Pequeno também, exasperado, de frente prum mundo radicalmente mudado, magro e feroz, desorientação que as pessoas usam como desculpa (“gritando meus slogans”), e em você a justificativa pra eu não comer e beber o que sobra do vinho que rola na geladeira que gela mal há alguns dias, as contradições vencidas, vergonha de dizer hoje o amor que seja. Dizer é muito terrível, mas será dito (apoio o bloquinho no copo vazio) e a mim, mãos suadas, boca perto, rosto molhado, não enxugar, não estragar a cara finalmente viva, encharcados boca e cabelos (“a força de ruptura das vanguardas nos permitiu uma estização do mundo”) as vagas noções que temos agora um do outro e o que saberermos de nós juntos no futuro, você chegou a mim sem nunca ter pensado muito no futuro|! (“pintar o invisível para torná-lo visível, Kandinski”), não consigo mais prestar atenção no que a atriz está dizendo. Por maior que seja a produção de obras de arte, o desejo de pintar o invisível para torná-lo visível é contínuo – a demanda não é satisfeita. Em que você está pensando? Eu? Nada, às vezes eu durmo de olhos abertos. Estranho. Você estava dormindo agora? Sim, estava sonhando. (“Não é o piano que explica a música, não é a tinta que detém a pintura”). Havia uma vaca oriunda do Chipre na geladeira, era onde se guardavam os doces. Sonhei isso de olhos abertos, um lapso de consciência. Ora, querida, podemos ver Romeu e Julieta 500 mil vezes e as significações continuarão ilimitadas.