Recordando Alessandra

A mania dele era ficar calado. Eu, que sempre gostei disso, já sabe. O barato de alguém não dizer nada nada, ficar só olhando ou nem isso, é que tem um segredo mal guardado ali, pedindo pra ser cutucado, pra gente achar alguma coisa. Aí eu tenho que arrancar, eu tenho que fazer o filho da puta cuspir seja lá o que for que ele esconde debaixo da roupa, da cara, da voz de homem e não é mais do que isso no final das contas, uma coisa de homem. Na maioria das vezes ele não está escondendo nada mesmo e eu descubro tudo logo que encosto mas não é por isso que vou embora sem concordar com a cabeça sim sim sim assim pra cima e pra baixo em leviana reverência. Comigo pega é que não tem um que me segure. Não tem, são chatos. Não sou a mulher mais esperta ou a mais bem-acabada do mundo mas tenho 20 anos e é cada coisa que aparece que nem rezando a gente bota pra correr. E dá pra saber quando é do tipo que não vai sumir. Cara fechadão, por exemplo. Gosta de parecer misterioso. Eu dou umas olhadas daquelas que não deixam dúvida nenhuma, até que ele chega. E aí manda um papinho escroto de meus olhos meu jeito meu não sei o quê ou alguma coisa que ele acha engraçadinha. Ajuda se eu beber um negócio mas não é tudo não. Eu tenho que inventar na minha cabeça uma história que justifique pra mim o silêncio que eu gosto no cara. E não é qualquer história. Também não é toda vez que eu consigo me enrolar. Mas quando eu consigo, eu me divirto. Depois é depois, eu não tenho nada a ver com isso. A gente se despede como quem acabou de assinar um monte de papel do trabalho e eu nunca mais vejo a criatura. Se por acaso ele me achar eu dou uma de maluca e não cumprimento. Isso se ele for do tipo que gruda. Ah, mas não digo nem oi. Finjo que nunca vi. Eu não tenho que dar explicação. Não gosto de homem no meu pé. Mesmo porque pé não é órgão sexual.

Esse cara dormindo do meu lado é do tipo que gruda. É o mais maluco que eu já topei. Sério, nunca vi ninguém ir tão longe por uma boceta. Preciso ligar pra Alessandra e contar essa, assim que eu descobrir onde ele escondeu minha agenda. Eu não sei como nem por quê mas esqueci o telefone da Alessandra. Minha cabeça é ruim mas o telefone da Alessandra é um negócio que eu sabia como sei meu nome completo. Aliás, até isso parece ter mudado agora. Meu nome. O palhaço vai tão longe com a história toda que diz que eu me chamo Bárbara Felicianni Heydel. Heydel. Heydel é o sobrenome dele e ele diz que é meu marido. Quando eu joguei o anel na privada, começou a choramingar. Não tem nada mais corta-tesão do que homem chorando. Ele é bem-apanhado, ele é alto, sabe, mas é maluco. E chorão. Coitado, não fala coisa com coisa.

Não sei nem como é que entrou aqui. Tá, exagero, eu sei que houve uma festa e desconfio que eu tenha ficado com essa criatura no meio de um pileque fenomenal, mas isso foi na sexta-feira. Hoje é domingo e o cara não se manda. Sábado ainda peguei mas hoje queria descansar. E acordei aqui com gosto de guarda-chuva velho na boca, o que é default de porre mas parece que teve alguma coisa mais, tipo quando você toma um monte de bola e apaga antes de começar a se divertir, saca? Não acredito, esse cara me deu um boa-noite-cinderela. E se aboletou na minha cama, na minha casa. Eu vou chamar a polícia, é isso. Pego o celular, levo pro banheiro e faço a ligação. Ele não vai perceber. Aaaaaaaaaaaaaaah aí. Mexo de leve na cama pra sentir se o sono dele é leve ou se é mais um desses sacos de merda que não acordam nem com balde de água fria.

– Onde você vai?

– Puta que me pariu. Tô indo no banheiro. Vai dizer que quer ir junto?

– Não precisa?

– Tá maluco! Que me ajudar o quê, eu não curto essas coisas não!

– Bárbara, você ainda deve estar meio…

Meio? Que porra é essa? Eu to to-tal-men-te… Que diabo é isso? Que que foi que q

Eu não acredito. Eu vou ter que parar um segundo essa história pra descer e comprar cigarro. É foda. Nessas horas eu até queria ter alguém pra eu fazer bico e ele ir comprar um cigarro. Mas eu não consigo, eu acho muita safadeza fazer homem de escravo. Não, não é bem assim; é que se você deixar o cara ir ficando, mesmo que seja pra fazer tudo que você quer, você tem sempre alguém por perto. Não sei do resto das mulheres, mas eu não aguento isso. Eu não agüento ninguém na minha casa esperando alguma coisa de mim em troca. Crie o bicho solto. Eu vou descer, comprar meu free, e já volto pra contar o resto.

Não, free nenhum, descida nenhuma senão essa que eu quase caio. Eu tô tonta. Senti assim que levantei a cabeça do travesseiro. Levantei da cama e ia pro chão se não fosse ele pular imediatamente e me segurar. Vergonha, nem conheço o cara. Eu dei pra ele, claro; ele tá deitado na minha cama, ele me comeu. Temos dúvida quanto à fodelância? Vamos checar e… não, eu não vou enfiar a mão na minha buceta na frente dele. Vai achar que tá agradando. Bom, mas não sinto como se eu tivesse trepado, não. Mulher depois de trepar pode saber se trepou mesmo que tenha estado inconsciente o tempo todo… ou não? Bem, eu não sinto como se eu tivesse trepado, o que faz desse cara aqui do meu lado um maníaco muito mais sinistro do que se ele tivesse realmente me comido porque um maníaco que fica na sua cama só pra estar perto de você tem que ser muito mas muito mais doente. Nem pra comer? Não comeu? Não, ele não comeu, não tô me sentindo comida. Que deprê. Será que eu fiz ele brochar? Isso nunca me aconteceu antes. Sempre fui a alegria da garotada, não é agora que eu vou falhar. Eles são chatos, insuportáveis mas eu não vivo sem e faço o melhor pra agradar nessas ocasiões. Adoro, adoro, todos eles. Ah. Menos esse merda aí. Xô! Vai embora! Hoje é domingo e eu quero ler jornal. Não quero conversar sobre nós. Não quero ninguém lendo o caderno de cultura por cima do meu ombro. Parece um desses pombos carentes que a gente vê na praia ciscando e andando em volta da fêmea com o pescoço todo inflado, fazendo uns barulhos horrorosos — grooo groooooo — Não vou fazer café pra você não. Ô… ei… vai embora, vai?

O fim aquele momento em que você pensa: porra, por que esses caras só acontecem comigo? Daí, EU aconteço a eles, eu prefiro fazer um estrago em alguém do que deixar rolar e ficar na merda.Também não preciso explicar demais aqui, um dia acham esse papel no chão e eu fico com que cara? Achei que seria legal as pessoas saberem o que eu estava pensando quando saí de casa. E deve ter sido uma dessas exceções que eu tava comentando lá em cima: um dia eu bebi demais, apaguei e quando dei por mim tinha um anel nesse dedo. Nesse aqui. Amanheci e tinha um cara do meu lado na cama.

– Bárbara…

Ele diz o meu nome com uma ternura, um esforço tão mínimo, como se dissesse uma outra coisa que não fosse só o meu nome. Isso é tão bonito… mesmo ele sendo totalmente pirado… Ora, que cara eu peguei que pode ser considerado normal? Nenhum. Nenhunzinho. E ninguém nunca me chamou desse jeito. Como se eu fosse um caso perdido que valesse a pena. É tão contraditório, né? Mas acho bonito. O nome dele é Roberto Heydel. É alemão? Ele ficou repetindo isso. Ele tem o cabelo meio aloirado e é branco azedo. Deve ser filho ou neto de gringo. Tem uma coisa nele que eu gosto mesmo: a curva entre o tornozelo e as batatas da perna. É a primeira coisa que eu procuro ver num homem. Quando eu tinha 13 anos, mudei de escola e a primeira menina que falou comigo me ensinou isso, a observar essa parte do corpo do homem. Ela estava sentada atrás de mim numa aula e, depois de cutucar meu ombro sem mais nem menos, sem nem se apresentar: “sabe como se descobre o tamanho do pau do cara antes de ver?” – eu mudei de cor nessa hora, meu rosto acendia com todos os matizes de vermelho e laranja que existem, ou pelo menos eu sentia assim. “Olha sempre os tornozelos. Não podem ser muito finos em relação às batatas da perna.” Renata era mais velha e já trabalhava no shopping, ela devia saber das coisas. E essa verdade não falhou uma vez sequer. Mesmo quando não posso ver antes, e só decifro essa parte da anatomia quando já estamos sem roupa, Renata estava certa. Se a curva não é brusca, ele é um homem delicioso. Às vezes não é o tamanho, é a espessura ou é… alguma outra coisa. Mas, antes de tudo, é a curva do tornozelo.

E a curva do tornozelo dele é interessante. É o que eu teria escolhido caso eu tivesse a chance de opinar. E tive mas não estava sóbria, então não se pode chamar isso de escolha. Mas é bom saber que até de porre eu ainda consigo manter o nível. O cara é pintoso. Mas chega de palhaçada.

– Bicho, cê tem que ir. Eu preciso ficar sozinha, sabe como é?

– Eu vou ligar pra sua mãe.

Minha mãe. Eu sabia que ela tinha alguma coisa a ver com isso. Eu escancarei sua buceta numa bela tarde de janeiro e, pro resto da minha vida, tenho que carregar o fardo de uma dívida que não se paga. Pelo menos uma vez por semana ela me apresenta um péla-saco. Ela traz esses caras pra comer na minha casa e, esperançosa, pra me comerem. E casar. Neste século, em que a gente conhece dez por dia e tem a liberdade de conhecer todos eles, é só querer. Casar. Ela quer netos. Eu digo: gatos. Gatos são tão legais. Gatos não precisam estudar e conseguem ler o jornal em silêncio com a gente. Já viu quanto tá custando pra botar uma criança no colégio? Plano de saúde? Brinquedo? Netos. Porra. PORRA! Esse cara não é o corretor que tava tentando vender a casa da Tia Léa? Eu acho que é. Ele tem uns 45 anos. E esse cara definitivamente faz parte do estranho círculo de amizades da minha mãe. Que inclui minha tia e mais uma dúzia de coroas alcóolatras portugueses e judeus que se reúnem em bailes da terceira idade ou coisa assim. os de 45 são sempre sozinhos e esquisitos, e aparecem nesses lugares que elas freqüentam meio que caindo de pára-quedas. Acho que deve ser uma situação meio desesperadora. Na altura da vida em que ele está, as pessoas devem fazer qualquer coisa pra não ficarem sozinhas. Isso inclui ir nas festas de velhos. Embora ele esteja muito bem conservado até pra alguém que chafurda na… segunda idade? Sei lá. O caso é que, se estiverem abaixo dos 60, minha mãe manda pra mim. E foi isso que aconteceu, ela mandou o… Roberto, isso, e ele agora quer ficar. Que foi que eu fiz com esse homem, meu Deus, que que foi? Por que ele não vai embora como os outros?

Roberto é um bom filho da puta… vou no banheiro, me dá uma ajudinha aqui só até a pia, tá? Eu quero lavar essa cara mas não tô me sentindo muito bem, talvez porque VOCÊ TENHA ME DADO UM MONTE DE DROGAS, SEU MERDA! Tá certo, não vou me estressar mais. O ferro de passar serve.

Bom, Roberrrrrrrrrto tá apagado no chão do quarto. Claro que ele tá respirando, eu só dei uma pancadinha pra ele dormir. Que coxão. Conservado mesmo, parabéns. Tem uma marquinha muito gostosa ali perto virilha, da vez que ele caiu de bicicleta em Paquetá. A gente largou o Pedro com a minha mãe e se mandou pra Paquetá. Tinha um hotel em frente à uma pracinha. Bicicletas duplas, pra casais. Casais. CA-SAIS.

É, e agora eu quero saber: será que os vizinhos me viram desse jeito? Alessandra filha-de-uma-puta-“esse-é-a-melhor-bala-que-chegou-no-brasil-esse-ano”, é viagem pra vida toda!, tem razão, filha-de-uma-puta. Volta e meia tenho flashback, e olha que tem uns 10 anos que tomei o negócio. Tomara que ele tenha mandado o Pedro pra mamãe. Eu me esqueço que casei com o Roberto. Casei porque ele era um mistério.