emergente. Sem o apoio do líder deposto com que a cultura contara enquanto durou o mandato, nunca mais a TV brasileira experimentaria tamanha abertura [sic], nem o povo brasileiro leria tanto. [Se vocês acharam o final decepcionante, imagina a gente.]

escrito às 4:01 PM por giannetti

Terça-feira, Março 28, 2006

ONCE UPON A TIME

Capítulo Primeiro

O inesperado crescimento dos índices de leitura nacionais refletiu sobre a TV aberta brasileira na forma de uma queda até então inédita de Ibope – ou seja: do nada, o pessoal começou a ler insaciavelmente e parou de ver televisão.

Afundados em números vermelhos, fumando debaixo de sinais de Não Fume nas sedes das principais redes de TV do país, os diretores de programação compreenderam (!) que só haveria saída através de uma reformulação drástica em suas grades. Num primeiro momento, as mudanças insinuaram-se discretas, com reprises de “Meu Pé de Laranja Lima” e “Sítio do Pica-Pau Amarelo”. A Globo até começou a exibir “Orgulho e Preconceito” no horário da “Malhação” [aquela minissérie da BBC que tem o Mr. Fitzwilliam Darcy saindo de um lago com as roupas de baixo do século XIX molhadas, coladinhas ao corpo]. Mas o público brasileiro não era mais tão facilmente impressionável. Os diretores – ainda fumando desbragadamente – decidiram que era a hora de ousar. E dá-lhe “Arco-Íris da Gravidade” com Lima Duarte como o tenente Tyrone Slothrope [um pouco velho para o papel mas já era hora de darem alguma coisa cutting-edge pra ele] e a voz de Zé Wilker pontuando a narrativa.

E como o negócio pareceu agradar um bocado mais que o “Sítio do Pica-Pau”, logo em seguida emplacaram adaptações de “Everything is Illuminated” [“Tá Iluminado, Tá Tudo Iluminado!”, com a excursão do protagonista pela Ucrânia substituída por um desses safaris urbanos que levam gringos montados em jipes às favelas cariocas. O guia Alexander Perchov, como não podia deixar de ser, ficou a cargo de Matheus Nachtergaele]; “Eles eram Muitos Cavalos”, do Ruffato, virou minissérie, e toda a obra de João Antônio e Ferrez foi filmada no esquema “Caso Verdade”.

Era muito mas não era o bastante para o nível de exigência atingido pelo brasileiro. Seus [nossos] elevados padrões envergonhavam a Europa – especialmente os franceses, que voltaram a atear fogo em carros, bicicletas e velocípedes, indignados. De olho no mercado estrangeiro, nossos roteiristas faturaram em dólar escrevendo material de gosto duvidoso. Caso de “The Gel Bar”, sobre duas garotas taradas por Silvia Plath que de dia traduzem “The Bel Jar” e à noite lutam numa boate de strip lambuzadas de gel.

Era difícil superar o brilho de “Arco-Íris da Gravidade” – Hans Donner é Hans Donner, né, gente – e logo o público tornou a desviar da telinha o pouco interesse que ainda dedicava a ela para retomar grossos volumes de Thomas Mann e Pynchon instead. Claro que foi engraçado ver Murilo Benício imitando Byron no Faustão [“Dr. Fausto”, na nova versão do programa dominical], mas entretenimento não podia ser isso. As crescentes hordas intelectualizadas pediam mais. “More, more!”.

Reluzindo ao sol com seu home made bronzeador de urucum com cenoura, numa das mãos o espetinho de queijo coalho, noutra a cerveja envolta num isopor no formato da lata, o povo brasileiro zombava de boca cheia no “Caldeirão do Huck”: “Wölbt sich der Himmel nicht dadroben? Liegt die Erde nicht hierunten fest?. O mundo invejava a nação cheia de riquezas naturais que arrotava erudição na TV.

O Ibope, no entanto, ainda perigava despencar, e a alta cúpula das redes televisivas teria continuado a perder dinheiro e paciência se não fosse por uma idéia genial…

[To be continued]

escrito às 2:12 PM por giannetti

Segunda-feira, Março 27, 2006

COMUNIQUE-SE

Engraçado. Estréio hoje como colunista num site chamado Comunique-se, e justamente reclamando do serviço de comunicação preferido de quem gosta de se comunicar excessivamente. Não é o e-mail.

Todas as segundas-feiras meus textos vão estar lá. A menos que eu comece a reclamar demais da imprensa. Hmmm.

escrito às 5:18 PM por giannetti

DISQUE C PARA CRETINA

Sempre topo participar de uma antologia estampando nos lábios o riso inocente de uma criança que acaba de cheirar cola. Em seguida me lembro que é melhor desovar primeiro aquela coisa que venho enrolando há anos e que há anos me enrola [mais comprido que conto, mais curto que A Vida e a Obra dos Filósofos em dez volumes, porém mais relevante, mais bonito e mais inteligente que toda a literatura Ocidental – como diz a minha mãe].

“Desta vez, xerife, é diferente!” Sinto que posso fazer um conto melhorzinho. Só não sei se vou conseguir entregar no prazo. Antes, eu escrevia como se estivesse preparando uma buchada de bode com sopa de entulho de entrée. Hoje sou mais limpinha e demoro mais, o que – os coroas estavam certos – funciona melhor.

Tem uma antologia com um conto desses meus escrito no “método antigo”, o Método do Açougueiro com Síndrome de Tourette [acho uma porcaria]. E foi justamente esse o único livro que uma amiga de colégio conseguiu comprar lá em Santos, cidade que adotou depois que graduamos da Escola Bretanha – onde brincávamos de teatrinho fazendo Orgulho e Preconceito sobre as mesas do refeitório, com a boca cheia de Bolo Ana Maria. Aí ela fez questão de me telefonar pra dizer que there, there, está tudo bem, não é tão mau assim.

Amigos de colégio nunca consideram a possibilidade de termos virado uns cretinos. [Assim como a gente nunca acha que aquele velhinho de cardigã conversando com o pipoqueiro na praça pode ser um ex-carrasco da ditadura.] Para ex-colegas de turma, continuamos idênticos à última vez que nos vimos. Exceto no caso de Angela Guadagnin – que pediu desculpas ontem no Fantástico mas aí já era tarde: todos os seus ex-coleguinhas de colégio já sabiam que ela virou uma cretina. Ela, assim como outros da corja, são ostensivamente cretinos, cretinos públicos. Eles são cretinos na televisão, nos jornais, nas revistas, em seus depoimentos e mentiras. Tomam guarda-chuvadas de velhinhas na Sé e nunca sabem ao certo o que os acertou – se foi uma de suas ex-professoras primárias ou uma das ex-colegas de turma que não usaram Botox nem cremes contra radicais livres.

Eu, por outro lado, sou escritora: mesmo em minha ficção mais cretina [“Almoço com S”, etc.], varro a escrotidão pra debaixo do tapete das casas dos personagens e me isento de culpa. Para Bianca – a minha amiga em Santos que me ligou para falar sobre o conto – e outros da Escola Bretanha, portanto, continuo sendo a garotinha que, por motivos diversos, não conseguia declamar os Sonetos sem um cotonete enfiado em cada ouvido.

Ontem, voltando do supermercado, esbarrei num ex-colega de Escola Bretanha. Foi na calçada da Rua do Catete, ou seja, fizemos amor de pé contra a parede do Banco do Brasil [ou assim parece a quem passa de carro olhando a multidão que tenta se mover nas calçadas estreitas do bairro carioca, onde um nosso presidente gaúcho se suicidou]. Seguramente são mais de dez anos desde que nos vimos pela última vez, na formatura da oitava série. Mesmo assim ele foi capaz de dizer meu nome completo conforme pronunciado pela Professora Glória Ângela na chamada em 1988. Só que aí ele pediu o número do meu celular.

Isso despertou meu lado cretino, de que os longos anos que passamos afastados o preservaram, e aí eu tive que tomar uma decisão. Optei pelo que me pareceu o melhor [“E não é assim que fazemos nas eleições?” Não, nas eleições nós optamos pelo menos pior.] Em vez de fornecer o primeiro número aleatório que me viesse à cabeça e ir pra casa com a consciência imunda, abri uma embalagem azul e branca que pulava de uma das sacolas, enfiei um cotonete em cada ouvido e parti fazendo jazz hands no ar enquanto recitava o Sonetinho number two: When forty winters shall beseige thy brow!!! And dig deep trenches in thy beauty’s field!!! Thy youth’s proud livery so gazed on now!!! Will be a tatter’d weed of small worth held!!! (…)

escrito às 3:12 PM por giannetti

[psssssssiu… decidi acordar bem cedinho e compartilhar uma coisa com vocês:]

Ê PAISINHO BUNDA

[agora canta, passarinho. canta… CANTA, PORRA]

piu

[bom dia.]

escrito às 5:30 AM por giannetti

Domingo, Março 26, 2006

RECLAMAÇÃO

Já que estou aqui, vou reclamar de alguma coisinha, só pra testar o serviço.

Que trocadilho boçal esse do título do post anterior. “Navegantes” as in internautas. Parece coisa de gente do trabalho que bota apelido nos outros. Assim: “Ô Gúgôl, você que entende de internet… acha aí o endereço da Barbearia do Seu Zé. Vê se tu encontra também alguma foto de corça sendo perseguida por gato. Rárárá. Duvido. Gúgôôôôl!!! Uuuuh! Rárá.”

O cara que chamam de “Gúgôl” é o que utiliza no trabalho o Google em vez de usar o Cadê. É difícil, mas o Gúgôl – que às vezes é chamado também de “Autista” porque não conversa muito com a galera – consegue. É um mago da informática. O pessoal que dá esses apelidos também parece acreditar que informática e informação são a mesma coisa [não no sentido Marshall McLuhan de “O meio é a mensagem” ].

“Ih, alá a Barbearia do Seu Zéééé. Manêro, Gúgôl. Caraca, maluco… maluco, esse bagulho é muito doido, que que é isso, cara?! Gúgôl Ârrti? Caraca! Alá a barbearia do Seu Zé no Grobo Terrestre! Caraca! Aí, tu é maluco, cara. Mas cadê a corça sendo perseguida por um gato?”

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[“Alá, ele digita rapidão, alá, rárárá!!!”]

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* Nenhum animal foi machucado em decorrência da realização deste post.
** Isso aí é mesmo uma corça. Quando eu era criança, vivia na casa de uma vizinha que criava macaco, arara, tartaruga, cachorro e também uma corça. Cansei de passar a mão na corça. Sei o que é uma corça. se isso por acaso não for uma corça, não escreva pra me dizer que eu não sei o que é uma corça.

escrito às 1:57 AM por giannetti

AVISO AOS NAVEGANTES

Segue o link para você assinar meu feed. Toda vez que eu reclamar de alguma coisa, os assinantes serão notificados por e-mail. Imediatamente, entrarão em conferência via Google Chat: “nossa, a Giannetti reclamou de alguma coisa outra vez”. “Ah, Cicilha Kirida, por que reclamas tanto?” Etc.

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Dica do Hoder.

escrito às 1:26 AM por giannetti

Sábado, Março 25, 2006

O QUE É, O QUE É?

Alguns de vocês devem se perguntar – na falta de coisa melhor em que pensar – o que um escritor faz para ganhar dinheiro num país onde ninguém lê. Ah, uma infinidade de coisas! Com sorte, às vezes, algumas até são relacionadas com a escrita. Como avaliar livros que não serão lidos e escrever sobre eles: “muito bom”, “muito ruim”, “senti vergonha alheia ao ler os capítulos 13 e 17”, “quero receber um valor adicional por insalubridade”, etc. Claro que não é só isso que se escreve sobre os livros bons e ruins. Os pareceres são beeem mais longos que uma frase. Mas eu resumo assim pra não entendiar vocês no sábado, que é…

DIA DE VER FIGURA!!!

Êêêêê!!!

Pra vocês, é claro; pra mim é dia de escrever sobre um livro que uma editora quer saber se vale a pena publicar no Brasil, enquanto luto contra a felicidade muito constante dos meus novos vizinhos, que transborda na forma de canções americanas de gosto duvidoso (“Lady in Red”, “I Just Called to Say I Love You” – isso não é a trilha sonora daquele filme?), executadas por um equipamento de som bastante moderno, preso à mala de um carro estacionado abaixo da minha janela. Ah, se pudéssemos engarrafar toda essa felicidade, quantas pessoas mais poderiam ser tão felizes?

Ei, espera aí… PODEMOS engarrafar felicidade como essa! Na verdade, pelo que observo entre essas pessoas rindo alto ao redor do carro e de mesinhas espalhadas pelas calçadas, ela já vem em garrafas!

Mas não fique muito excitado. Vou falar de livro e de guerra e de baratas. Se você quer saber mais sobre as pessoas ostensivamente felizes, saia da frente desse computador, puxe uma cadeirinha enferrujada com a logomarca da Brahma descascando e converse com meus vizinhos. De volta ao livro que eu estou tentando ler, a história fala de uma barata que se transforma em homem; esse homem se transforma em um bandido; esse bandido se transforma em político – e um político de muita, muita influência. Com seu background de inseto nojento – incapaz de distingüir entre bosta e comida, alimentando-se das duas coisas e até de seus semelhantes, existindo como a forma mais baixa de vida, na escuridão – ele vai longe: ele se torna um Senador no Congresso norte-americano e o principal responsável pela eleição de um presidente nos Estados Unidos.

Os autores americanos têm a mania de falar mal do governo.

Artistas americanos, em geral, têm essa mania.

Os franceses, de uns tempos pra cá, quando querem reclamar do governo, preferem tomar de paus e pedras mesmo e partir pra dentro, na maior ignorância. Meu amigo Chico, que é escritor e é francês, me diz que não, não; eles – os franceses – só sabem fazer assim, e não é de hoje. “Desde a Revolução Francesa, tudo que eles sabem é tomar de paus e pedras e partir pra dentro”. E olha que a felicidade engarrafada dos franceses é muito superior à Schincariol que turbina as tardes e noites – às vezes as manhãs – dos meus vizinhos.

O nosso povo tem uma disposição muito mais alegre, menos explosiva – alguns querem crer. Na verdade, acho que não é isso não. Apenas desistiu de reclamar com as autoridades e começou a batalhar por conta própria. Há décadas. E agora os que não estão mamando garrafas de felicidade estão na guerra. A coisa – a guerra – parece ter relação exclusiva com quem usa felicidade embrulhada em papelotes – felicidade do branco, felicidade do preto. Mas não. Alguns artistas brasileiros pintam imagens com esse tema usando sprays coloridos sobre muros, principalmente no Rio e em São Paulo. É uma guerra não-oficial.

Abaixo, uma pintura inspirada na guerra oficial do Iraque:

O artista, Gerald Laing, colocou ali no meio o George W. Bush, caminhando num abisminho, e, acima dele, a olhota Maçom, o “Olho da Providência” na pirâmide, que existe na nota de um dólar.

Você pode achar a pintura feia mas Gerald Laing vai explicar ela aqui assim mesmo:

“Like all US bombing, it was claimed to be targeted and accurate – he even once referred to ‘compassionate targeting’. Here are two views of the effect. You cannot drop bombs on a crowded city and not kill and maim in a random manner. Fortunately the pilots are at 40,000 feet of altitude and only over the city for a few minutes. They are absolutely invulnerable and play rock & roll songs whilst carrying out the task which they are bidden to do (…)”

Postei a pintura que achei menos “violenta”. As outras são baseadas em cenas que foram publicadas em vários jornais do mundo: soldados sacaneando prisioneiros iraquianos, fazendo sinal de joinha ao lado desses reféns.

O artista que pintou isso é de Newcastle. Ele decidiu fazer uma série inspirada na guerra de Bush no Iraque. Mesmo nascido no Reino Unido, está sempre de olho nos Estados Unidos. Dá pra ver que ele gosta muito de pop art e de ler a sessão dos jornais que trata de problemas “de fora”. Ninguém o chama de “colonizado” por causa disso. Acho que chamar alguém de “colonizado” tem a ver com um sentimento próprio de inferioridade enraizado em quem chama outra pessoa, artista ou não, de “colonizado”.

Por exemplo: um professor de Cultura Brasileira que tivemos na faculdade. Ele era militar quando os militares governavam a nossa ex-colônia. Uma vez um colega de faculdade que ganha seu dinheiro tocando música estrangeira em lugares esfumaçados não agüentou mais ouvir que éramos absolutamente superiores em tudo – principalmente em música. O samba. O semba. Etc. O colega fez uma objeção a essa supremacia toda – talvez já pressentindo que um dia Gilberto Gil seria ministro da Cultura – e o professor vaticinou:

“Colonizado!”.

O professor era um ex-militar e nós somos uma ex-colônia. Bah.

Eu tinha prometido que ia me limitar hoje a mostrar figurinhas pra vocês, porque é sábado. Só que escritor mente muito. E também é burro: mesmo quando não recebe dinheiro para escrever, a gente escreve, escreve, escreve, escreve…

Tá bom, só mais algumas figurinhas. Esses aí são pôsteres de outras guerras oficiais americanas. Enjoy!

escrito às 7:41 PM por giannetti

Sexta-feira, Março 24, 2006

DDN

Mente quem diz que ando obcecada por Gore Vidal. Sou obcecada por Gore Vidal desde criancinha, o que me valeu traumas profundos e apelidos muito feios – “Maria Capitólio” et al – entre os meus coleguinhas de colégio, que preferiam o John Updike. Eu lia seus novelões ambientados em Washington D.C. e sonhava escrever histórias de amor e política suja tão palpitantes quanto Império. Mas aí eu comecei a ler os nossos jornais e revistas. Através deles, percebi que a matéria prima oferecida pela vida política brasileira era deselegante demais para se transformar em Império. Duvida? Três palavrinhas pra você: “Anões do Orçamento” (“do” é uma palavra, não é?). Duvida ainda, eleitorado? “Mensalão”.

Com esse tipo de material, pode-se escrever um Pastelão.

E não seria apenas pastelão. Serei piegas, mas respaldada por um escritor que eu amo mesmo [e não é o Gore Vidal]: pastelão é a vida.

Uma coisa que eu não sabia quando era criancinha é que o pastelão seria tão ostensivamente o tema da minha. E pastelão combina com os anões e os mensalões. É ao pastelão que dedico minhas meditações.

[Vai ser longo. Por isso que chamo de stand-up comedy sentado.]

Agora mesmo eu estava ocupada em minha prática diária de Kaymmi Yoga quando o telefone tocou. Era um burocrata. Pressenti e fiquei quietinha esperando o ruído parar. Mas meu tio – aquele que jogou no Vasco – é mediúndico e achou importante me passar a ligação.

[A prática da Kaymmi Yoga ainda não se espalhou pelo mundo – chegou ao Rio de Janeiro, sem conseguir avançar até São Paulo. Quando atingir os outros continentes, não haverá mais guerra. Aliás, não haverá mais nada. Vai ser mesmo como o mundo imaginado por Vonnegut no Pastelão (ou Solitário Nunca Mais!), em que a gravidade é tão forte que o povo vive deitado. Quando digo que esses gringos copiam a nossa gloriosa cultura, não estou de molecagem.]

Enfim, atendi à ligação do burocrata.

– Boa tarde, senhora.
– …
– Meu nome é Oficial…
– RÁ. RÁ.
– … ? … José Ferreira, do Serviço de Inteligência Brasileiro…
– KKKKKKKKKK!!! [Risos a la Orkut de garoto de 13 anos.]
– Senhora? Alô?
– [shshshshshsh…. ]
– … do Departamento de Dignidade Nacional…
– GAH!!! KKKKKKKKKK!!! Ufa… fffffiu!
– ?!

[A Kaymmi Yoga – quando executada dentro dos conformes da norma mediúndica – viabiliza uma limpeza de canais sensitivos que deixa o riso frouxo.]

– Senhor, por etapas: a respeito do Serviço de Inteligência Nacional que o senhor mencionou…
– Pois não.
– O termo “Inteligência Nacional” refere-se mesmo à nação brasileira ou é coisa de filial estrangeira tentando implantar aqui seus execráveis maneirismos ianques?
– Não compreendo, senhora.
– Eu sei.
– Perdão?
– E o Departamento de Dignidade Nacional?
– É um órgão do nosso governo.

[A Kaymmi Yoga é mais poderosa que o loló que me derrubou quando fiz minhas tatuagens na cadeia – as mesmas que agora apago em intermináveis sessões de laser num centro dermatológico na Barra da Tijuca; ah, longa história… e minha família nunca me perguntou nada, então não é para vocês, que são apenas do eleitorado, que eu vou explicar.]

– Estou genuinamente fascinada. E o que fiz para merecer um contato telefônico de tão alta patente?
– A senhora…
– Senhorita.
– …Senhorita é autora de um texto que chegou às mãos… aos olhos de nossos avaliadores culturais. E causou aqui no DDN muita consternação.
– É mesmo?
– O texto foi publicado em um uébi-lógui – um diário na Internet – e afirma, entre outras coisas, que nossos políticos são hillbilies. Procuramos no Michaelis Inglês/Português e concluímos que a senhora… srta. chamou nossos políticos de “caipiras”.
– Mas de maneira alguma, sr.! Posso me explicar, doutor?

[Doutor é uma das palavras-chave que tranqüilizam as energias agitadas. Tem um mantra, no entanto, que surte efeito apenas se utilizado pelos realmente iluminados: “Você sabe com quem está falando?”.]

– Explica, filha.
– Não utilizei a palavra hillbilies no sentido de “caipiras”.
– Não?
– De maneira alguma. Utilizei hillbilies, as in “rastaqüera”.
– Ok, estou tomando notas.
– Farei o possível para acreditar, sr.
– Como?
– … Er, então, tem mais acusações?
– Sim, relacionadas a um desdobramento bastante intrigante derivado da expressão hillbilies, e a um efeito colateral implícito de sua conotação…
– Prossiga, xerife. Estou ofegante de antecipação!!!
– … que seria: nossa política não merece ser dignificada com o questionamento, da imprensa, da oposição, ou seja, mal chega a ser política – é algo que não merece nem o “pfff” do povo!
– Onde eu disse isso, Oficial?… Sr. Doutor Oficial?
– A srta. disse que nunca quis cobrir política no Brasil porque política no Brasil era um negócio de hillbilies metidos em esquemas.
– Sim.
– Nada a declarar em sua defesa?
– Pelo contrário: muita coisa. Coisa pra chuchu. Está pronto, officer?
– Prefiro que não me chame de…
– Desculpe-me, Oficial. Eu gostaria de lembrar ao sr. – digo “lembrar” porque, a essa altura, sendo membro da Inteligência brasileira e sabendo operar a Internet e um telefone, vocês certamente têm várias informações sobre o meu passado – que eu cresci com Gore Vidal. Um velho que criava acelgas em uma banheira no final da minha rua faleceu quando eu tinha cinco anos de idade. Ele deixou toda a obra de Gore Vidal para meu tio, que não o conhecia. Como o irmão de meu pai tinha que se dedicar à mediundidade, passando dias a entortar os talheres de casa e a afrouxar os chacras, eu herdei os livros do velho. Mais: eu era feia. Feia de doer. Meus pais me trancavam em casa pra que as outras crianças não prendessem um barbante com latas penduradas no elástico das minhas saias nem me jogassem de cabeça pra baixo dentro das caçambas da Comlurb. Vou deixar as coisas bem claras para o sr., sr. Oficial: nas palavras de Arnaldo Branco, eu tinha 60kg. Compreende? Está satisfeito agora?! Fui educada dentro de casa, sr. Oficial, sou auto-didata. Por longos e longos anos existimos apenas eu e Gore Vidal. Mas o sr. já deve ter lido isso em minha biografia, nas informações que certamente foram levantadas pelo – yak yak yak – Serviço de Inteligência Brasileiro.
– Er…
– Afirmo em defesa de meu argumento que roubar e pilhar… ah, isso acontece, sr. Oficial. Têm sido uma prática bastante popular nos últimos milênios. Mas mensalão e desvio de verba de posto de saúde pública são expedientes de hillbilies metidos em esquemas. Coisinha rastaqüera. Get it?
– Quê?
– Manja? Bom, prosseguindo: afirmei apenas o que meu coração reconhece como a verdade: Gore Vidal morreria de tédio no Brasil. O gênio relampejante, primo de Jaqueline Kennedy e amigo de Anais Nïn, jamais escreveria aqui um livro sequer. E eu, enquanto humilde pupila de seus sutis ensinamentos, também não posso tomar da pena (tecla) para digitar um romance histórico com base na política de meu país.
– Mas o Jô Soares fez isso, srta., e ganhou dinheiro.
– Sr. Oficial, não o ofendi. Vamos manter o nível da conversa.
– Desculpe.
– Vou deixar passar. Mas presta atenção: Gore Vidal ficaria macambúzio no Brasil. Isso aqui é de uma morosidade em que nenhuma teoria conspiratória remotamente instigante pode germinar! Os esquemas, as falcatruas… estão todos absolutamente na nossa cara o tempo todo. Nada há de mirabolante sobre eles. Até a Veja desbarata quadrilhas de anões – quando quer, não carece nem de um Bob Woodward. Tudo previsível: conta na Suíça, paraíso fiscal, caixa-dois, tiro-na-Toneleiros e acabou. Que graça teria isso prum homem que freqüentava a casa de uma teoria conspiratória VIVA [naquela época o Kennedy tava vivo, né], do naipe de assassinato de presidente? Ele vivia metido na mansão dos Kennedy, tá entendendo? É a mesma coisa que convidar o Joãosinho Trinta pra fazer as fantasias do teatrinho da escola da tua filha.
– Como você sabe que eu tenho uma filha?!
– Arrá!!!! Talvez o senhor não tenha conhecimento de toda a lista de integrantes do Serviço de Inteligência Nacional.
– …
– Oficial, alô?
– … A senhora, senhorita…
– Oficial, por favor, eles podem estar gravando esta ligação. Contenha-se.
– Obrigada. E permita-me dizer que a srta. tem uma bela voz.
– Eu sei. Eu era cantora. Antes de ir pra cadeia. Antes de me vender ao Serviço de Inteligência em troca da minha liberdade. Despeço-me aqui.
– Ok.
– Ok.

[Agradeci meu tio mediúndico pela dica sobre a filha e voltei pra Kaymmi Yoga, que Buda nos abençoe!].

escrito às 11:20 AM por giannetti


Brokeback Mountain, de acordo com Gore Vidal

escrito às 9:42 AM por giannetti

MICROSCÓPIO

Não fui suficientemente clara a respeito da resenha de Gore Vidal sobre Brokeback Mountain quando a citei anteriormente. Re-post do link, com novo e curioso ângulo: “I was eager to see the movie about the two sheepherders, actually is what they are, they’re not cowboys. You can see there’s not a cow in the movie, just a lot of sheep. You can see how the two sheepherders might get tired of the sheep and begin to look to each other, as a kind of variation on a theme”.

escrito às 12:40 AM por giannetti

Quinta-feira, Março 23, 2006

Além de não gostar de telefone, também sou contra boates. Não é que não goste de gente. Não desgosto muito. Aprecio sem moderação os blocos de carnaval e isso é uma defesa contra qualquer acusação de misantropia. O problema com as boates é que, pra sair de casa, mulher precisa levar bolsa. Mas levar bolsa para a pista de dança – isso é anti-natural.

Apesar da gravidade do drama, mesmo com tantos animais morrendo em laboratórios e incansáveis baterias de testes behavioristas (yak) realizados mundo afora, os cientistas ainda não conseguiram encontrar uma resposta para o impasse: como as mulheres podem freqüentar boates sem levar bolsas?

Uma solução parcial é ser amiga do DJ. Você entulha a sua bolsa e o seu bolerinho na cabine dele e vai evoluir.

[Repare na moça da filipeta: ela está de bolsa? Vê-se que manteve o bolerinho. Ou será um rapaz que usou hormônios femininos? Depois que saí do convento, sempre fico em dúvida em relação a representações pop dos sexos.]

Porém, o que fazer com o resto do lixo nuclear deixado na pista? Tenho vontade de atear fogo nas pilhas de bolsas que ficam no centro daquelas rodinhas de mulheres dançando e oferecer cada falsificação em sacrifício flambado a São Louis Vuitton e São Balanciaga.

Porque é anti-natural dançar com uma bolsa – por menor que seja – pendurada no ombro. E não me venha com modelos atravessados ao corpo, populares em noites tecno; são só um jeito de se parecer com um carteiro que parou à tarde num botequim pra tomar uma cerveja e não voltou mais ao trabalho.

Como é que os homens saem de casa sem bolsa? Pochete não vale. Designer com mochilinha não conta. Me digam, como é que vocês fazem?

Muitos bolsos nas roupas, eu sei. Eu tenho uma saia jeans com muitos bolsos, bolsos largos, bolsos grandes. Mas quando eu coloco neles um terço do que eu tenho que carregar por aí, corro o risco de a saia deslizar até os meus calcanhares com o peso.

Lutando contra tudo isso, vou à festa anunciada na filipeta acima. Quem estiver no Rio, deve ir também. Mas não me dirija a palavra (ironia, tá? Brincadeirinha, hein?). O irmão do Mau Humor vai colocar som, então poderei entulhar meus pertences na cabine do DJ. Só não garanto que não vá incendiar pilhas de bolsas alheias no meio da pista.

escrito às 2:49 PM por giannetti

escrito às 12:58 PM por giannetti

ARGH

“Some reporters in the Speaker´s Lobby look like they´re homeless.” – Artigo na revista do Congresso norte-americano sobre o jeito mal-ajambrado dos colegas em Washington. Me lembra passagem de um livro, que, naturalmente, diz isso de um jeito mais bonito. Logo num dos primeiros capítulos de Hollywood, a poderoooosa editora Caroline Sanford Sanford* entra numa festa em Washington, que o autor define em uma frase de fazer a Zadie Smith morder de inveja o lábio superior**: “Tiffany´s largest lamps illuminated everyone´s worst angles”.

* [Caroline tem o Sanford Sanford duplicado porque ricos são supostamente very kinky e acasalam-se bastante em família, então as crianças ganham o mesmo sobrenome duas, três, quatro vezes. Se meus pais não fossem um médico e uma assistente social muito ortodoxos, eu poderia me chamar Cecilia Giannetti Giannetti Giannetti].

** [Para você ter uma idéia de como é terrível e feia a inveja causada por uma frase da lavra de Gore Vidal, vá agora ao espelho de sua cômoda, closet ou banheiro e, diante dele, morda o seu lábio superior.]

A história de Hollywood começa em 1917, no gabinete de William Randolph Hearst, padrinho de Caroline Sanford Sanford (dá vontade de ficar repetindo) no mercado editorial. Ele e Blaise Delacroix Sanford discutem Woodrow Wilson (o presidente, não o cão de Dorothy Parker), guerra e uma então nova forma de arte – o cinema. Meia-irmã de Blaise, Caroline comprou um jornal moribundo e o estabilizou, ganhando influência em D.C. Algumas páginas adiante, ela investirá no cinema de Hollywood. E ainda vai virar estrela de filme mudo. Tamanho tobogã de emoções não caberia no Projac.

Se transformassem esse enredo em uma novela brasileira de época, a Carolina Ferraz ia fazer o papel de Caroline Sanford Sanford; não por causa do nome mas porque a cara de uma poderia ser o focinho da outra (anything goes); o Guilherme Fontes seria o Blaise, e o Carlos Vereza (por ter sido o Senhor de Monserrat) faria o William Randolph Hearst; ou melhor, o Chatô, que é “o nosso Cidadão Kane”. “Ué. Não havia um filme assim em andamento, justamente do Guilherme Fontes? Pra onde será que foi?” Melhor que não apareça, senão a gente vai ter que assistir.

***

Em minha vida pregressa, toda vez que eu precisava convencer um editor de que uma pauta valia a pena ser realizada eu era tomada por uma vontade quase irresistível de ir criar trutas em Monte Verde. Mas aí eu pensava: nah, vamos ficar até a gente ser furado pela Veja.

É chato fazer jornalismo diário aqui. Cada grito de JURTIÇA! JURTIÇA! ouvido em funeral de inocente ou bandido é um turn off, não pela gramática curiosa mas porque não haverá nem jurtiça nem justiça. Não era sobre isso que eu ia falar quando comecei. Mas é meio difícil evitar o tema quando se mora numa cidade em que as crianças discutem no ônibus, à caminho do colégio, a que horas da madrugada pararam as granadas e começaram as metralhadoras. E a solução sugerida por um dos jornais de maior circulação parece passar pelo bombardeio de algumas áreas do Rio.

Eu ia falar de redação de jornal. O primeiro problema é que nunca me interessei por cobrir política aqui, não como é praxe nos jornais que temos – no dia-a-dia, exigem um tom que não combina com o lote de políticos que nos cabe: hillbilies metidos em esquemas. O segundo é a grande demanda por matérias de comportamento – aka pautas que se encaixam em moldes fixos como “Mania do verão no Posto Nove”, “O renascimento da Lapa” e “Algo que obrigatoriamente deve ser dado” (pedido de cima, file under amigos e atrizes – estou sendo indiscreta. Porém, “it is no use to keep private information which you can’t show off”… e algumas coisas nunca mudam, Hearst e History repeat itself). Sei que é normal mas não é por causa disso que tenho que achar bonito.

O que nos leva a outro problema: “esquisito” é bom mas só pode ser tratado como esquisitice. Explico: algo excêntrico pode – e deve – ser notícia. Mas você só pode abordar a coisa como se fosse o nascimento de um cabrito com três cabeças pensantes. Nunca como algo novo que pode cair em gosto popular em breve. Deve ser um dos poucos lugares do mundo em que matérias de comportamento obedecem a esse perfil. Exemplo que sempre dou quando me perguntam que diabos eu quero dizer com isso: Orkut. Era só uma excentricidade de nerds, não cabia como matéria de comportamento. No entanto, nos meses seguintes, os brasileiros rapidamente se tornaram os primeiros no ranking de usuários do site. O mesmo pode ser dito dos blogs, de que hoje ninguém agüenta mais ouvir falar. Emplacar uma matéria sobre blogs e revistas eletrônicas, há alguns anos, só em revistas como a extinta Play, da editora Conrad, ou suplementos especializados em web – como se a internet em si já não estivesse influenciando a maneira como as as pessoas (as que ainda saem de casa, yak yak) se relacionam “fora da web” etc.

(Voice over by ex-editores: “Continuo achando o assunto irrelevante! I don´t give a rats ass!”).

Claro que dá pra passar a vida inteira trabalhando em uma redação e, de quando em quando, emplacar aquela pauta que se quer. Depois de um tempo aprende-se a levantar o braço e pegar as pautas que chegam – as obrigatórias, as de “agenda”, lançamentos, etc. -, como pipas “avoadas”. Você pára de queimar a mufa inventando outras. E tudo isso é mais chato que criar trutas em Monte verde.

***

Eu sou uma tola sentimental colonizada mesmo, né? E gosto muito disso.

***

E por falar nesses assuntos, entrevista com Nelson Tanure, que comprou um jornal moribundo com sede no Rio de Janeiro e – bom, ele não é nenhuma Caroline Sanford Sanford.

escrito às 2:48 AM por giannetti

Quarta-feira, Março 22, 2006

Gore Vidal – que tem um “casamento branco” – sobre Brokeback Mountain:: “Sex is a continuum. You go through different phases along life’s way … and if you don’t, you’ve been sort of cheated.”. E explica porque Match Point foi o melhor.

escrito às 11:16 PM por giannetti

DIARY, A NOVEL

These are the three layers of your skin.

These are the three women in your life.

The epidermis, the dermis, and the fat.

Your wife, your daughter, and your mother.

If you´re reading this, welcome back to reality. This is where all that glorious, unlimited potential of your youth has led. All that unfulfilled promise. Here´s what you´ve done with your life.

Your name is Peter Wilmot.Chuck Palahniuk.

escrito às 11:50 AM por giannetti

INSALUBRIDADE E SADISMO

“Algo não vai bem na República Federativa do Brasil” – Deputado Aldo Fagundes, MDB/SP, em 1973. Conclusão muito atrasada.

O Brasil precisa de um Grande Romance que comece com esta frase como uma morsa necessita de um cabide. Está (a frase) entre as compiladas por Carlos Eduardo Novaes entre 1964 e 1994 em É Dando Que Se Recebe, Editora Ática, que ressuscito aqui de vez em quando por ser tão sadicamente divertido.

***

A Revista Época lançou seu blog de Politika. Para esses assuntos insalubres, continuo preferindo este aqui. Muito melhor, a começar pelo nome e pela imagem do cabeçalho.

Voice over by povinho: “Pau neles tudo! Yak yak yak!”

escrito às 11:10 AM por giannetti

TRICK OR PSYCHOTHERAPY TREAT

É claro que voltei a fumar. E eu sei que não cheira a jardim mas, sinceramente, agorinha, I don´t give a rat´s ass. (Sei também que não foi o Bogart que disse a frase, apesar do rat pack. Não abusa que ainda não fumei o suficiente pra começar a ser agradável).

A demonstração de fricote no post anterior é efeito colateral persistente da falta de cigarros ao longo de várias semanas. Gosto mais de mim quando eu odeio muito alguma coisa como a telefonia ou a história da passagem brilhante (fulgurosa, em algumas versões) dos meus tios pelo time amador do Vasco da Gama no começo do século passado, que já devo ter ouvido 15 vezes desde o Natal. Ouvi tanto que vou dar um jeito de enfiá-la no conto novo, pra ver se me livro dela.

***

Pra compensar o que na burrolândia se convenciona chamar de temperamento difícil (sinceramente, acho que é falta de senso de humor da vossa parte), vou espalhando pelo blog figura pra quem gosta de ver figura. Nenhuma relação com nada, file under pretty.

escrito às 1:54 AM por giannetti

Terça-feira, Março 21, 2006

CICILHA

Seis blogueiros em dez já fizeram seu post sobre aversão a telefones celulares e vou fazer um também. Pesquisadores, atualizem seus números.

“Ah, gente, só alguém que não tem amigos e não trabalha pode achar que celular é inútil!” Olha, quando eu quero falar com os meus amigos, eu os surpreendo em seu sono, sentada à cabeceira de suas camas na escuridão, cutucando-lhes o pé com uma morsa empalhada e observando em silêncio até que eles acordem gritando. Quando quero falar sobre trabalho no táxi a caminho de casa depois do trabalho, no cinema depois do trabalho ou numa festinha no Clube Hebraica depois do trabalho, eu me auto-flagelo com o que tiver ao meu alcance antes que consiga fazer uma ligação.

Por que eu deveria gostar de ser acessada onde quer que eu esteja, por qualquer pessoa que faça parte de uma lista de, digamos, dezenas de contatos – além de outros a quem os da lista tenham fornecido o meu número, e mais algumas ligações por engano e os trotes -, que podem decidir me dizer qualquer coisa a qualquer hora que desejem?

É como ser abordado constantemente por gente com síndrome de Tourette. E ser cobrado, em fatura bancária, por isso.

Por exemplo: reuniões. Você não desliga o celular – afinal, alguém pode te ligar com uma informação adicional fantástica e revolucionária sobre aquele assunto mesmo que está sendo discutido ali, naquela salinha de paredes de fórmica. Mas aí o aparelho toca e você escuta a voz da sua prima de 13 anos chorando por causa de um guri da oitava série que, btw, quando ela o apontou num Bar Mitzvah, pareceu talhado para fazer sucesso em um futuro bem próximo, no Desfile de Fantasias de Luxo do Copacabana Palace. Ou você está saindo do cinema em estado de graça após o novo do Woody Allen e liga o seu vizinho que largou o trabalho de agente de viagens para estudar Comunicação Social e acaba de ter a primeira aula de linguística estruturalista. Entusiasmado com as portas escancaradas do saber, ele lê direto da xerox de um texto de Saussure distribuída pelo professor da Universidade Estácio de Sá: “O significado e o significante, a entidade psicológica formadora do signo…”. Tudo porque a sua mãe deu o seu número para a mãe dele, no caso de precisar.

É como viver num mundo em que todos têm a pineal super-desenvolvida e podem se comunicar telepaticamente. A diferença é que apertam o botão do send para te comunicar cada pensamento.

Hora da verdade: é útil? Realmente útil?

Case study I: Como você acha que as meninas da cafetina Jeany Mary Corner tiraram fotos de nossos parlamentares trajando apenas Cohibas? Celulares. E adiantou de alguma coisa? => Neste caso, pode-se argumentar que o celular cumpriu sua função; a lei é que talvez não tenha cumprido a dela. (Do Noblat: “Nos últimos meses, Jeany tem espalhado que ela e suas ‘recepcionistas’ teriam testemunhado e até auxiliado a prática de atos de corrupção. Mas, em vez de denunciá-los, dedicou-se a vender seu silêncio. Em prestações.”)

Case study II: Durante a mais recente chuva a destruir o Rio de Janeiro, ocorrida há alguns… meses? deve ser. Bom, a amiga BB ficou ilhada numa exígua calçadinha da Avenida Rio Branco, no Centro da cidade, procurando na agenda do aparelho alguém que estivesse ali perto e a pudesse resgatar – quando seu celular, naturalmente, apagou. Sabe aquele último ponto de bateria que aparece no visor? Pois tenha certeza de que desaparece quando mais necessitamos dele.

Case study III: O celular oferece praticamente as mesmas vantagens de se ter no bolso uma bomba-relógio que pode explodir a qualquer momento, às vezes quase que literalmente, como já estão descobrindo as adolescentes que se sacodem em Araras.

Eu já escrevi aqui: telefones, em geral, só servem para pedir pizza (“Ah, então este não é o seu primeiro post sobre aversão a celulares!” É sim. O post anterior a que me refiro era sobre aversão a telefones fixos.) Porque eu não vou me arriscar a pedir pizza pela internet. Sei lá, acho que aí é abusar da tecnologia. Não funciona. Mas, fora pedir pizza, tudo o mais em comunicação à distância pode – e deve – ser feito por escrito.

Discutir por e-mail um assunto de trabalho economiza horas e horas para todo um grupo de infelizes que, otherwise, para chegar à salinha de paredes de fórmica do escritório, ficariam 1) presos no engarrafamento (e não falo só de São Paulo); 2) feios em roupas de escritório; 3) de saco cheio de ver uma mesma dúvida que já foi debatida no comecinho da reunião voltar à tona no final porque alguém se distraiu (justamente com o celular, que apitou), foi ao banheiro ou estava preso no engarrafamento e chegou atrasado com um terninho de dar pena. (Psiu… tenho uma teoria: reuniões em salas de paredes de fórmica são o lazer dos chefes que não têm amigos. Tipo ir ao clube. Mas aí eles são os donos do clube e dos amigos. Risos.)

O celular é tolerável se vocês se limitarem a mandar bilhetinhos com ele. Uma ligação que seria 99% abobrinha (“Bla bla bla… risos”) e 1% fato (“Me encontra em frente ao busto de Isaac Bashevis Singer às 20h!”) e custaria uma pequena fortuna poderá se resumir à frase que interessa e custará centavos.

O porém do bilhetinho é… Vocês já receberam uma mensagem de texto via celular com seu nome escrito numa grafia bisonha que nem a sua prima de 13 anos cometeria? “Cicilha, me encontra às 8h em frente à estaltua do Belini“. Pois então. Uma coisa dessas pode abreviar um envolvimento amoroso que – não fosse por causa do celular – teria durado ao menos até que o sujeito deixasse o primeiro bilhete em cima do criado-mudo. (Tenho outra teoria: os relacionamentos hoje em dia acabam rápido graças ao excesso de comunicação.)

escrito às 10:04 AM por giannetti

POR QUE ME UFANO

Ter um diploma universitário já não garante mais nada no mercado de trabalho na França.
“Qual o nosso objetivo? Nos mobilizar contra o desemprego, especialmente entre os jovens”,
explicam aos jornais os revoltados comedores de baguete.

Ter um diploma universitário há muito nada garante no mercado de trabalho brasileiro.
Ao menos aqui, logo no primeiro dia de aulas, aprende-se a pedir esmola.
(Duvido que os franceses tenham pensado nisso.)

***

“O Brasil é o último país feliz do mundo.” – Franco Zefirelli, cineasta italiano, de um camarote no desfile das escolas de samba cariocas em 1979.

escrito às 12:06 AM por giannetti

Segunda-feira, Março 20, 2006

MALDITOS NEO-TUBERCULOSOS LADRÕES

– Não é tuberculose!

N. acaba de sair de uma consulta num posto de saúde público. Está genuinamente feliz.

Eu estou de quatro, procurando por um maço de cigarros debaixo dos móveis da Área de Convivência.

Eu vim da rua, abri o maço, coloquei-o no lugar-aonde-deve-estar-ainda-ou-de-onde-escorregou-para-debaixo-de-um-dos-móveis, fui à cozinha pegar fósforos e

– Hein? Não é tuberculose, não!

Fico espantada com a capacidade que algumas pessoas – a maioria, acho – têm de encontrar felicidade em troços desse tipo. Era pra ele estar deprimido só por ter passado semanas com a suspeita de ter tuberculose. No século 21. (Peculiaridades como essa me valem a pecha de mal-humorada.)

Cheguei da rua, abri o maço, fui pegar fósforo na cozinha…

– Pleura… raio-X…

Perceba. Ele tá fascinado, fascinadinho com a pleura. Com o raio-x. Com a possibilidade – ainda que desmentida após duas longas semanas – de ter uma doença que há muito não preocupa quem anda calçado, faz mais de uma refeição ao dia e tem televisão em casa. Sala com janelinha ajuda. Se o barraco não tiver, não tem problema que a polícia ou o exército providenciam uns buracos para a ventilação.

Isso me lembra uma amiga que trabalha no Inmetro e pegou dengue hemorrágica. No século 21. (Uso a expressão “no século 21” loosely, como uma inocente). Isso me lembra o carrapato-estrela. Se eu fosse a minha amiga – que de vez em quando aparece no Fantástico – diria assim, logo depois do Zeca Camargo: “Esse produto que usam para matar mosquitos transmissores de endemias bisonhas que já deveriam ter sido erradicadas não ganha o selo do Inmetro!” What´s next? Bicho-do-pé?

Aí eu vim pra cá, não, pra perto da porta da rua de novo, onde fica a mesinha… será que eu botei na gaveta pro tuberculoso não pegar?

– … fazer uma punção, né, sete horas da manhã.

Fico de quatro outra vez. N. tosse. Não está debaixo do sofá, nem da cristaleira – casa velha tem cristaleira -, nem da mesinha perto da porta da rua, nem de porcaria alguma.

– Punção ou pulsão?

Desço pra comprar outro maço.

escrito às 4:33 PM por giannetti

Domingo, Março 19, 2006

Vídeo de Django Reinhardt no link acima. Abaixo, musiquinha do mesmo cigano, “I´ll see you in my dreams”.

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[Ato falho: duas fotos em 24h com homens de cigarrinho pendurado na boca.]

escrito às 3:02 PM por giannetti

FILE UNDER

[insanidade temporária]

Muito difícil perder um gato e parar de fumar ao mesmo tempo. Não creio que qualquer devoto de gatos já tenha se aventurado a tentar o feito.

escrito às 1:28 PM por giannetti

Sábado, Março 18, 2006

GUIA RÁPIDO DE TELETRANSPORTE E DESINTEGRAÇÃO

Tive idéia pro conto da antologia nova hoje [foi pedido há, sei lá, um mês – mas a mudança etc., – e a entrega é dia 31]. Sobre os capítulos enviados do romance, o editor-viajado não responde. Por isso a frase fica feia, aliterada, iletrada [ados, ado, ada, ada] abusando da repetição. E a responsabilidade sobre essa feiúra toda é exclusivamente minha, que não sei transformar em beleza e sensualidade a seca realidade. Violinos. Mas eu gosto dos capitulinhos, ah, gosto, ainda que um dia me mandem enfiá-los num buraco beeem fundo onde nenhuma outra criatura jamais possa alcançá-los. Ou ainda que não digam chongas.

Estou tão faceira. Culpa do remake de Sinhá Moça na idiot box. Não vi ainda mas, agora, as emanações me estão próximas – há uma TV na área comum da casa provisória e chegam aqui ao quarto os gritos de alguns escravos não-alforriados que apanham no tronco cenográfico. Na sala o pessoal comenta. um amigo meu que escreve novela foi no Projac e disse que lá é tudo igualzinho à vida real mesmo. se precisa de elefante, pá, eles produzem um elefante; precisa de um candidato à presidência, pá, lá está o homem acenando de dentro de um coletivo suvaquento em campanha; quer feira? pá, jaca de verdade, frutas do norte, grãos exóticos importados como não se vê em feira alguma aí pelas nossas cidades, muito melhor que as nossas cidades, tudo assim, na real. pá. mas esse escravo berrando no tronco cenográfico tá é fazendo charme.

escrito às 1:33 PM por giannetti

escrito às 1:27 PM por giannetti

TAPINHA NAS COSTAS

Depois da minha licença devolveram-me meu emprego de revisor, mas a revista e a editora que o sustentavam estavam à beira da falência. (…) as coisas se deterioravam mais a cada semana. Os resenhadores elogiavam um livro, mas eu não entendia por quê. Quando condenavam um livro, a condenação me parecia infundada também, muitas vezes repleta de antagonismo pessoal. A poesia era cheia de retórica, e banal. (…) Corrigir aquele lixo se tornou um tormento físico para mim. – Isaac Bashevis Singer, Amor e Exílio, 1984.

escrito às 10:07 AM por giannetti

MARIA MARIA

Assim mesmo, duas vezes. Era minha e agora foi morar com Antonia e o amigo Menezes, um gato branco. Não pude ficar com ela, continuo cigana [carroças e trailers são extremamente deselegantes; gatos… não]. Maria Maria deserves better.

escrito às 1:15 AM por giannetti

“AND THIS TORMENT WON´T BE THRU…”

(…) there is not a chance in hell of America´s becoming humane and reasonable. “Cold Turkey”, texto véio de Kurt Vonnegut.

escrito às 12:49 AM por giannetti

BELÍSSIMA

Modelo na Fashion Week de Kiev sexta, 17. O designer é ucraniano. [A última informação é relevante para mim, ainda estranhamente obcecada por Eugene Hutz].

escrito às 12:00 AM por giannetti

Sexta-feira, Março 17, 2006

XICO SÁ

[re-postar é preciso. o sujeito comanda]:

o brasil é tao fuleiro…

que o culpado, senhores,

não é o mordomo, é o caseiro!

escrito às 10:32 PM por giannetti

Quinta-feira, Março 16, 2006

HOMEM QUE PENSA AO CONTRÁRIO

Ou seja, muito freqüentemente uma mulher (de acordo com ele), deveria se sentir incomodada com a bagunça durante e após a mudança. Só que, quanto mais troco de casa, menos incomoda a desordenação em torno do computador e dentro dela. Os livros estão na estante – exceto aqueles perto da cama ou de um sofá que já existia na casa nova – o resto pode fica, até segunda ordem, por onde se espalhou. A bagunça é temporária, a arrumação também seria (que pessoa desapegada). A cozinha, intransitável. Mas quem pretendia cozinhar? Calor demais pra isso.

escrito às 5:28 PM por giannetti

E o que Deus tem a ver com tudo isso, se ele não dirige um caminhão de mudanças?

escrito às 4:57 PM por giannetti

ALWAYS LIKE A DOG, SO LONG AS HE ISN´T SPELT BACKWARDS

Noverim te, noverim me…

escrito às 4:53 PM por giannetti

Quinta-feira, Março 09, 2006

escrito às 7:55 PM por giannetti

Mudei de casa outra vez. É o sexto endereço em três anos e alguns meses. Mudo com freqüência não por gostar de ver minhas coisas empacotadas e de arrumar os livros todos de novo, cada vez num cômodo, num bairro diferente. É do jeito que é. Kilgore Trout diria: “Coisas da vida”. O Brandão Filho diria: “Primo, você é ótimo”.

Estou usando internet num cyber, respondendo e-mails de trabalho e dando notícias pros amigos rapidamente pelo messenger. Aviso que é pra não levar esculachos indevidos, além dos merecidos.

Na última madrugada de carnaval me disseram mais ou menos assim: “Te passei um e-mail anônimo perguntando quando fica pronto o livro”. E aí eu ouvi a claque. Aquelas risadas que os diretores de programas humorísticos ainda insistem em colocar depois dos bordões, indicando à platéia que é hora de rir. Eu ri.

Depois disso, achei que devia dar alguma notícia sobre o livro aqui. Aguarda aval do editor, que viajou.

Respondi a mesma coisa lá naquela madrugada e segui em direção ao ponto da orla de Copacabana em que o broco ia se encontrar. Era o último a desfilar na Zona Sul – acho – na terça-feira de carnaval, era meu quarto cortejo momesco suvaquento do dia. Fui pensando – só um pouquinho – naquela história de que a temática da nova geração de escritores é limitada a suburbanos e/ou marginais miseráveis, seus cortiços e a putaria intrínseca, porque os autores não conhecem outra coisa. Enfim, não escrevem sobre a minoria excluída porque vivem entre a maioria esmagadora de suburbanos e/ou marginais e miseráveis incluída nos altos índices de desemprego.

Na verdade, primeiro eu pensei no Brandão Filho e no Paulo Gracindo. Só depois é que eu pensei noutra coisa [porque primeiro, é claro, vem a cultura televisiva. A nossa jóia nacional.]

A outra coisa em que pensei foi que posso aceitar essa teoria… mas só quando me oferecerem uma oportunidade de testá-la empiricamente. Quando um(a) leitor(a) – anônimo(a) ou não – decidir me mostrar como é ter minhas contas pagas por outra pessoa, estendendo-me o carinho de seu cartão de crédito com limite estratosférico, não só compreenderei melhor o senso de humor das camadas superiores excluídas como escreverei mais rápido.

Nojento. Tchan!

escrito às 7:38 PM por giannetti

Sábado, Março 04, 2006

escrito às 7:05 PM por giannetti

POR QUE CARGAS D´ÁGUA ELES NÃO ENTENDEM?!

O mercado [a quitandinha] é uma criança esperneando pra não comer.

[O contrato entre Google e a Universidade de Michigan para digitalizar livros e papelada acadêmica da biblioteca da Universidade, para pesquisa, deixa claro que o Google Books vai oferceer apenas trechos dos livros no mecanismo de busca.]

escrito às 7:03 PM por giannetti

20 PRA ESQUECER 20 PRA LEMBRAR

I waited 40 years before giving it a go, one of the longest periods a professional writer has put off describing the most formative events in his life. Twenty years to forget, and then 20 years to remember. – Artigo de J.G. Ballard, no Guardian.

escrito às 6:59 PM por giannetti