Eu me sinto melhor quando meus amigos estão se dando bem. Não que o dinheiro deles vá parar no meu bolso; se eles recebem um salário, o destino da grana é certo e reto como um (eu ia dizer padre, mas me deparei com o óbvio ridículo que a comparação implica, e aí tentei achar outro candidato a modelo de retidão entre todas as figuras e profissões que conheço e nada me passou pela cabeça. Do presidente da república ao voluntário do CVV, o desvio além do hábito)… esquece.

O salário dos meus amigos não passa pelas minhas mãos a menos que eu concorde em pegar as notas sujas de vermelho, cor da raspa do saldo negativo deles no banco. Eu posso conseguir minhas próprias notas manchadas, então não peço empréstimo aos amigos. A questão é que eu me sinto mais confortável se eles estão trabalhando e, mal ou bem, pagando suas contas. Isso me dá a impressão de que as coisas estão absolutamente normais por aí, ainda que a minha própria vida seja a representação terrena do caos que rege o universo. Preciso saber que, em algum lugar muito próximo de mim, pessoas trabalham e são remuneradas, pessoas que tiveram as mesmas oportunidades que eu, que estudaram, foram bem alimentados e deixaram boa impressão numa entrevista de emprego. Enquanto eu leio e escrevo e rasgo ou deleto tudo que eu escrevo e às vezes o que eu leio também e não atendo o telefone nem acredito em nada que me dizem por pura preguiça de me acostumar à honestidade do que é escrito ou dito, essa gente circula por aí acreditando no acordo com o mercado e recebendo dinheiro pela crença que sustenta, crença é crédito e débito. Acordar em determinado horário, pegar a condução e entrar num prédio onde ficam fazendo alguma coisa o dia inteiro. No final do dia (eles chamam o dia de expediente), voltar pra casa e ligar a televisão. É isso que todo mundo tem que fazer e eu gosto de saber que ainda conheço gente que faz exatamente o que deve ser feito. Eu não tenho cumprido minha parte no trato social (trabalhar e reclamar), mas sinto-me confortavelmente amparada pela consciência da capacidade ilimitada pro trabalho que pulsa em meus amigos.