As incríveis memórias de Jackie Chan

Jackie Chan é um gênio do cinema. Ele tem um buraco no crânio que nunca fechou, por causa de uma cena que fez. Jackie Chan não usa dublê.

Cheguei aqui na segunda-feira à noite. Eu ia numa festa mas acabei ficando num bar com dois amigos meus. Era uma reunião, eles discutindo com outros caras quem ia entrevistar quem e eu só olhando. Voltei com meus amigos pra casa deles em vez de ir pra minha e vimos uns filmes do Jackie Chan até tarde. No dia seguinte, o marido da minha amiga foi trabalhar e uma garota magrinha passou aqui de carro e levou a gente pra comprar tecidos no centro da cidade. Minha amiga e a garota que dirige fazem roupas. Eu estava usando a mesma roupa há dois dias seguidos. Fui assim mesmo, elas não acharam ruim. Mesmo porque só eu sabia que a roupa estava sendo usada há dois dias. Mas no mundo de gente que acha que refletimos o que pensamos isso é suficiente pra atrapalhar toda a vida social de alguém. No entanto, passou o dia todo e eu não tive nenhum problema com isso. Comemos num restaurante árabe. A Grécia antiga era parecida com a pintura na parede do restaurante, por isso que a comida árabe também tem pepino à beça.

Hoje a roupa fez aniversário, três dias. Claro que eu não uso ela o tempo todo. Só quando saio na rua. À noite, vendo “Drunken Master”, do Jackie Chan – o que tem os oito deuses bêbados com habilidades individuais que, praticadas em seqüência, tornam seus seguidores indestrutíveis – ou só conversando e bebendo, eu uso uma camiseta branca com estampa do tipo feita-em-casa. Tem um gato desenhado à mão com tinta preta e um rabo com glitter prateado na ponta, que fica bem na altura do meu peito. Quem fez a camiseta foi a dona da casa, eu estou aqui há três dias (mas tem uma semana que eu faço visitas diárias longas). Eu conheço ela há nove anos e o marido dela há uns sete. Eles saíram agora e eu fiquei porque não tenho a chave do meu apartamento novo. Meu apartamento novo não tem portas entre os cômodos ainda. Meu apartamento novo, tem alguém morando lá dentro, e só ela tem a chave e diz que não pôde fazer a cópia ainda. Ela não está lá e não deixou a chave com ninguém, então não posso entrar. Eu vou ficando por aqui. Acabo sempre vindo pra cá mesmo. Os filmes chineses do Jackie Chan são melhores que os americanos porque os americanos não entendem que filmar apenas os detalhes das lutas pode tirar completamente o impacto das coreografias e dos golpes. O casal de amigos me diz quando eu estou pensando coisas erradas. Eles estão certos.

A outra menina que faz roupas me conhece há menos tempo. Dias. Eu já estava vestindo a minha camiseta de gato quando começamos a conversar na sala sobre pensar errado. No momento tem vários fatores fazendo pensar errado como não poder entrar no meu apartamento e sair quando eu quiser porque a cópia da chave nunca é feita e o fato de que, quando estou lá, não posso fechar uma porta porque ninguém botou portas ainda. Isso me deixa puta. Mas não é isso. Isso não é exatamente pensar errado. Pensar errado é, por exemplo, não vamos falar disso. Foi o que eu disse na sala, usando minha camiseta de gato. Começamos uma rodada de cerveja que emendou numa de caipirinhas e desembocou noutra de cachaça com refrigerantes e a essa altura eu fui dormir num sofá. Não assistimos Jackie Chan esta noite.

Gostei muito da garota magrinha das roupas. Quando ela comenta um autor ou um filme, não é como as pessoas que sabem tudo porque já leram todas as orelhas dos livros e críticas sobre os filmes e sabem o que devem pensar sobre o que viram, ou fingir que é o que pensam senão passam por gente que não entende de nada ou ao menos não entende como deve ser entendido. Ela é honesta e acaba dando umas opiniões diferentes. Diz isso pro leitor, um editor que também veio beber falou, justificando porque nunca colocam gente com opinião pra escrever no jornal, quero dizer, opinião desse tipo, sem ser de orelha-de-livro. A minha amiga também gosta quando ela fala sobre filmes, mesmo discordando de tudo, porque a gente acaba percebendo outras coisas que não tinha pensado antes. Elas ficam tentando saber o que eu estou pensando. Mas são tantos pensamentos e tão rápidos que não consigo ver um de cada vez. Estão todos de mãos dadas como as crianças visitando o museu. Ela mudou o toque do meu celular porque ele era baixo demais e eu não escutava quando as pessoas me ligavam. Um amigo meu tinha me ligado quatro vezes e eu só ouvi o telefone na última vez. Ele queria me chamar pra beber de graça numa pré-estréia de cinema. Ele é crítico de cinema e come e bebe de graça à beça toda vez que lançam um filme. É uma profissão muito gratificante. Depois que atendi o telefone e disse que ia à pré-estréia, decidi não ir. Preferi beber em casa com a garota magrinha e o casal. Eu às vezes não quero ver um monte de gente e esses lugares sempre ficam lotados porque tem muita bebida. Mesmo quando todo mundo sabe que o filme vai ser uma bosta, a turma toda aparece. Além disso, eu não queria ir com a roupa que eu estou usando desde segunda-feira. De qualquer maneira, em casa nós bebemos um bocado e eu não falei nenhuma vez sobre nada muito importante. Mas eu fiquei pensando. Comemos pão com azeite à beça, aqui sempre tem isso junto com as bebidas por causa das aulas de filosofia clássica. A orientadora da minha amiga que ensinou isso. E a colocar pepino em toda a comida, os gregos curtem um bocado de pepino, parece. Os chineses dos filmes do Jackie Chan comem legumes com macarrão e bebem vinho direto das tinas, eu acho que a gente deve fazer assim também.

À certa altura alguém me perguntou sobre o que eu escrevia e eu não sabia dizer. Tem um monte de gente escrevendo hoje em dia, por causa da internet, das revistas, dos jornais, e eles acabam publicando livros. Eu não sei se eu vou querer publicar alguma coisa porque eu teria que ir lá oferecer o texto pra alguém e eu não sou tão cara-de-pau assim. Se eu publicar, é capaz de eu fazer meus próprios livros, como eu fazia quando era pequena. Eu escrevia uma história nuns quadrados de cartolina cortados e costurava ou grampeava tudo, às vezes na seqüência errada. Desenhava uma capa com canetinha. Mas não tinha cópias. Dessa vez eu posso fazer cópias. A xerox da minha faculdade é muito barata.

A minha amiga casada escreve críticas de filme, estuda filosofia e desenha roupas. Uma coisa de ver, a outra de pensar e a terceira de vestir. É tudo importante. Nós vamos fazer camisetas com a cara do Jackie Chan.