O baile

“A impressão que tenho hoje é que estão me passando um vastíssimo conto do vigário. Tudo dá certo, tudo vai indo bem direitinho, mas a cada momento espero perceber o logro, estão querendo é me gozar. Não consigo deixar de ter essa impressão em tudo que eu faço, em tudo que me acontece, nos meus menores pensamentos, tudo: vou acabar logrado. Assim como se tivessem me convidado para um baile, então eu mando passar o meu smoking, engomar a camisa, engraxo os meus sapatos, compro uma meia nova porque a antiga está furada, tomo um banho, faço a barba, penteio o cabelo e bato para a festa. Chegando lá, encontro o salão vazio, escuro – nem orquestra, nem baile, nem ninguém. Então fico sentado num canto, esperando o tempo passar. Gostou do baile? – me perguntam no dia seguinte. Falo que estava formidável, me diverti à beça, tomei um pileque, dancei muito, vocês perderam! Mas na verdade quem sai sempre perdendo sou eu – não conte para ninguém.” – Fernando Sabino, carta para Hélio Pellegrino, 1944.