Carta ao Lido

O apartamento faz cada vez menos sentido. Olho pro teto e enxergo a pia do banheiro. No lugar da sala, está um cassino; jogadores, comensais e vedetes jogam, jantam e serpenteiam alheios à minha presença. Sobre o tapete pastam três vacas oriundas do Chipre (parecem bastante tranqüilas), o corredor até a cozinha tem duas telas de cinema paralelas no lugar de paredes; exibem à esquerda um documentário sobre a vida das traças e à direita as imagens captadas por um circuito de câmeras instaladas no escritório do Fernando Sabino. Posso vê-lo mas não posso ouvi-lo. Ele fala sozinho. E coça muito a cabeça. Vou à cozinha e tiro da geladeira um pedaço de queijo rançoso. Tem gosto de cachaça. O apartamento todo é estranho pra mim.

Desde que me despedi do Buraco Negro das Reputações, o bairro de Copacabana conhecido como Lido (Copacabana tem bairros porque é uma cidade), ando pelos cantos do apartamento novo relinchando uma música triste co-pa-ca-ba-na-me-en-ga-na, me enganava quando eu, nada no bolso ou nas mãos, lá vivia como rica (embora morasse num cubículo). Podia ver todos os dias, de graça, o mar que o Joãozinho acusava os gringos de pagar um milhão cada pra olhar. Compram o Corcovado, as praias, o calor, compram coisas que não podem levar, e não levam, e, pra nós, está tudo sempre aqui.

Bebia chope e olhava o mar, entrava um dinheiro de vez em quando. Bebia o chope com mais gosto porque não tinha que cruzar as fronteiras dos bairros, estava sempre tão perto a espuma branca, a espuma do mar, a espuma do chope, a espuma da vida simples e boa. Aqui no exílio é diferente; preciso vencer um sem número de ruelas feias pra chegar a ver uma praia micha. E nessas ruas as velhas são infinitamente mais lentas que as de qualquer outro lugar do planeta. Não têm a alegria mofada das múmias de cabelo roxo de Copa, não têm poodles encardidos presos à coleira que as arrastem pela calçada. O tempo passa tão devagar aqui que parece que morri.

O jardim do Palácio, a única beleza do bairro. Não importa: podia ser Paris, eu não ia gostar. É bem cuidado, de um verde cheiroso, que se desprende das folhas em aromas de grama molhada e terra mexida até meu nariz besta. Não acho bacaninha o tédio da natureza. Prefiro as árvores perto do mar, umas palmeiras cravadas na areia, fazendo sombra pra garotada de rua, pros farofeiros.

Verde bem cuidado, sinto medo. A pedra solitária no centro do lago. Coberta de um musgo espesso, atrai todos os dias um pássaro preto. É grande, nem corvo nem urubu, é preto, preto, preto. Passo pelo jardim todos os dias e vejo o pássaro preto, pousado sobre a pedra no centro do lago. De repente, o pássaro abre as asas enormes. Mas não voa. Fica de asas suspensas, sem se agitar, exceto pelo bico que abre e fecha como se mudo dissesse alguma coisa.

Às vezes o pássaro parece um pesadelo. Mas ele está ali mesmo, asas pretas abertas sobre o lago.

Dá pra entender porque Getúlio se matou. Isso aqui é chato pra chuchu.