“Quando fiz 68 [o livro 1968: o ano que não terminou], as pessoas me elogiavam dizendo: parece um romance. Eu preferia que me dissessem: parece uma grande reportagem. Hoje posso dizer que era um romance sem ficção. Usei muitos recursos da literatura, mas não foi nenhuma apropriação indébita. Nada naquele livro foi inventado, tudo pode ser checado. Após a abertura, havia uma enorme demanda de realidade, a literatura serviu de inventário da ditadura. Gabeira foi um dos primeiros a contar o que foi escamoteado durante 30 anos. Mas a geração que escrevia ficção durante a ditadura fazia uma literatura alegórica. Cansou. Talvez o fastio do leitor pela ficção hoje seja resíduo disso. Assim como o interesse pelas grandes reportagens. Para mim, é um mistério, porque nunca houve tanta realidade exposta como agora. Hoje, a censura é do mercado. Você publica o que quiser, você sabe tudo. Apesar dessa overdose de realidade, por que é que a realidade em livro ainda vende? Talvez isso tenha a ver com uma realidade fragmentada. Num livro, ela faz sentido. Talvez o leitor esteja em busca de sentido. Afinal, o jornalismo tem informação demais. O que falta é explicação”

(Trecho de entrevista de Zuenir Ventura.)