Reli essa história na semana passada, enquanto J. tentava fazer uma torta de limão pro marido, e é uma história tão antiga quanto cozinhar pro marido, ou ainda tão antiga quanto a idéia de ter marido: Hemingway bebendo seu vinhozinho num cafe em Paris, encontra Ford Maddox Ford, autor de O Soldado, que nosso amigo pugilista, ops, escritor, não curtia muito.

– O que é que você estava escrevendo? – Cometi (Hemingway) o erro de perguntar.

– Estou escrevendo o melhor que posso. O mesmo que você faz. Mas é tão terrivelmente difícil.

– Não deveria escrever, se não consegue fazê-lo. Por que motivo há de se preocupar por isso? Volte para casa. Arranje um trabalho. Enforque-se. Apenas não fale nisso. Nunca poderá escrever.

– Por que me diz isso?

– Você já se ouviu alguma vez quando fala?

– Mas é de escrever que estou falando.

– Então cale-se.

Hemingway era, já nos anos 20, o que hoje conhecemos como “tolerância-zero”, finíssimo. Encheu o saco, ele mandava passear; não tinha tempo pra palhaçada. Eu ria da história com o livro (Paris é Uma Festa) na mão, sentada num banquinho na cozinha de J. depois de um dia de trabalho na Bienal do Livro ouvindo escritores falarem sobre… escrever. Tinha concluído, nesse dia, que tudo que eu escrevera até então era uma bela bosta. Bebia a terceira Caracu quando J. detectou um problema na tigela que percorria com a batedeira: bateu duas claras de ovos, adicionou três colheres de açúcar, conforme mandava a receita anotada num daqueles caderninhos da Taschen com foto de mulher dos anos 50 pelada na capa. Mesmo assim, a mistura não ganhava a consistência de claras em neve. Qual o ponto, porque não chegava nele?

Minha amiga se perguntava em voz alta o que podia estar errado com a torta mas são 21h de uma noite do início do século XXI, eu estava meio bêbada e não sei cozinhar nem uma sopa instantânea Maggy sem errar a mão. A solução era telefonar pra avó de J. e perguntar como funcionava o curioso ofício de preparar torta no início do século passado. Eu tinha as mãos limpas, sem a lama do açúcar e dos ovos, então fui escolhida pra ligar e ouvir os conselhos sobre as claras:

– Vai batendo, batendo, batendo, que você chega onde quer.

O melhor conselho literário de todos os tempos é também o melhor conselho para o ringue (talvez o único possível, Hemingway teria feito bom uso dele em suas lutas) e ainda o melhor conselho culinário. Ah, a sabedoria de outras eras.