31.1.06

CARTA AO NOVO

“Não sei como reagir à infinidade de coisas que todos já experimentaram antes de mim, e contaram tudo antes de mim. Por mais que eu procure e leia, em livros, jornais, pesquisas – é como se nada do que está catalogado valesse mais.”

Powered by Castpost

“Identifico logo o homem de óculos com jeito de criança e roupa de executivo; alinhado, mas eu achava que a qualquer momento o disfarce dele ia se descolar do corpo e revelar um moleque. Ao seu lado, um outro homem – magro, baixo, narigudo, boca de caçapa, camisa aberta no peito, que ri para a mulher sentada à sua frente – ela, seu oposto, um espelho bizarro que devolve a imagem exatamente oposta: alta, pedaços das curvas sobrando pela borda do tampo de mármore da mesa, nariz infantil, boca tipo cereja em cima do sorvete. Vestida bem. Eu devia ter tentando uma roupa melhor, feito o esforço diante do espelho, essa ou aquela?, dispostas em cima da cama as melhores peças. Vim despetalada e beligerante, graças a Deus, que os dois não parecem boa coisa.

Minha voz se altera, o bom dia sai grave pela brecha apertada entre os lábios. Eles devem ter dormido as oito horas ideais, descansaram bem, já que acham agradável marcar o café às 10h no Centro com estranhos. Ela pára de rir com a cereja brilhando em cima do queixo quando me olha. Vontade de errar de mesa ou dar as costas mas ele me viu e ele me conhece. Estou parada na frente dele, me vê por trás das lentes grossas, e eu ainda não disse nada, penso tudo calada. Como passar do que penso ao que posso e quero dizer? Não é como a linguagem inventada dos feirantes, fonemas de cores. Não é como no papel.”

Powered by Castpost

escrito às 2:21 PM por giannetti

ESTE MUNDO AINDA É LUGAR?

[se ele não fica quieto um segundo só pra gente saber do que se trata…]

Powered by Castpost

“Caminhando pela rua com um ex-colega de trabalho, gesticulando muito porque o assunto eram as invasões da polícia, na manhã anterior, ao morro próximo ao prédio despedaçado da antiga redação. Meu colega dizia que não se deve escrever do mesmo jeito sobre cada tiroteio novo que acontece. “Se a gente só atualiza o número de mortos, o local e a data de cada tiroteio, as notícias se anulam, os mortos não morrem.” Um senso comum na faculdade, esquecido na redação porque é assim que tem que ser. “Esses óbitos são iguais aos tijolinhos anunciando shows, filmes, bares”, e era assim que eu ia dizendo, idéias apodrecidas no fim da semana. Abanava as mãos na frente do rosto, gesticulando ou livrando-me das idéias, mãos podem ser asas ou pás de lixo. No sinal fechado para pedestres vi o amigo do outro lado da calçada, magro como sempre, e isso eu sabia porque o conheço há doze anos e quase dava para perceber os ossos debaixo do casaco verde-musgo, inexplicável como o gorro de lã preto no calor de 35 graus anunciado pelo termômetro digital bem do lado dele. Encarei a fisionomia dele endurecida debaixo dos óculos de aros grossos e escuros. Eu me ouvi dizer mais coisas cretinas, fazendo coro com as buzinas dos carros eu pensei “ele me viu e ele viu que eu o vi”. Meu ex-colega de trabalho jogou um toco de cigarro no chão como se ele fosse melhor que as pessoas que têm carro. Os motoristas de má vontade na frente do sinal olharam pra quem passava como se estivessem procurando alguém. Meu amigo passou ao lado do meu ex-colega de trabalho e não me olhou uma segunda vez.”

Powered by Castpost

escrito às 2:15 PM por giannetti

27.1.06

CRÔNICA DE UM FRACASSO INICIAL

“Da mão para a boca”, Paul Auster, 1996. Cia. das Letras. Não é genial, é necessário. Como um monte de coisa que fazemos [e às vezes saem melhores que o resto].

O caderno preto agora só tem nove páginas em branco, as coisas se arranjam, os frilas vêm e vão.

Um deles é sobre o iraniano de 25 anos “liberado” (levado de algemas) na semana passada para prestar exames na universidade onde cursava jornalismo. Ele não aparecia desde que foi preso pela segunda vez por postar mensagens contra o regime conservador do Irã em seu blog. Pegou pena de dois anos de prisão e já cumpriu quase um inteiro. Mulheres blogueiras também já foram em cana e a chapa continua esquentando. Basta um comentário pró-reforma misturado a alguma referência à cultura pop e o blogueiro vai em cana. Se no Irã até fumar é ato político, também são desencorajadas manifestações de individualismo. E a exposição de umbigos promovida pelos blogs não agrada à turma de Mahmoud Ahmadinejad.

O texto tem também entrevista com outro iraniano, que esta semana pisa pela primeira vez em Tel Aviv, onde vai falar sobre tecnologia, internet e Ahmadinejad. É possível que, por conta da visita, ele não possa mais entrar no Irã, onde mora sua família. E já está proibido de entrar em território norte-americano desde o final de 2005, quando dois oficiais de fronteira pararm o ônibus em que viajava do Canadá para os EUA e decidiram dar uma busca em seu nome pelo Google. Quando encontraram seu blog, pesou a crítica ao governo de Bush – coisa que se encontra em qualquer “querido diário” na internet hoje em dia. Os oficiais travaram o sujeito numa saleta por duas horas e depois barraram sua entrada no país. [Pela lei, ele deveria poder entrar e ficar até seis meses seguidos nos EUA, já que vive legalmente no Canadá]. Apesar da hipocrisia americana, suas queixas recaem sobre política e costumes do Irã: “A maioria dos homens iranianos e também muitas mulheres – até mesmo as mais jovens – são sexistas, homofóbicos e racistas. Este é o nosso grande desafio a ser vencido no futuro”, escreve.

escrito às 12:06 AM por giannetti

26.1.06

HOMEM SEM PAÍS

Memórias de Kurt Vonnegut, puta título. E trechos no Guardian.

I want to congratulate librarians, not famous for their physical strength, who, all over this country, have staunchly resisted anti-democratic bullies who have tried to remove certain books from their shelves, and destroyed records rather than have to reveal to thought police the names of persons who have checked out those titles.

(…)

And still on the subject of books: our daily news sources, newspapers and TV, are now so craven, so unvigilant on behalf of the American people, so uninformative, that only in books do we learn what’s really going on.

escrito às 11:59 PM por giannetti

12.1.06

TELEPATIA

Bilhete em porta da geladeira foi feito pra ser ignorado porque fica sempre nada estrategicamente no meio dos outros bilhetes velhos que esquecemos de ler, tirar debaixo dos ímãs, amassar e jogar no lixo. Por mais que eu pareça a sua mãe falando agora, não ignore o bilhete abaixo. Aproveito o hiato de trabalho pra terminar alguns textos, não estou conseguindo responder e-mails, não estou no Rio.

escrito às 2:00 PM por giannetti

4.1.06

BILHETE NA GELADEIRA

Não me lembro de época em que os domingos não tenham sido motivo de agonia. O repertório de motivos para que a sensação atazane desde as últimas horas do sábado é compartilhado entre amigos meus e conhecido – quase um clichê – também entre os que não se sentem oprimidos por ela. A causa principal, na qual as demais se acomodam igual ninhada na barriga da mãe, é justamente que se trata do dia entre o sábado e a segunda-feira. O momento em que a proximidade da segunda-feira é tão grande que é engolida a distância entre mim e o convívio empoleirado nas divisórias de fórmica e alumínio da semana. O que sobra é um rabo insignificante de domingo. Nada mais pode ser feito, o dia seguinte já está no despertador acertado pra tocar às 5h, um atestado de burrice que faz tique-taque de bomba.

Como escrever de novo o jornal de ontem? [tom zé em resmungo via winamp]. Só é possível não fazer o de amanhã, não voltar à fábrica de maluco, não arquivar a segunda-feira entre fórmicalumínio, misturada com a terça, a quarta, a quinta, a sexta. Aí a natureza angustiante some, a segunda deixa de ser dia fórmicalumínio – terça, quarta, quinta, sexta, sábado, domingo, a próxima segunda-feira a seguem instintivamente – vira mais um dia pra catar papéis soltos e os grampeados, digitar dois cadernos, colar ao word no sentido em que se parecer menos com as coisas que acontecem e as coisas que deixam de acontecer. Mande o mundo à merda de vez em quando e ele vai te tratar muito melhor. É o primeiro esforço de caridade que o boçal precisa fazer para deixar de sê-lo e para ajudar sem destruir, o egoísmo aí é recomendável.

***

Consegui um lugar simpático [e de graça] pra passar uns dias, onde o celular provavelmente pega mas com interferências que, se eu tiver sorte, vão ocorrer justo quando me chamarem de coisas piores que ‘egoísta’ do outro lado da linha. Vou demorar a responder e-mails.

escrito às 1:23 AM por giannetti