Esperando no B.G., não muito atrasado (ainda), 25 minutos. Dois caras passam correndo, um garçom, um muderno – suspensos por cordas, parece salto em vez de corrida, saltando pela Marquês de São Vicente, mexidos de cima por um mãozão maior.

Ele chega de olho roxo, escapou de uma boa no queixo mas do nariz pra cima não teve esquiva pra salvar, isso que dá deixar a guarda baixa. Luva magra, da mais barata, protege uma área menor ainda do rosto; que nem cobertor de mendigo, puxa pra cima descobre o de baixo, ou vai no olho ou vai no queixo. Acertaram o olho esquerdo. Não compromete o conjunto da face quadrada, mas é sexta-feira, ele é vaidoso, grande, largo, e a pálpebra escura pende mais que a sã, uma persiana torta, nem aberta nem fechada. “Assim parece que briguei em bar”, ninguém sabe que é campeão. Não seja por isso, pendura aí uma medalha e sai, que ninguém te confunde com qualquer um. Brabo, pede um chope. Campeão que bebe, nunca viu não? Já tem muita ralação a semana toda e também um remédio com gosto de baunilha que é “pra secar”. Da turma dele é o único que toma cerveja. Fumar não fuma. Não fumam. Mas álcool já desistiu de resistir faz tempo. Tá no sangue, é de família. Família muito boa cravada há gerações em Copacabana.

Ele estende o braço e a tatuagem nova tinindo já sem as cascas de pele rasgada. Um nome e um sobrenome marcados em tinta preta. “Nome do meu avô”. Pois seu avô, ele que soube viver. Que tenha acabado com a grana toda da família no processo é insignificante. Ele levanta o copo, “sei lá. Queria ter algum.”

Acho que não ter dinheiro dói mais em quem imagina que deveria ter do que em quem nasce sabendo que não tem mesmo. O que subúrbio dá ninguém tira, parte da herança sendo a idéia de que miséria, miséria de verdade, é não ter teto. E teto eu sempre vou ter. No mais, sobrando pro chope, é o luxo. Não tenho do que reclamar. Ele pára, pensando através do único olho claro totalmente aberto, bota facho de luz verde enorme em cima de mim. “Mas ainda assim eu acho que eu tenho coisas muito boas, viu?” É claro que tem. Não é de sacanagem que eu digo que o teu avô foi herói; foi herói dele, e do tempo dele, um herói egoísta que soube fazer com dinheiro o que se deve, que é gastar e bem gastado. Comeu e bebeu e comeu do bom e do melhor e das melhores carnes de açougue e Hollywood e teatro daqui, bebida melhor que tinha, anos a fio. Pensou no dele. Tá certo. A lição dele é essa. Viva. E você tem que viver e aproveitar o que tem e da melhor maneira possível, não interessa se a grana foi pro espaço. E digo mais: teu avô ainda foi pioneiro num negócio que só ia acontecer e se firmar muito tempo depois. (O olhão verde pregado faz um esforço pra acompanhar o outro, que está 100% colado no que eu vou falando.) Isso aí. Teu avô foi precursor da decadência do brasão. Se não fosse por ele a gente não tava aqui bebendo esse chope porque ia pegar mal. Além do mais rico não vai pro ringue. Não luta. “Filho-da-puta!”, bate na mesa rindo.

Faz frio, com vento gelado que só na Gávea tem. O Baixo começa a encher de gente, querem pizza, cerveja, mais gente, ma-fú. Meia-noite junta ponteiros, galeras, bar cuspindo povo pra calçada mesmo com frio e uma ameça de chuva. “Tô bonito?” Arreganha a boca, faz graça que nem cavalo mostrando o dente. Tá lindo. “É de família”.