Não sou de postar trechos de nada, exceto do que eu mesma escrevo – e que terminam por ser sempre e somente trechos, sem o acabamento de um conto ou coisa que valha. Mas hoje quis mostrar o capítulo final de “Ássia”, novela de Turguêniev. Contar o fim da história não estragará o prazer da leitura do livro para quem ainda não o conhece.

“Em Colônia, segui as pegadas dos Gânguin: soube que tinham ido para Londres, lancei-me ao encalço deles; mas em Londres as minhas foram em vão. Por muito tempo não pude me conformar, persisti muito ainda, mas por fim tive de renunciar à esperança de encontrá-los. E não os vi mais – nunca mais vi Ássia. Rumores desencontrados sobre eles chegaram a meus ouvidos. Mas eu a tinha perdido para sempre. Nem mesmo sei se está viva. Certa vez, alguns anos depois, no estrangeiro, vi de relance num vagão de trem uma mulher cujo rosto me lembrou vivamente aqueles traços inesquecíveis… mas eu, certamente, fora enganado por uma semelhança casual. Ássia permaneceu em minha lembrança aquela garota que conheci na melhor época de minha vida, como a vira da última vez, vergada sobre o espaldar de uma cadeira baixa de madeira.

Aliás, devo confessar que não fiquei muito triste por sua causa: cheguei a achar que o destino fora providencial ao não me unir a Ássia; consolava-me o pensamento de que, provavelmente, não poderá se repetir, pensava eu, e de um jeito ainda melhor, ainda mais perfeito?… Conheci outras mulheres – mas o sentimento ardente, terno, profundo, não voltei a experimentá-lo. Não! Jamais outros olhos puderam substituir aqueles que um dia me contemplaram com amor, a nenhum outro coração aninhado em meu peito meu coração respondeu com tanta alegria e tão doce enlevo! Condenado à solidão de um solteirão sem família, tenho vivido anos enfadonhos, mas guardo, como relíquia, seus bilhetinhos e a flor, seca, que um dia me atirou da janela. Ela até hoje recende um aroma suave, mas a mão que a ofereceu, a mão que só uma vez tive a oportunidade de levar aos lábios, talvez há muito tempo esteja se decompondo numa sepultura… E eu mesmo – o que aconteceu comigo? O que restou de mim, daqueles dias felizes e inquietos, daquelas esperanças e aspirações aladas? O aroma tão tênue de uma planta insiginificante sobrevive a todas as alegrias e a todos os sofrimentos do homem – sobrevive ao próprio homem. – Ano de 1857″.