Como ser feliz em dois parágrafos

Conheço uma pessoa feliz. É uma pessoa cheia de não. Ela não tem história, tão quietinha, não tem história. De tudo que viveu, diz apenas que passou. As escolhas que fez modificaram a sua vida mas não imagina nem por um segundo o que poderia ter sido se. E se tivesse tomado outro caminho? Não tomou, e esse pensamento basta. “Tenho gavetinhas na cabeça, esvazio quando não quero mais”.

A pessoa feliz não carrega o passado ladeira acima; prefere assisti-lo rolar até lá embaixo. Age no presente instintivamente, como um cachorro abanando o rabo. Não tem respeito por nada que não seja este instante – o resto simplesmente já foi. Seu papel na história é seguir adiante. A felicidade é assim: aconteceu.

Vão me perdoar a cartinha escrota, reclamem com o bispo (do Rosario) se acharem que é preciso, mas o texto subiu junto com o aroma do jardim do Palácio; aspirei, deu onda e escrevi.

Devo ter dormido só umas duas horas. Gosto desse estupor, de quando a gente vira por aí e passa o dia todo meio em transe, perambulando na rua que nem cachorro sem dono. Tenho medo de dormir e isso passar e eu acordar morta de novo. Despertar naquele tédio arrastado que vicia a cabeça. Mas é um processo, não regride. Não há coma, posso ver tudo, posso dizer tudo e escrever tudo. Nada me falta.

Carta ao Lido

O apartamento faz cada vez menos sentido. Olho pro teto e enxergo a pia do banheiro. No lugar da sala, está um cassino; jogadores, comensais e vedetes jogam, jantam e serpenteiam alheios à minha presença. Sobre o tapete pastam três vacas oriundas do Chipre (parecem bastante tranqüilas), o corredor até a cozinha tem duas telas de cinema paralelas no lugar de paredes; exibem à esquerda um documentário sobre a vida das traças e à direita as imagens captadas por um circuito de câmeras instaladas no escritório do Fernando Sabino. Posso vê-lo mas não posso ouvi-lo. Ele fala sozinho. E coça muito a cabeça. Vou à cozinha e tiro da geladeira um pedaço de queijo rançoso. Tem gosto de cachaça. O apartamento todo é estranho pra mim.

Desde que me despedi do Buraco Negro das Reputações, o bairro de Copacabana conhecido como Lido (Copacabana tem bairros porque é uma cidade), ando pelos cantos do apartamento novo relinchando uma música triste co-pa-ca-ba-na-me-en-ga-na, me enganava quando eu, nada no bolso ou nas mãos, lá vivia como rica (embora morasse num cubículo). Podia ver todos os dias, de graça, o mar que o Joãozinho acusava os gringos de pagar um milhão cada pra olhar. Compram o Corcovado, as praias, o calor, compram coisas que não podem levar, e não levam, e, pra nós, está tudo sempre aqui.

Bebia chope e olhava o mar, entrava um dinheiro de vez em quando. Bebia o chope com mais gosto porque não tinha que cruzar as fronteiras dos bairros, estava sempre tão perto a espuma branca, a espuma do mar, a espuma do chope, a espuma da vida simples e boa. Aqui no exílio é diferente; preciso vencer um sem número de ruelas feias pra chegar a ver uma praia micha. E nessas ruas as velhas são infinitamente mais lentas que as de qualquer outro lugar do planeta. Não têm a alegria mofada das múmias de cabelo roxo de Copa, não têm poodles encardidos presos à coleira que as arrastem pela calçada. O tempo passa tão devagar aqui que parece que morri.

O jardim do Palácio, a única beleza do bairro. Não importa: podia ser Paris, eu não ia gostar. É bem cuidado, de um verde cheiroso, que se desprende das folhas em aromas de grama molhada e terra mexida até meu nariz besta. Não acho bacaninha o tédio da natureza. Prefiro as árvores perto do mar, umas palmeiras cravadas na areia, fazendo sombra pra garotada de rua, pros farofeiros.

Verde bem cuidado, sinto medo. A pedra solitária no centro do lago. Coberta de um musgo espesso, atrai todos os dias um pássaro preto. É grande, nem corvo nem urubu, é preto, preto, preto. Passo pelo jardim todos os dias e vejo o pássaro preto, pousado sobre a pedra no centro do lago. De repente, o pássaro abre as asas enormes. Mas não voa. Fica de asas suspensas, sem se agitar, exceto pelo bico que abre e fecha como se mudo dissesse alguma coisa.

Às vezes o pássaro parece um pesadelo. Mas ele está ali mesmo, asas pretas abertas sobre o lago.

Dá pra entender porque Getúlio se matou. Isso aqui é chato pra chuchu.

O baile

“A impressão que tenho hoje é que estão me passando um vastíssimo conto do vigário. Tudo dá certo, tudo vai indo bem direitinho, mas a cada momento espero perceber o logro, estão querendo é me gozar. Não consigo deixar de ter essa impressão em tudo que eu faço, em tudo que me acontece, nos meus menores pensamentos, tudo: vou acabar logrado. Assim como se tivessem me convidado para um baile, então eu mando passar o meu smoking, engomar a camisa, engraxo os meus sapatos, compro uma meia nova porque a antiga está furada, tomo um banho, faço a barba, penteio o cabelo e bato para a festa. Chegando lá, encontro o salão vazio, escuro – nem orquestra, nem baile, nem ninguém. Então fico sentado num canto, esperando o tempo passar. Gostou do baile? – me perguntam no dia seguinte. Falo que estava formidável, me diverti à beça, tomei um pileque, dancei muito, vocês perderam! Mas na verdade quem sai sempre perdendo sou eu – não conte para ninguém.” – Fernando Sabino, carta para Hélio Pellegrino, 1944.

Eu sei, eu sei, desde terça. Mas eu nunca prometi freqüência. Eu nunca prometi nada, nem que informaria qualquer coisa sobre mim. Mas é um bom momento pra começar.

Neste exato parágrafo fui interrompida. Quantas vezes antes aconteceu, não sei. Esse negócio de morar com outra pessoa não é comigo. Imagina eu ali, com meus pensamentinhos, os toscos e os passáveis, e aí dá um furacão e espalha tudo, vejo todos eles voando janela afora. No lugar deles, o furacão cospe outros, que não são meus. São pensamentinhos de outra pessoa; sobre o tempo, sobre batatas fritas, novamente o tempo. E o tempo, o tempo.

Pequeno também, exasperado, de frente prum mundo radicalmente mudado, magro e feroz, desorientação que as pessoas usam como desculpa (“gritando meus slogans”), e em você a justificativa pra eu não comer e beber o que sobra do vinho que rola na geladeira que gela mal há alguns dias, as contradições vencidas, vergonha de dizer hoje o amor que seja. Dizer é muito terrível, mas será dito (apoio o bloquinho no copo vazio) e a mim, mãos suadas, boca perto, rosto molhado, não enxugar, não estragar a cara finalmente viva, encharcados boca e cabelos (“a força de ruptura das vanguardas nos permitiu uma estização do mundo”) as vagas noções que temos agora um do outro e o que saberermos de nós juntos no futuro, você chegou a mim sem nunca ter pensado muito no futuro|! (“pintar o invisível para torná-lo visível, Kandinski”), não consigo mais prestar atenção no que a atriz está dizendo. Por maior que seja a produção de obras de arte, o desejo de pintar o invisível para torná-lo visível é contínuo – a demanda não é satisfeita. Em que você está pensando? Eu? Nada, às vezes eu durmo de olhos abertos. Estranho. Você estava dormindo agora? Sim, estava sonhando. (“Não é o piano que explica a música, não é a tinta que detém a pintura”). Havia uma vaca oriunda do Chipre na geladeira, era onde se guardavam os doces. Sonhei isso de olhos abertos, um lapso de consciência. Ora, querida, podemos ver Romeu e Julieta 500 mil vezes e as significações continuarão ilimitadas.

Já tinha desligado o computador. Olho demais pra ele de dia, à noite não quero mais. Desligado, me olhei no espelho. Tosei toda a cabeleira de ovelha, fiquei realmente bem, uma aparição. Ainda tem um montão de cabelo aqui, parece um repolho vermelho, está lindo. Parece o holocausto, como disse a empregada do marcão ao ver o dia nascendo. Pra ela, o holocausto é uma coisa quase indizível de tão bonita. Liguei o micro de novo. Preciso pedir uma coisa, eu sei que alguém vai responder.

Mais ou menos daqui a uns dois meses eu vou querer me mudar. De novo. Dessa vez, não serve mais o Rio de Janeiro. Acho que é SP mas aceito sugestões.

“Somos uns animais diferentes dos outros, provavelmente inferiores aos outros, duma sensibilidade excessiva, duma vaidade imensa que nos afasta dos que não são doentes como nós. Mesmo os que são doentes, os degenerados que escrevem história fiada, nem sempre nos inspiram simpatia: é necessário que a doença que nos ataca atinja outros com igual intensidade para que vejamos nele um irmão e lhe mostremos as nossas chagas, isto é, os nossos manuscritos, as nossas misérias, que publicamos cauterizadas, alteradas em conformidade com a técnica.” – Graciliano Ramos, carta à Heloísa (abril de 1935).