Numa cama estreita de carne e sonhos, sem dormir, por que não? Sair… mas aqui não erro, aqui tenho todas as qualidades. Sair? 23h – a portinhola de aço da lixeira bate contra o trinco no corredor do prédio. É a hora do meu vizinho levar o lixo pra fora. Nunca estipulado em conversa alguma, o horário era respeitado porque se impôs através do comportamento bizarro do cara. Eu sei que ele prefere não cruzar com ninguém no corredor enquanto faz isso. Deu pra notar quando, na minha primeira semana aqui, nos encontramos por acaso em frente à lixeira com sacos de lixo na mão. Foi na mesma noite em que ouvi ele trepando com alguém. Quero dizer, ele não fazia nenhum barulho, mas dava pra ouvir uma mulher gritando sem palavras, um som seco que parecia estalar na garganta, acompanhado das batidas da cama contra a parede, em ritmo perfeito.

Ao me ver no corredor depois de sua magnífica foda, abaixou imediatamente a cabeça, atirou as sacolas pela buraco na parede e voltou em passo apressado pro seu cubículo como um rato. As paredes de Copacabana são mais finos que papel e isso incomoda muito meu vizinho. Ele não gosta que os outros saibam quando está gozando, por isso cala bem a boca quando está comendo sua mulherzinha. Mas não consegue silenciar as damas do buraco quente nem a cama velha. A solução encontrada para evitar o constrangimento maior de encontrar alguém que acabou de ouvi-lo trepar mas não estava realmente lá: evitar os vizinhos na lixeira. No elevador é diferente. Se ele ouve alguém bater a porta no seu andar e o som do elevador se movimentando com essas correntes de 50 anos, ele espera até não ouvir mais nada pra sair e esperar sozinho sua vez de descer. E se vier mais gente no elevador não tem problema: descer no elevador com moradores dos outros andares é ok porque eles não ouviram sua foda.

É tudo uma lixeira enorme e cavamos nela investigando os restos uns dos outros. Nessa hora, às 23h, ele leva o lixo pra fora e nós sabemos e não vamos lá. Esse relógio de neurose me diz que é uma boa hora pra sair e espiar ao menos o bar lá embaixo.