ele diz: “seu irmão”, meu irmão, eu sei, meu irmão. meu irmão que conseguiu amar. a quem a infância não estragou. que o espelho não proibiu de ser. a festa moderada no peito que se eterniza por uma vida inteira em vez de fortes golpes de hiperventilação entre semanas, e risadas que escurecem.

minha boca está negra, meus dentes estão negros, meu sorriso é uma noite, meus empenhos foram erros, minha guerra eu perdi. ele diz, “seu irmão”, porque ainda não sabe que sequer nos conhecemos, somos de espécies diferentes. gerou sozinho, de entranhas secas de homem, a perseverança indispensável ao caráter, perseguiu seus medos a fim de enfrentá-los, recusou atalhos, dormiu no lixo, dormiu nos sofás, nos estrados, nas beliches, nos motéis, trabalhou e foi passado pra trás tantas vezes. não fomos feitos da mesma coisa.