A verdade que os velhos cantavam desde sempre é que Copacabana acabou, ai de ti, etc etc, mas era só o início do processo. Ela continuará líquida e falsa, extrema e sublime, gosmenta e ardorosa amável decaída e eloqüente, onde eu aprendi a cuspir todos os adjetivos que eu conheço e não aplico a mais nada senão para descrever Copacabana. Eu mandava nessa rua, até um mês atrás eu mandava nessa rua, eu brigava com o garçom do Cervantes, que me negava uma mesa porque era sempre eu sozinha, com o segurança do Barbarella, que me impedia as entrevistas com as garotas, com os clientes do El Cid, que queriam me comer pelo preço da tabela, com os amigos que esqueceram da gente. Esqueceram que a gente mandava nessa rua. Mas ninguém mais só.

Copacabana era um bairro e morreu como bairro pra nascer cidade e era isso que ninguém via. Copacabana já não é bairro há três décadas, nasceu pra ser uma cidade à parte, concentrando o que mais do Rio de Janeiro existe, o pior e o melhor, a mãe e a puta, a namorada e a puta, a grávida e a puta grávida, a Holanda e a Suíça de Copacabana, as suíças que o antigo amigo cortou no barbeiro a seis reais, de John, que entrou no meu apartamento em busca do livro sobre a bossa nova que falava do Beco das Garrafas, onde comprou dois bares históricos pra transformar em boate de strip tease, Grande John Americano, achou meu apartamento pequeno demais e me ofereceu um emprego de garçonete dizendo que os ingleses do Lord Jim não sabem nada de mulher e que eu ia me dar bem no seu bar, Grande John, amigo dos irlandeses, P., também dono de bar, que não pode mais se apaixonar e por isso somos bem parecidos apesar de 28 anos de diferença entre as nossas histórias, que me levava pra passear as duas da manhã na praia e falava do que havia do outro lado do oceano, onde tudo estava congelado no momento em que a brisa fresca amortecia o verão descontrolado do Rio de Janeiro, da sua antiga namorada de cabelo de inferno e do filho com nome de cantor irlandês, e das dificuldades do bar e que era tão melhor em Copacabana que era impossível pensar em deixá-la. P., por que você não vai lá e fala com a garota e traz ela pro Brasil. Porque não é mais possível, o oceano congelou mas não o tempo. Qual o problema, minha filha. Falta de atenção. Não consigo me concentrar no que as pessoas deixam de me dizer porque não estão nem aí. Encontro com o cara:” E então a MINHA VIDA, e A MINHA FABULOSA PICA, e a MINHA TORNEIRA, e a MINHA CULTURA, e a MINHA FABULOSA CABEÇA BRILHANTE e a MINHA SUPERIOR MENTE LUSTROSA e a minha” bla bla bla bla, e vou ver o Professor, ele tem o segundo grau completo mas isso não o ajudou muito e no entanto ele ao menos quer saber como estão as coisas, a única coisa que ele faz bem é dar socos e o único trabalho que fez a vida toda foi treinar lutadores de boxe e ainda tem a delicadeza de perguntar.

Ainda sou dona das árvores, dos porteiros, dos nomes dos prédios, dos endereços errados, dos telefones de pronta-entrega das farmácias e pizzarias, da opção pelo que é só e lento, da omissão, dos poodles, dos escarros pela janela, turistas que ficam e os que não têm a força necessária pra ficar, de tentar descobrir se eu esgotei rápido demais minha vontade de esgotar tudo o que existe. Nesta cidade, eu não sou estranha.