A realidade falha sucessivamente, o mundo é precário, a vida é quebradiça. E os pessimistas se divertem menos.

Na quarta-feira de cinzas um bloco sai do Lido, pega a Atlântica, vai em direção ao Arpoador. Em fila indiana, idênticos, cortam a massa alcoolizada. Giram cordas com bolas de borracha que acertam no asfalto, fazem com a boca um som agudo, barulho de ratos. Vestem calças e camisas de mangas compridas de cetim vermelho, o capuz é preto e a cara estampa uma caveira.

escrito às 3:22 PM por giannetti

24.2.06

EPICURISMO

Qual o limite de tempo em que o uso de uma máquina operatriz muito, muito potente – uma broqueadeira ou uma furadeira/rosqueadora múltipla [know thy enemy] – é absolutamente necessário?

Que tipo de perfuração requer o emprego de uma dessas máquinas em sua total potência por mais de quatro horas seguidas, dentro de um predinho antigo?

O que pode ser tão infinitamente sólido, capaz de resistir por tanto tempo à furação desvairada?

“Com licença, Senhores de Short Adidas sem Camisa… é um túnel para nos conduzir à felicidade?”

[que putos]

escrito às 11:24 AM por giannetti

ISAAC B. SINGER

You have said that literature must first of all entertain — otherwise, who is going to read it?

Of course. Those writers who just cry on the shoulders of the reader and do nothing else, they don’t inform enough, and they don’t entertain enough. So, because of this, all their experiments become of no value whatsoever. – Última entrevista de Bashevis, à Salon.com, 1987.

escrito às 2:36 AM por giannetti

escrito às 2:36 AM por giannetti

23.2.06

deracinated
de·rac·i·nate

tr.v. de·rac·i·nat·ed, de·rac·i·nat·ing, de·rac·i·nates

1. To pull out by the roots; uproot.
2. To displace from one’s native or accustomed environment.

[From French déraciner, from Old French desraciner : des-, de- + racine, root (from Late Latin rdcna, from Latin rdx, rdc-. See wrd- in Indo-European Roots).] de·raci·nation.

escrito às 3:31 PM por giannetti

22.2.06

AH SWEET SCREWJACK WE ARE DOOMED

[existiria algum milionário, no japão ou noutra potência de renda percapta superior à nossa quitandinha, um homem misterioso e burro a ponto de pagar bem para ver realizada uma fantasia incomum?, um homem rico cuja perversão voyeurística combinasse perfeita e intrínsecamente com meu estilo de vagabundagem predileto?, que goste de olhar a gente ler e, de vez em quando, rabiscar?]

Like my beast and my dolphin, my perfect dream lover, like that ghost that I must forget . . . and my beautiful little tattoo that will cost me $1500 to get burned off my shoulder with a laser needle. – “Screwjack”, H.S. Thompson.

escrito às 11:47 PM por giannetti

18.2.06

BURACO DA FECHADURA

Re-blogado: “Arrisco dizer que escrever é a forma mais mentalmente extenuante de tentar transmitir nosso fluxo interior de pensamentos e impressões. As palavras são pecinhas muito pequenas, com regras de encaixe manhosas, chatinhas. Tentar transformar um clarão intuitivo em uma seqüência linear de palavras pode ser bem complicado.” Isso é coisa do dono do cão, que eu não lia faz um tempo.

***

Começando meu plano modesto de pegar os livros dos novos que não aparecem nas livrarias cariocas. Quando eu tinha dinheiro, não tinha um segundo pra mandar um cheque pelo correio. Agora eu tenho tempo de sobra, mas adivinhem só. Não faz mal: vai um de cada vez, um a cada mês. Importante é que as coisas importantes não sejam mais confundidas com 10 horas diárias – intervalo de 40 minutos a cada dia para engolir comida aquilo em bando – com os pulsos amarrados numa mesinha de fórmica.

escrito às 3:03 PM por giannetti

12.2.06

REVISTA BALA

O sisteminha da revista avisa que três incautos leram meu editorial na Bala antes de eu passar o pente fino. Tinha escrito aquilo nas últimas da madruga, babando de sono, e devia ter relido antes de postar. My bad. Agora tá limpinho, já pode usar.

***

A ausência absoluta de revistas importadas, em especial, não passava despercebida. Eu sabia que elas existiam. Às vezes eram citadas nos cadernos culturais dos poucos jornais disponíveis. Ou apareciam na biblioteca da sede da Cultura Inglesa, de onde nunca podiam sair.

A falta de bons livros era uma charada fácil de matar: não existiam livrarias no bairro, só umas papelarias estrategicamente localizadas ao lado dos maiores colégios, que vendiam apostilas e material escolar. Mas nunca cheguei a qualquer conclusão sobre a seca de revistas e periódicos importados. Se a vida no bairro era uma mistura de Twin Peaks com Barrados no Baile, então nada justificava que nos privassem de lixo pop impresso.

Um dia compreendi que o Aeroporto Internacional da cidade não tinha sido colocado à toa ali perto de casa: foi nele que encontrei duas livrarias de verdade de uma vez só, duas naves-mãe brilhando e deixando a gente tonto com fileiras arrumadinhas na parede, cheias de opções inumeráveis, edições dos meses anteriores e novas de Rolling Stone, Details, The Face, Smash Hits, Vanity Fair, NME… um universo inteiro de publicações fincado ali, num lugar de passagem, de transição.

As capas realmente brilhavam. O cheiro do papel chegava a dar barato. A variedade oferecida naquelas prateleiras causava um contraste alarmante em relação à escassez de prata-da-casa. No Brasil só tínhamos uma revista de música mais abrangente, a Bizz. É natural que a Revista Brasileira de Música, criada em 1934, não fosse levada em consideração por nós, já que desconsiderava o resto do mundo da música. Também só uma revista tratava de cinema, a SET. E, por mais que eu tentasse “economizar” e ler poucos artigos a cada dia, elas não rendiam o mês inteiro. Não havia Trip. Não havia Cult. Não havia Bravo. E a internet só chegaria às nossas casas dez anos depois; TV a cabo, ao menos em Beverly Peaks 90210, ainda mais tarde. Cerimônia do Oscar, só com o Rubens Ewald Filho; videoclipe, só no Canal 13 e com muito chuvisco e chiado.

escrito às 12:45 PM por giannetti

10.2.06

HOMEM-BOMBA

Já está na Revista Bala a minha matéria/entrevista com Hossein Derakhshan, Mojtaba Samienejad e outros blogueiros iranianos [presos e exilados] que até perderiam a cabeça mas não perderiam o post.

“Gostaria de saber realmente se usar o Google para obter informações sobre pessoas na fronteira é um procedimento aprovado pelo governo dos Estados Unidos. Porque há implicações muito sérias nessa prática: significa que eles assumem que qualquer coisa publicada na internet sobre alguém é confiável. Então, se você não gosta de alguém, pode facilmente criar um blog em nome dessa pessoa e escrever coisas terríveis ‘assinadas’ por ela. Como pode um oficial de segurança na fronteira diferenciar informação de desinformação? É uma questão séria e os grupos de direitos civis deviam pedir esclarecimento”, protesta.

escrito às 11:30 AM por giannetti

9.2.06

“I liked the band, specially their precise fingers, neither inspired nor fussy but always accurate. When you feel lost in the world, there is some joy to be gleaned from exact imitations of familiar things.” – Zadie Smith, “Hanwell in Hell”.

escrito às 3:01 PM por giannetti

PINGÜIM DE BOLSO

Nada de muito novo nisso – a coleção aportou no Travecão de Ipanema no final do ano passado – mas vale dar uma cavucada* nas estantes da livraria em busca dos melhores entre os 70 livrinhos pocket lançados para marcar os 70 anos da Penguin Books. Se quiser levar os 70 títulos, não sai mais amargo que um importado [ou alguns nacionais que custam 50tinha]: o preço de cada edição comemorativa de bolso é derroyal [R$10, 10 Narjaras Turetas]. E há coisas como dois contos da Zadie Smith, “Martha, Martha” e “Hanwell in Hell”, até então inéditos em livro, e “A Story For Europe” e “Design Faults In The Volvo 760 Turbo: A Manual”, do Will Self.

Tem Dave Eggers, Muriel Sparks, Paul Theroux…

*[Assim como fuder e buceta, cavoucar só é capaz de significar o que representa se perde a letra “o”. Que barulho é este? Ah. Lingüistas. Soltando fogos outra vez.]

escrito às 2:59 PM por giannetti

SPECIAL PEOPLE CLUB

[Foto abaixo por Ismar Tirelli, que só manda coisa boa pra minha mailbox e deve colaborar com a Bala nova. Já existe uma versão beta da revista e no fim de semana os leitores cadastrados devem receber a primeira newsletter com as novidades. Aceitamos contribuições: artísticas, financeiras e ilícitas. Pensando bem, o fotógrafo pode não ter sido Ismar Tirelli. Era uma noite estranha – repare nos borrões, típicos de noites estranhas e de fotógrafos bissextos -, com uma velha sugando oxigênio de uma máquina no apartamento abaixo e o anfitrião teria uma crise de rins cinco dias depois. Ismar Tirelli, artifício da imaginação, provável pseudônimo de um velho conhecido, carrega o peso do mundo na mochila e certamente estaria escrevendo numa hora daquelas.].

escrito às 12:36 AM por giannetti

EILEEN BYTES

let me fry an egg
on your ass
& I’ll pick up
the mail.
– [“Each Defeat”, Eileen Myles.]

escrito às 12:31 AM por giannetti

8.2.06

E-PISTOLAR

[notícias genéricas filtradas de carta para domínio público.]

escrito às 4:15 PM por giannetti

SAUDADE

De São Paulo.

escrito às 1:17 AM por giannetti

4.2.06

DE QUANDO O MAIOR DILEMA ERA SE THE EDGE ESTAVA NOS ENGANANDO OU SABIA MESMO TOCAR GUITARRA

“Olha como se estivesse a dois degraus acima mas nao existe escada. Sentamos frente a frente, continuo com a impressao de que ele paira acima e enxerga la embaixo uma miniatura de mim. Nao se impoe, eh a favor de qualquer um que nao seja ele mesmo. Tem lentes de aumento, entramos debaixo da mesa e desaparecemos pra sempre ate sentir uma das maos dele. O resto do corpo representa para os outros ao redor. Os angulos desfeitos debaixo de uma lampada fraca, outros rostos a qualquer movimento, outras possibilidades de homem, em sua velhice, em sua monstruosidade da juventude e a que chega tanto tempo depois de ter sido jovem. Olhos congelados, boca ri torta, abafa o zumbido das pessoas em torno da mesa. Tudo movendo menos os olhos, uma das maos devagar sob a mesa e a outra controla o copo em cima dela. “

[numa cidade so nao da, numa unica sala, numa unica casa. agora so por email ou se eu bater na tua casa e pedir pra usar o computador]

p.s.: temporariamente sem acentuacao.

escrito às 6:30 PM por giannetti

MENINO DO RIO [JORDÃO]

O gatinho cheio de aparatos explosivos sob o terno mal-ajambrado é Kais Nashef, um dos homens-bomba no filmaço [em cartaz] Paradise Now. A Revista Bala vai voltar na próxima semana com uma resenha minha sobre o longa e muitas mudanças. Uma delas é que, incorporada à revista, a Irmandade Raoul Duke volta à carga, editada pelo Cardoso. Preparem contribuições, estamos recrutando.

escrito às 2:32 PM por giannetti

1.2.06

NÃO QUEREMOS LER SOBRE O MUNDO

Os Estados Unidos lêem matérias sobre o resto do mundo, ainda que às vezes pareçam achar que o resto do mundo são sobras nojentas de sua grandeza. O Irã lê matérias sobre o resto do mundo, ainda que parte do país acredite que o mundo não-muçulmano esteja errado. O Reino Unido tem o suficiente de euro-trash pra se divertir, mas, ainda assim, é incapaz de dizer não a um escandalozinho que ocorra fora dos domínios de seus tablóides, se a história for boa.

Uma matéria sobre escritores iranianos presos e torturados – condenados por expressar sua opinião na internet – é assunto distante demais do Brasil? Isso é justificativa? “O texto está ruim” é justificativa. Distante demais do país, especialmente pra um veículo que só existe na internet, não é. Isso não existe mais para quem lê conteúdo publicado exclusivamente na web, seja lá em que país a matéria é publicada. Ou somos uma ilhota onde a única coisa internacional que existe é o aeroporto? Se for assim, o aeroporto internacional é a melhor coisa que temos.

Ah, a questão não é grana. Trabalho sempre pinta. Mas numa semana em que Irã está bombando no noticiário internacional e dois dos entrevistados na pauta passaram por situações inéditas na história das relações com autoridades religiosas iranianas… realmente importa em que país se apura e publica a matéria?

Eu sei. O carnaval tá chegando, tenho ele no braço direito, um desenho do J. Carlos. Gosto muito. Mas o mundo não é isso, ainda que seja mais bacana seu lado festivo pierrô/colombina. Fantasia serve para romance, conto. Em pauta, melhor usar o resto do mundo fora do umbigo, só pra variar.

Sabemos todos. O verão escaldante cheio de pecados pelos quais estamos todos sempre babando, as praias, os mesmos botecos “patrimônios históricos” de 50 anos atrás… mas na hora de trabalhar, o provincianismo não é o traço cultural preferido do nativo que está de saco cheio do cocar. Só atrapalha. E é chato.

escrito às 12:03 PM por giannetti