i never gonna know you now but i´m gonna love you anyhow

Vida miseravelzinha que nem a gente nem remédio nenhum controla, mas certas coisas vêm a calhar quando não tem outro jeito. Eu desapareço às vezes, ele também não reparou que eu tava me escondendo atrás de um copo e de um comprimido. Todo mundo que eu conheço e usa saia tem alguns na bolsa, mas jogam as embalagens fora porque todas têm uma tarja preta atravessando a barriga das caixas. Eu escrevo aqui porque ninguém tá olhando e também porque não confio mais em cadernos nem em guardar meus textos dentro do computador. Perdi um livro inteiro assim, sabia?

 

Sabia que escritores são idiotas e perdem seus livros, independentemente de usarem papel e caneta ou computadores? Que de Hemingway até hoje ninguém aprendeu a tirar xerox nem fazer backup? E mais: deixa o escritor reclamar porque é parte essencial do ofício, é uma força e toda paixão de um bicho que vive com o rabo sentado na frente de uma máquina batucando deve ser encorajada. O animal merece se fuder e se dar bem (tira a mão de mim, bota a mão em mim), derreter em casa sozinho, ser patético, cavar a demissão no trabalho socando o teclado e gritando cada vez que jogam uma incumbência besta pra cima da besta mal-paga, voltar pra casa e derreter no copo e no que tiver à disposição pra isso. Besta.  Que morram essas bestas, dêem lá seu jeito e vivam nas próximas gerações, se por vontade indecente ou camisinha furada ou bebice nascerem de nós bichos iguais.

 

Sabe o que desata o nó, o que faz desabar? Não é à toa, não é qualquer coisa nem qualquer um. É um sujeito que chega o rosto de bochechas cavadas, que parece escultura, a respiração quente perto do meu ouvido, que me puxa pra perto desse som de voz profundo que também é um cheiro e uma temperatura e uma textura e me diz “vem me ver”. Desabo porque não é, eu enxergo pedra falsa de longe. Não passo nem na porta da loja. Vai lá, meu filho, vai indo que eu não vou.