28.2.05

ESPELHO TRINCADO

Tour, do Sergio Mello, de quem roubei uma epígrafe.

então ela se aproxima do seu ouvido
e confessa que morre de medo
de roda gigante de parque do interior
intermináveis demãos de tinta
pra esconder a ferrugem
ou senta-se ao seu lado na praia
pra comentar suas costelas saltadas
¿parece até que você engoliu uma gaiola¿, ela diz
enquanto você tá deitado descansando
de uma corrida apostada de um canal a outro
valendo uma garrafa de qualquer coisa
que faça sair fumaça do fígado
a loucura pode te enquadrar
com um português de aeromoça
ou de uma prostituta infantil e litorânea
dessas que costumam ser barradas na porta do hotel
e eu não quero ver meus amigos enlouquecerem
tampouco quero ler as suas cartas
de acuados no canto de um cômodo sujo
falando coisas de uma cidade
pra qual meu ônibus tá se dirigindo

escrito às 12:06 PM por giannetti

25.2.05

BOATOS E FATOS E ATIVIDADE CLANDESTINA NO ARMÁRIO

(armário aqui assume a conotação assexuada de um escritório clandestinamente embutido na parede como nas velhas histórias de castelos e passagens secretas; mesa e micro podem facilmente ser escondidos em questão de segundos, como num truque de mágica, bastando para isso um fechar de portas. pode-se guardar até dois autores de estatura mediana ou um de projeção internacional dentro dele junto com a mesa e o micro, se os bardos concordarem em se agachar.)

Dito isto, o armário está escancarado, a janela aberta, livros novos lotam duas caixas aguardando alguém disposto a ficha-los para uma editora e enquanto tudo isso acontece do seu jeito estático – já repararam que existem poucos filmes de ação sobre escritores?

escrito às 11:53 AM por giannetti

22.2.05

NARIZ E CORAÇÃO PARTIDOS

social distorcion – “ball and chain” – broken nose / broken heart / empty bottle of gin…

jayhawks – “trouble” – it was just the blind leading the blind / it´s better than being alone…

Ontem o Eduardo Fernandes (“O prazer de decepcionar”, Ciência do Acidente, 2003), que editava a FRAUDE, deu um toque pra eu escrever um artigo sobre Hunter pra uma revista. Não sei se vai ser publicado mas o mote do negócio era tentar explicar o suicídio do Dr. Gonzo. Mesmo depois de descrever as duas teorias que consegui colher no mundo mágico e fértil da confusão mental, continuei sem resposta. Vai ver o Cardoso tá certo; a hipótese do Agente Laranja é roleta russa gone awry.

Que outro motivo? Alguma doença terminal que ele não estivesse a fim de ver como termina, puro pânico ou tédio na Owl Farm?

O problema na Owl Farm foi quando a realidade começou a ficar parecida demais com o que antes não passava de paranóia. A paranóia era sua droga preferida, seu combustível pra escrever. Quando certas monstruosidades antes apenas imaginadas começam a brotar na primeira página dos jornais, “a festa acabou”, como ele mesmo escreve na autobio Kingdom of fear.

Nesse livro (Penguin, 2003), Hunter prega mais Bob Dylan que um pastor cita a Bíblia; o velho fanho aparece em epígrafes e meiucas de texto por toda a parte. Acho ruim qualquer hipótese que apareça pra explicar o que aconteceu mas tem uma que é especialmente escrota. Passa por “Things have changed”, do próprio Dylan: “People are crazy, times are strange / I´m locked in tight, I´m out of range / I used to care but / things have changed”. Nesse caso, entendiou de tudo que sempre o interessou mais. A paranóia, a zona do mundo, isso tudo virou a doença que ele não queria pagar pra ver como progride nos próximos anos. Kill the head and the body will die.

escrito às 9:21 AM por giannetti

21.2.05

HUNTER

Hunter Stockton Thompson, assim como o gin, o bourbon, o tabaco e o Kentucky Derby, é um típico produto de Louisville. A cidadezinha do Kentucky, no sul dos Estados Unidos, é conhecida por sua produção de bebidas e cigarros, além de abrigar o tradicional, e por vezes violento, Kentucky Derby, um evento onde todos os anos a platéia costuma ingerir uma inacreditável quantidade de bebida e mantém a polícia ocupada com brigas, desmaios e outras ocorrências relacionadas ao consumo excessivo de álcool.

Thompson nasceu em meio ao período da Depressão, em 18 de Julho de 1939 (as biografias divergem quanto ao ano, registrado algumas vezes 1937), filho de Virginia Ray e Jack R. Thompson, um agente de seguros. Seu primeiro trabalho como jornalista foi publicado no Southern Star, um jornal mimeografado que custava três centavos de dólar, consistindo em duas páginas de notícias locais, opinião e anúncios, e editado por Walter Kaegi, Jr., de dez anos de idade. Thompson, na época, era uma criança hiperativa de oito anos. Data deste mesmo ano seu primeiro atrito com a lei; junto a outros moleques, vandalizou um banheiro masculino do Parque Cherokee, atirando latas, espalhando lixo e pichando as paredes. O grupo foi pego pela polícia e levado à delegacia, onde uma ocorrência chegou a ser preenchida.

Os pais de Thompson eram alcoólatras; Jack costumava ter surtos violentos em casa e bater nos filhos. Quando morreu, aos 57 anos, de um ataque cardíaco, Thompson, aos 15, começou a beber também. Se, até esse momento, era um rapaz bastante ligado aos esportes (tendo inclusive começado um clube de baseball com os amigos), agora enchia a cara e trabalhava no balcão de doces de uma lojinha; não hesitava em comer os doces que deveria vender e logo que começou a ganhar peso, teve que deixar o time Castlewood. Sem a disciplina imposta pelo pai em casa e exigida pelo esporte, começou a procurar outras atividades onde pudesse despejar sua energia. Para continuar na esfera do esporte, que permaneceria como um interesse prioritário (junto a outro que se somaria mais tarde, a política) por toda a sua vida, escrevia sobre o assunto no Southern Star, que àquela altura já crescera em público e número de páginas. Mas o trabalho no periódico não era o suficiente para mantê-lo na linha, nem mesmo na escola, onde conseguia convencer os amigos a escapar para beber. Nesse período, ele e outros alunos com problemas de conduta formavam o grupo que denominaram The Wreckers (algo como “Os Quebradores”) , cuja função era, basicamente, praticar atos de vandalismo pela cidade.

escrito às 11:35 AM por giannetti

Aos 17 anos, Thompson foi condenado a sessenta dias de prisão por um assalto. Passou seu aniversário de 18 anos na cadeia. Por sugestão do juiz que o condenara, aceitou alistar-se na força aérea e, na base de Eglin, sua fama de arruaceiro delineou-se rapidamente: Thompson era considerado um “problema moral”, embora todos admitissem que suas matérias para a Command Courier, a revista da base, eram interessantes. Quando obteve dispensa de Eglin, com honras, – apesar das queixas em que configurava desobediência aos oficiais e normas da base -, Thompson aceitou um convite da El Sportivo para residir em Porto Rico, escrevendo sobre boliche para a revista. Em pouco tempo, decepcionado com a monotonia do trabalho na El Sportivo, retornou aos Estados Unidos para, em 1962, tornar a viajar, desta vez à América do Sul, onde atuou como correspondente da revista National Observer. Thompson enviava para a National Observer reportagens que englobavam os costumes locais e suas próprias observações sobre os lugares que visitava. Em 1963, esteve no Brasil, de onde escreveu “Brazilshooting” para a National Observer, reportagem que figura como um dos primeiros trabalhos em que Thompson opina mais diretamente e aparece como parte da cena que descreve. Thompson começa sua reportagem questionando a postura da polícia e do exército brasileiros, baseado em um incidente que apresenta ao leitor através da transcrição do telefonema que o atraiu à ação (um tiroteio na boate Domino, em Copacabana):

A polícia brasileira tem a reputação de ser extremamente leniente, e diz-se que o exército brasileiro é um dos mais estáveis e inclinados à democracia em toda a América Latina, mas nas últimas semanas, a administração da “justiça” no Brasil adquiriu um novo perfil, e muitos começam a se perguntar para que existem a polícia e o exército.(…)

Entra o telefonema e, junto com ele, Thompson (referido na terceira pessoa como “um jornalista americano”; alguns anos depois, Thompson trocaria a terceira pessoa pela primeira, forçando mais sua presença na ação):

Em uma noite dessas, com a usual temperatura de 38o C e o barulho de ar-condicionados por toda a cidade, um jornalista americano foi acordado por um telefonema às 4h30 da manhã. Era um amigo, telefonando de uma boate em Copacabana. “¿vem pra cá e traz a sua câmera! O exército está em toda a parte pelas ruas com armas! Eles destruíram a Domino, está tudo aos pedaços, e eles estão matando gente bem do lado de fora do bar onde eu estou sentado – nós trancamos a porta, mas eles podem invadir.”

A conclusão da reportagem é opinativa e irônica:

Depois do ataque ao Domino, o Jornal do Brasil deu uma suíte entitulada: “Exército não vê crime em sua ação”. Ou, como observou George Orwell, “Em terra de cego, quem tem um olho é rei.”

Quando retornou aos EUA, meses depois, Thompson cobriu suas primeiras convenções para diversas publicações; não tardou a enxergar no jornalismo uma oportunidade de conhecer o mundo e garantir seu sustento enquanto, paralelamente, poderia a investir em uma carreira literária. O interesse pela literatura e sua imersão no mundo do jornalismo, aliados à natureza irrequieta e ao temperamento explosivo de Thompson, resultariam no surgimento de uma diferenciação de Jornalismo Literário, mais ligada à contracultura: O jornalismo gonzo.

escrito às 11:28 AM por giannetti

escrito às 11:16 AM por giannetti

CAÇADOR DE TUBARÕES

“(…) The eye of the journalist would be functioning as a camera. The writing would be selective and necessarily interpretative but once the image was written, the words would be final; in the same way that a Cartier-Bresson photograph is always (he says) the full-frame negative. No alterations in the darkroom, no cutting or cropping, no spotting… no editing.” (Hunter Thompson).

escrito às 8:16 AM por giannetti

HUNTER

Se matou ontem.

escrito às 8:10 AM por giannetti

14.2.05

BULLSHIT

Como um Buddy Glass surpreso e grato por encarnar num suporte humano depois de vários anos confinado à celulose e tinta, apesar do nome incompatível com meu sexo, fui a própria imagem da felicidade durante os dias que passei sem telefone em casa. Eu mesma tinha mandado desligar. Graham Bell não sabia mas o telefone foi só um jeito de chegarmos a uma das mais eficientes formas de comunicação depois da telepatia – a Internet – e de pedir Domino´s às terças. A invenção do escocês ficou muito mais interessante no começo do século XXI com o surgimento do Disk Skol e do Disk Devassa. Porém isso não é suficiente pra me deixar à vontade com um aparelho capaz de, de um instante pro outro, me obrigar a atender alguém acometido por uma vontade de dizer alguma coisa inadiável, o que às vezes acontece de cinco em cinco minutos, não raro com os mesmos gênios.

A maioria das pessoas que a gente conhece tem uma relação umbilical com o aparelho, seja o fixo ou o celular. Avançados experimentos realizados pelo Massachusetts Institute of Technology comprovam que o celular serve pra passar mensagens escritas curtas que custam entre quatro e 25 centavos cada. Qualquer função além dessa é inútil (os viciados em Snake Pit pra salas-de-espera e Space Invaders no banheiro perdoem a falta de sensibilidade; fiquei assim depois da guerra).

Eu sei que o Graham Bell inventou isso pensando nos surdos. Mas aposto que ele não viveu pra ter que sustentar uma conversa de 15 minutos no telefone com uma tia que só diz HEIN? HEEEEIN?

Por mais que eu tente aparecer com uma justificativa boa pra não gostar de telefone, sempre parece boutade, o fino da ironia exagerada pras quatro paredes ressonantes do OMblog. Nenhum argumento é sustentável porque todo mundo adora pegar a porcaria do telefone e fazer uma ligaçãozinha. Pi-pi-pi-pi-pe-pe-pi-pu, aqueles barulhinhos e a tela verde ou azul brilhando e logo logo do outro lado atende alguém Oi! Ou esse demônio preto que tenho em cima da mesa do computador, responsável pelo sono interrompido às oito da manhã em sábados, domingos e feriados (sempre engano): Trililililililim Trilililililililililim. Tudo que eu preciso dizer pra alguém sai melhor numa mensagem que me custa entre quatro e 25 centavos e menos de dez caracteres, ou num e-mail, ou num post ou num livro. Falando ao telefone, sai tudo errado. Só saiu certo uma vez, há uns oito ou nove anos, numa conversa que durou mais de cinco horas. Devo ter esgotado toda a minha energia telefônica naquele ponto perdido do passado – o interlocutor era o fantasma do sambista Donga, que depois botou o Cortázar na linha, os dois falam pra caralho – e hoje dou vazão a qualquer impulso que tenha de telefonar pras pessoas ou espectros fazendo ICQ no celular.

Isso aí já é totalmente diferente, o ICQ de celular. Torpedinhos. Quatro ou 25 centavos, mais ou menos o valor de um conselho meu mais caprichado.

Antes, como eu dizia, eu estava brincando de Buddy na minha cabana e o cybercafe em frente, quando necessário, dava conta do recado da maneira que o ICQ de celular não podia. Fomos plenamente felizes, minha neurose e eu, até que prioridades ligadas a condições temporárias de trabalho (sempre tem um jeito bonito de dizer qualquer merda, não tem? Que o diga este coroa, professor de filosofia em Princeton e autor da polêmica tese intitulada “On Bullshit”, de que o New York Times trata hoje nos intratáveis termos de “unprintable ubiquity”), forçaram o fim do idílio através da reinstalação de uma linha aqui, criando assim as condições emocionais pra que eu pudesse escrever este pequeno protesto, requiém pra minha frágil paz de espírito.

Se o Salinger me ligar eu mudo de opinião.

escrito às 9:36 PM por giannetti

11.2.05

CRIAÇÃO DESEMBESTADA DE ANIMAIS MITOLÓGICOS

Desse carnaval não vi coisa nenhuma; nem o começo, nem o temporal que afogou os Escravos da Mauá, nem o deserto da quarta-feira, que eu imaginei de um cinza
chapado, chapiscado nos muros. Gosto muito, tenho o carnaval tatuado. Não adianta contar o motivo de ter perdido o carnaval porque quase nada justifica um carnaval obliterado (e a gente tem que ser mesquinho com esses detalhes).

Dentro da geladeira, no canto de guardar os ovos: duas maçãs, um pedaço de queijo e mal cabe aquela hidra ansiosa com pedigree pra alongar a eternidade das maravilhas cronicáveis do mundo. Mas é vagabunda, a sem-vergonha, preguiça até de cuspir fogo. Desembaraça da correia com lerdeza as patas quando anda na rua de coleira. E não junta lé com cré, a besta mitológica, não diz coisa com coisa.

escrito às 4:55 PM por giannetti

ZEN PARA PRINCIPIANTES

Pra que cidade se os apartamentos são auto-suficientes, residências de bichos e águas que pingam, com vizinho que ensaia violino libidinosamente emborcado à direção da janela, vizinhas (“não fui eu quem deu nome de flor pras meninas”) que ainda conversam na porta do prédio (uma filha fala muito mal o inglês: “I go! I learn!”, no celular, do outro lado da linha, do oceano, provável gringo colhido no carnaval carioca)? What for, querida, se o eixo pro umbigo é encostar o queixo na barriga?

escrito às 3:25 PM por giannetti

“ESCREVER ERA BOM”

“(…) sobretudo para mostrar aos companheiros de café, quando cada um de nós sacava do bolso os seus produtos literários do dia e expunha-os à crítica informal dos outros.”

p.s.: à dona do livro, se estiver lendo, esqueci não: obrigada pelo empréstimo e mando entregar os desatinados rapazes na sua casa na semana que vem.

escrito às 2:54 PM por giannetti

7.2.05

S & F

som, fúria (pensou que era o quê?)

Sugestão do Major Thom. Sim, com H. Mas ele sabe que o do Bowie é sem.

Think back now when we were young
There were always tears at the birthday party
You know how children can be
So cruel
That’s how it starts, but
What if we never learn how to behave?
I did something, and you never forgave me
I never thought that it could be like this

But now I see
I see you share your cake with him
Unwrapping presents that I should have sent
What can I do?
Must I watch you?

Close the door, dim the lights, blow out the candles
So Happy Birthday again

And it’s the same every year
Seems that I remember it as something more, but
You know how children can grow
So strange
I still adore you

What if we never learn from our mistakes?
But then, you’ll never know how my heart aches

I never thought that it would be like this
But now I see
I see you share your cake with him
Unwrapping presents that I should have sent
What can I do?
Must I watch you?

Close the door, dim the lights, blow out the candles
So Happy Birthday again
Close the door, dim the lights, blow out the candles
So Happy Birthday again

One day I know he’ll forget
To pay you the compliments you’re after
You’ll hang your sad, aching head
Behind a brittle smile or a shrill of laughter

What if we only get what we deserve?
Somehow I couldn’t quite summon the nerve

Upon each anniversary
Then do you ever think of me?
Unwrapping presents that I should have sent
What can I do?
Must I watch you?

Close the door, dim the lights, blow out the candles
So Happy Birthday again
Close the door, dim the lights, blow out the candles
So Happy Birthday again
Close the door, dim the lights, blow out the candles
So Happy Birthday again
Close the door, dim the lights, blow out the candles
So Happy Birthday again

escrito às 9:29 PM por giannetti

2.2.05

REVISÕES CITAÇÕES OMISSÕES

Muito trabalho em casa, revisando textos nas horas livres (aka madrugadas, antes às claras paradoQUIÇALmente em ambientes menos iluminados). Pra entrar no pique é bom texto calado, distante, penteado por dinheiro, inspecionado por obrigação. (vontade de um texto que não tá na estante).

***

Williams Carlos Williams on being single: ¿You know what happened to poor Norman Mailer. One wife after another, and all that alimony. I’ve been spared all that.¿

P.R.: Is emotional stability necessary to write well? You told me once that you could only write well when you were in love. Could you expound on that a bit more?

HEMINGWAY: What a question. But full marks for trying. You can write any time people will leave you alone and not interrupt you. Or rather you can if you will be ruthless enough about it. But the best writing is certainly when you are in love. If it is all the same to you I would rather not expound on that.

escrito às 5:06 PM por giannetti