a mim amanhã

gosto mais de escrever ouvindo música agora do que antes mas ainda prefiro me ouvir pensando. deixo os videoclipes passando na tv sem som. disse que parei de fumar e realmente parei por algumas semanas, o que me rendeu um parabéns e um sorriso de um cara bonito com jeito de quem gosta de esporte mas agora eu já estou preocupada de novo porque só tenho dois cigarros num maço. a cinza continua caindo em cima do meu teclado antes de eu alcançar o cinzeiro que está logo em frente e eu roubei de uma gafieira no aniversário do meu editor. de todos os meus amigos, eu sou a pessoa mais hipócrita. tenho uma fé enorme que às vezes se desprende de mim e não tenho controle algum sobre ela, que pousa em cima das coisas erradas, do tipo em que ninguém quer acreditar. é quando me chamam de pessimista. a única coisa que eu beijo sem achar que desmereço o carinho é o gargalo das garrafa. não sei onde vou chegar com textos execrados pelo vencedor do jabuti ou jaburu ou seja lá qual o prêmio que o permite viver sem a fragilidade de quem se expõe. tenho raiva dos preconceitos dos meus colegas de trabalho e perco a paciência com o telefone. o celular eu não atendo mais. meu sono químico não faz mais efeito e acordo cansada todos os dias. me apaixonei por um cantor semi-analfabeto com quem conversei ao telefone por meia hora. minha ficção tem a extensão das palavras que mediam o que vivo e o que penso e não vejo como isso pode ser mais medíocre que a literatura produzida em qualquer outra época apenas por tomar parte da vida. cada um dá a espessura de fantasia que pode ao que enxerga, como sabem os paranóicos e os escritores, que às vezes habitam a mesma carcaça.

“O autor é uma personagem moderna, produzida sem dúvida por nossa sociedade na medida em que, ao sair da Idade Média, com o empirismo inglês, o racionalismo francês e a fé pessoal da Reforma, ela descobriu o prestígio do indivíduo ou, como se diz mais nobremente, da ?pessoa humana?. Então é lógico que, em matéria de literatura, seja o positivismo, resumo e ponto de chegada da ideologia capitalista, que tenha concedido a maior importância à pessoa do autor. O autor reina ainda nos manuais de história literária, nas biografias de escritores, nas entrevistas dos periódicos e na própria consciência dos literatos, ciosos por juntar, graças a seu diário íntimo, a pessoa e a obra; a imagem da literatura que se pode encontrar na cultura corrente está tiranicamente centralizada no autor, sua pessoa, sua história, seus gostos, suas paixões […] a explicação da obra é sempre buscada do lado de quem a produziu, como se, através da alegoria mais ou menos transparente da ficção, fosse sempre afinal a voz de uma só e mesma pessoa, o autor, a entregar sua ?confidência?. ” – barthes.

“Quando fiz 68 [o livro 1968: o ano que não terminou], as pessoas me elogiavam dizendo: parece um romance. Eu preferia que me dissessem: parece uma grande reportagem. Hoje posso dizer que era um romance sem ficção. Usei muitos recursos da literatura, mas não foi nenhuma apropriação indébita. Nada naquele livro foi inventado, tudo pode ser checado. Após a abertura, havia uma enorme demanda de realidade, a literatura serviu de inventário da ditadura. Gabeira foi um dos primeiros a contar o que foi escamoteado durante 30 anos. Mas a geração que escrevia ficção durante a ditadura fazia uma literatura alegórica. Cansou. Talvez o fastio do leitor pela ficção hoje seja resíduo disso. Assim como o interesse pelas grandes reportagens. Para mim, é um mistério, porque nunca houve tanta realidade exposta como agora. Hoje, a censura é do mercado. Você publica o que quiser, você sabe tudo. Apesar dessa overdose de realidade, por que é que a realidade em livro ainda vende? Talvez isso tenha a ver com uma realidade fragmentada. Num livro, ela faz sentido. Talvez o leitor esteja em busca de sentido. Afinal, o jornalismo tem informação demais. O que falta é explicação”

(Trecho de entrevista de Zuenir Ventura.)

Na atual Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados à Saúde (CID-10), o Transtorno Delirante Persistente é caracterizado pela ocorrência ?de uma idéia delirante única ou de um conjunto de idéias delirantes aparentadas, em geral persistentes e que por vezes permanecem durante o resto da vida?. Também conhecido como paranóia, diferencia-se de outras psicoses pela união dos delírios em um contexto organizado, lógico e até verossímil.

i never gonna know you now but i´m gonna love you anyhow

Vida miseravelzinha que nem a gente nem remédio nenhum controla, mas certas coisas vêm a calhar quando não tem outro jeito. Eu desapareço às vezes, ele também não reparou que eu tava me escondendo atrás de um copo e de um comprimido. Todo mundo que eu conheço e usa saia tem alguns na bolsa, mas jogam as embalagens fora porque todas têm uma tarja preta atravessando a barriga das caixas. Eu escrevo aqui porque ninguém tá olhando e também porque não confio mais em cadernos nem em guardar meus textos dentro do computador. Perdi um livro inteiro assim, sabia?

 

Sabia que escritores são idiotas e perdem seus livros, independentemente de usarem papel e caneta ou computadores? Que de Hemingway até hoje ninguém aprendeu a tirar xerox nem fazer backup? E mais: deixa o escritor reclamar porque é parte essencial do ofício, é uma força e toda paixão de um bicho que vive com o rabo sentado na frente de uma máquina batucando deve ser encorajada. O animal merece se fuder e se dar bem (tira a mão de mim, bota a mão em mim), derreter em casa sozinho, ser patético, cavar a demissão no trabalho socando o teclado e gritando cada vez que jogam uma incumbência besta pra cima da besta mal-paga, voltar pra casa e derreter no copo e no que tiver à disposição pra isso. Besta.  Que morram essas bestas, dêem lá seu jeito e vivam nas próximas gerações, se por vontade indecente ou camisinha furada ou bebice nascerem de nós bichos iguais.

 

Sabe o que desata o nó, o que faz desabar? Não é à toa, não é qualquer coisa nem qualquer um. É um sujeito que chega o rosto de bochechas cavadas, que parece escultura, a respiração quente perto do meu ouvido, que me puxa pra perto desse som de voz profundo que também é um cheiro e uma temperatura e uma textura e me diz “vem me ver”. Desabo porque não é, eu enxergo pedra falsa de longe. Não passo nem na porta da loja. Vai lá, meu filho, vai indo que eu não vou.