Em mais um episódio da vida no Mundo das Caixas de Papelão, hoje o micro em casa finalmente deu start mas não há conexão, então vim parar na PIOR birosca de internerd da cidade: R$ 3,00 cada 30 minutos, conexão lenta, sem ICQ, dando erro de script toda vez que tento responder e-mails sobre OFERTAS DE TRABALHO e o cara aqui do lado dizendo que tudo isso é normal.

Enfim, eu trouxe um disquete com os textos. Mas o micro é tão tosco que não consegue abrir os arquivos. Putaquiospa.

n.p.> richard cheese / de uma conexao undercover no quarto de um amigo>

teclado americano, nao me entendo com ele.

niti> “aquele imperador apresentava constantemente a si mesmo a fugacidade de todas as coisas a fim de nao tomar excessivamente a serio e entre elas permanecer tranquilo. a mim, pelo contrario, tudo me parece ser demasiadamente valioso para que pudesse ser fugaz. busco uma eternidade para cada coisa: por acaso deveriam ser atirados ao mar os mais preciosos unguentos e vinhos? é meu consolo que tudo quanto o foi é eterno: o mar voltará a atirá-lo sobre a margem.”

Ser deliberadamente grosso com as pessoas facilita o trabalho de quem quer ser deliberadamente grosso contigo mas não sabia por onde começar a abordagem. Em se dando motivo, se poupa falsidade. Mas, se quiser realmente irritar alguém que não consegue dizer o quanto te detesta, seja cordial e amável.

Ficar sem dar notícias também pode funcionar como detonador da antipatia pré-existente e por que não dizer inata que alguns guardam em relação a você. Mas, se a ausência for confundida com mera falta de tempo, o efeito final pode ser contrário ao objetivo e, em vez de soltarem contra você todos os impropérios e reservas que vinham disfarçando ao longo dos anos, a pessoas poderão acabar sentindo saudades de sua excêntrica porém adorável figura. Não esqueça, por tanto, de aparecer de vez em quando e soltar comentários escrotos gratuitamente. Ou você pode acabar como eles.

As incríveis memórias de Jackie Chan

Jackie Chan é um gênio do cinema. Ele tem um buraco no crânio que nunca fechou, por causa de uma cena que fez. Jackie Chan não usa dublê.

Cheguei aqui na segunda-feira à noite. Eu ia numa festa mas acabei ficando num bar com dois amigos meus. Era uma reunião, eles discutindo com outros caras quem ia entrevistar quem e eu só olhando. Voltei com meus amigos pra casa deles em vez de ir pra minha e vimos uns filmes do Jackie Chan até tarde. No dia seguinte, o marido da minha amiga foi trabalhar e uma garota magrinha passou aqui de carro e levou a gente pra comprar tecidos no centro da cidade. Minha amiga e a garota que dirige fazem roupas. Eu estava usando a mesma roupa há dois dias seguidos. Fui assim mesmo, elas não acharam ruim. Mesmo porque só eu sabia que a roupa estava sendo usada há dois dias. Mas no mundo de gente que acha que refletimos o que pensamos isso é suficiente pra atrapalhar toda a vida social de alguém. No entanto, passou o dia todo e eu não tive nenhum problema com isso. Comemos num restaurante árabe. A Grécia antiga era parecida com a pintura na parede do restaurante, por isso que a comida árabe também tem pepino à beça.

Hoje a roupa fez aniversário, três dias. Claro que eu não uso ela o tempo todo. Só quando saio na rua. À noite, vendo “Drunken Master”, do Jackie Chan – o que tem os oito deuses bêbados com habilidades individuais que, praticadas em seqüência, tornam seus seguidores indestrutíveis – ou só conversando e bebendo, eu uso uma camiseta branca com estampa do tipo feita-em-casa. Tem um gato desenhado à mão com tinta preta e um rabo com glitter prateado na ponta, que fica bem na altura do meu peito. Quem fez a camiseta foi a dona da casa, eu estou aqui há três dias (mas tem uma semana que eu faço visitas diárias longas). Eu conheço ela há nove anos e o marido dela há uns sete. Eles saíram agora e eu fiquei porque não tenho a chave do meu apartamento novo. Meu apartamento novo não tem portas entre os cômodos ainda. Meu apartamento novo, tem alguém morando lá dentro, e só ela tem a chave e diz que não pôde fazer a cópia ainda. Ela não está lá e não deixou a chave com ninguém, então não posso entrar. Eu vou ficando por aqui. Acabo sempre vindo pra cá mesmo. Os filmes chineses do Jackie Chan são melhores que os americanos porque os americanos não entendem que filmar apenas os detalhes das lutas pode tirar completamente o impacto das coreografias e dos golpes. O casal de amigos me diz quando eu estou pensando coisas erradas. Eles estão certos.

A outra menina que faz roupas me conhece há menos tempo. Dias. Eu já estava vestindo a minha camiseta de gato quando começamos a conversar na sala sobre pensar errado. No momento tem vários fatores fazendo pensar errado como não poder entrar no meu apartamento e sair quando eu quiser porque a cópia da chave nunca é feita e o fato de que, quando estou lá, não posso fechar uma porta porque ninguém botou portas ainda. Isso me deixa puta. Mas não é isso. Isso não é exatamente pensar errado. Pensar errado é, por exemplo, não vamos falar disso. Foi o que eu disse na sala, usando minha camiseta de gato. Começamos uma rodada de cerveja que emendou numa de caipirinhas e desembocou noutra de cachaça com refrigerantes e a essa altura eu fui dormir num sofá. Não assistimos Jackie Chan esta noite.

Gostei muito da garota magrinha das roupas. Quando ela comenta um autor ou um filme, não é como as pessoas que sabem tudo porque já leram todas as orelhas dos livros e críticas sobre os filmes e sabem o que devem pensar sobre o que viram, ou fingir que é o que pensam senão passam por gente que não entende de nada ou ao menos não entende como deve ser entendido. Ela é honesta e acaba dando umas opiniões diferentes. Diz isso pro leitor, um editor que também veio beber falou, justificando porque nunca colocam gente com opinião pra escrever no jornal, quero dizer, opinião desse tipo, sem ser de orelha-de-livro. A minha amiga também gosta quando ela fala sobre filmes, mesmo discordando de tudo, porque a gente acaba percebendo outras coisas que não tinha pensado antes. Elas ficam tentando saber o que eu estou pensando. Mas são tantos pensamentos e tão rápidos que não consigo ver um de cada vez. Estão todos de mãos dadas como as crianças visitando o museu. Ela mudou o toque do meu celular porque ele era baixo demais e eu não escutava quando as pessoas me ligavam. Um amigo meu tinha me ligado quatro vezes e eu só ouvi o telefone na última vez. Ele queria me chamar pra beber de graça numa pré-estréia de cinema. Ele é crítico de cinema e come e bebe de graça à beça toda vez que lançam um filme. É uma profissão muito gratificante. Depois que atendi o telefone e disse que ia à pré-estréia, decidi não ir. Preferi beber em casa com a garota magrinha e o casal. Eu às vezes não quero ver um monte de gente e esses lugares sempre ficam lotados porque tem muita bebida. Mesmo quando todo mundo sabe que o filme vai ser uma bosta, a turma toda aparece. Além disso, eu não queria ir com a roupa que eu estou usando desde segunda-feira. De qualquer maneira, em casa nós bebemos um bocado e eu não falei nenhuma vez sobre nada muito importante. Mas eu fiquei pensando. Comemos pão com azeite à beça, aqui sempre tem isso junto com as bebidas por causa das aulas de filosofia clássica. A orientadora da minha amiga que ensinou isso. E a colocar pepino em toda a comida, os gregos curtem um bocado de pepino, parece. Os chineses dos filmes do Jackie Chan comem legumes com macarrão e bebem vinho direto das tinas, eu acho que a gente deve fazer assim também.

À certa altura alguém me perguntou sobre o que eu escrevia e eu não sabia dizer. Tem um monte de gente escrevendo hoje em dia, por causa da internet, das revistas, dos jornais, e eles acabam publicando livros. Eu não sei se eu vou querer publicar alguma coisa porque eu teria que ir lá oferecer o texto pra alguém e eu não sou tão cara-de-pau assim. Se eu publicar, é capaz de eu fazer meus próprios livros, como eu fazia quando era pequena. Eu escrevia uma história nuns quadrados de cartolina cortados e costurava ou grampeava tudo, às vezes na seqüência errada. Desenhava uma capa com canetinha. Mas não tinha cópias. Dessa vez eu posso fazer cópias. A xerox da minha faculdade é muito barata.

A minha amiga casada escreve críticas de filme, estuda filosofia e desenha roupas. Uma coisa de ver, a outra de pensar e a terceira de vestir. É tudo importante. Nós vamos fazer camisetas com a cara do Jackie Chan.

E antes eu errasse só escrevendo, erro julgando, trocando mãos-apenas-mãos por coisas que não são nem tiveram intenção de ser. Depois fico apagada e peço para dormir no sofá-cama de alguém, de skol até as 5h vendo Jackie Chan arrebentando chineses – que é uma coisa que passei a gostar muito, muito mais – e agora vamos ao Saara olhar o comércio.

Não sou de postar trechos de nada, exceto do que eu mesma escrevo – e que terminam por ser sempre e somente trechos, sem o acabamento de um conto ou coisa que valha. Mas hoje quis mostrar o capítulo final de “Ássia”, novela de Turguêniev. Contar o fim da história não estragará o prazer da leitura do livro para quem ainda não o conhece.

“Em Colônia, segui as pegadas dos Gânguin: soube que tinham ido para Londres, lancei-me ao encalço deles; mas em Londres as minhas foram em vão. Por muito tempo não pude me conformar, persisti muito ainda, mas por fim tive de renunciar à esperança de encontrá-los. E não os vi mais – nunca mais vi Ássia. Rumores desencontrados sobre eles chegaram a meus ouvidos. Mas eu a tinha perdido para sempre. Nem mesmo sei se está viva. Certa vez, alguns anos depois, no estrangeiro, vi de relance num vagão de trem uma mulher cujo rosto me lembrou vivamente aqueles traços inesquecíveis… mas eu, certamente, fora enganado por uma semelhança casual. Ássia permaneceu em minha lembrança aquela garota que conheci na melhor época de minha vida, como a vira da última vez, vergada sobre o espaldar de uma cadeira baixa de madeira.

Aliás, devo confessar que não fiquei muito triste por sua causa: cheguei a achar que o destino fora providencial ao não me unir a Ássia; consolava-me o pensamento de que, provavelmente, não poderá se repetir, pensava eu, e de um jeito ainda melhor, ainda mais perfeito?… Conheci outras mulheres – mas o sentimento ardente, terno, profundo, não voltei a experimentá-lo. Não! Jamais outros olhos puderam substituir aqueles que um dia me contemplaram com amor, a nenhum outro coração aninhado em meu peito meu coração respondeu com tanta alegria e tão doce enlevo! Condenado à solidão de um solteirão sem família, tenho vivido anos enfadonhos, mas guardo, como relíquia, seus bilhetinhos e a flor, seca, que um dia me atirou da janela. Ela até hoje recende um aroma suave, mas a mão que a ofereceu, a mão que só uma vez tive a oportunidade de levar aos lábios, talvez há muito tempo esteja se decompondo numa sepultura… E eu mesmo – o que aconteceu comigo? O que restou de mim, daqueles dias felizes e inquietos, daquelas esperanças e aspirações aladas? O aroma tão tênue de uma planta insiginificante sobrevive a todas as alegrias e a todos os sofrimentos do homem – sobrevive ao próprio homem. – Ano de 1857″.

quer saber de um sonho? começa assim: não existe dizer que não sonha. você sonha, só não quer esse sonho. ele não lhe serve. queria um sonho mais bonito, um sonho mais longo, um sonho mais vinho, mais enlouquecido, mas sonho. você sonha, até que sonha, mas não é essa coca-cola toda que contam por aí nos divãs e seus amigos detalham entusiasmados no bar quando chegam “sonhei contigo!” e é uma história que consome a noite toda nossa como parece ter consumido a dele. não, não esse tipo de sonho. seu sonho é bem escrotinho, bem pequeno, bem esconde seu sonho dos outros porque ele não é um sonho. é um sonho.

Eu cansei de ninguém mais ser sério. Quem diz que ama e aí não é sério (a gente quer os presentes de volta), que diz que tá deprimido na sala de bate-papo do UOL, quem diz que quem usa muito pronome não sabe escrever, quem diz que parou de beber, poeta sem verso, pintor sem quadro, amante sem coração, cansei do que não é sério. Desde pequeno eu quis ser palhaço.

ele diz: “seu irmão”, meu irmão, eu sei, meu irmão. meu irmão que conseguiu amar. a quem a infância não estragou. que o espelho não proibiu de ser. a festa moderada no peito que se eterniza por uma vida inteira em vez de fortes golpes de hiperventilação entre semanas, e risadas que escurecem.

minha boca está negra, meus dentes estão negros, meu sorriso é uma noite, meus empenhos foram erros, minha guerra eu perdi. ele diz, “seu irmão”, porque ainda não sabe que sequer nos conhecemos, somos de espécies diferentes. gerou sozinho, de entranhas secas de homem, a perseverança indispensável ao caráter, perseguiu seus medos a fim de enfrentá-los, recusou atalhos, dormiu no lixo, dormiu nos sofás, nos estrados, nas beliches, nos motéis, trabalhou e foi passado pra trás tantas vezes. não fomos feitos da mesma coisa.