Carta aberta

Homem nenhum colocaria uma palavra no papel se tivesse a coragem de viver tudo aquilo em que acreditava.

Henry Miller.

Do caderno da Bi, amarelado, salvei poucas páginas. Algumas não querem dizer absolutamente nada, é claro, é bem o jeito dela. De encher páginas e mais páginas de nada. Mas eu sempre gostei do nada que escrevia.

Diga, então.

No meio do claro-escuro, um rosto de fantasma. Um clarão, o rosto encovado, os lábios finos, os olhos fechados. Mãos pequenas. Pequeno, magro. Do tamanho certo. Do meu tamanho. O rosto iluminado, muito, muito branco. Os cabelos muito pretos, tão bonitos, bem curtos, não formavam mais cachos. Claro-escuro, claro-escuro. Dançando sozinho, nenhuma mulher maior que ele, como da última vez. Ele, não tive dúvida, ele. O problema é o sempre: o sempre que o vejo.

Nesses instantes, o que eu acho que é a minha normalidade se abala e é abatida num golpe só. Tenho certeza de que nunca mais, nunca mais. Não tem a menor idéia do que me causa ali, a destruição amarga dos sistemas que ergui pra passar um dia depois do outro sem ele. Dor, choro, bolas, um médico que via sempre. Não é fácil, não é fácil. Ele existe. E eu sempre vou saber disso. E se um dia eu ainda estiver viva e souber que ele não está mais, será um outro tipo de dor. Mas a impotência que sinto é a mesma, estando ele vivo ou morto. Um tipo de morte é este, já ouvi. Ele continua respirando. Ou como assistir ao nosso vídeo. Ele tá lá. Eu tô lá. Mas é só um vídeo.

Da cabine eu volto à cozinha da minha casa onde sentamos juntos no chão há cinco anos. Ele tinha aparecido lá de madrugada, sem avisar. E pra mim aquilo não era nada estranho, era ótimo ter companhia àquela hora. Um nó grosso no peito, que não posso desatar, uma certeza que não consigo aniquilar com toda a bebida do mundo, remédios, trepadas, farras, doutor Sérgio, dinamite, guerra na CNN, nada. Certa. Fatalismo é uma teimosia sinistra, quase uma doença. Passaram-se quatro anos. Isso não é fatalismo. Isso não é teimosia. Já o vi com mulheres algumas vezes, nesses lugares. Ele sempre me convence de que está feliz. O jeito como as abraça, como se cada uma delas fosse a mulher definitiva. A última, ele envolvia como um garotinho agarrado à mãe, não podia soltá-la. Já experimentei usar a fachada também, acreditava no que estava fazendo. Olhar fundo nos olhos. Beijar sua cabeça, ajeitar seu cabelo, ouvir idéias estúpidas com interesse, chegar e sair de mãos dadas. Uma aparência que não me convence mais. Não quero fazer isso, sair e conhecer alguém é inútil, é desonesto, comigo, com ele, com esses caras que… pensei uma coisa terrível: eu, tão velha que não tivesse mais disposição para os amigos e sozinha demais. Sem ele. Ou eu, casada com alguém que tivesse conhecido num porre e tivesse me mantido bêbada até que assinasse alguns papéis e um dia acordasse em sua casa com todas as minhas roupas em seu armário e meus gatos em seu quintal e não tivesse forças pra sair dali. E ficasse lá pensando no chão da cozinha da minha casa.

A sua inteligência, sua conversa, seu aniversário, mãos pequenas, cabelo de algodão, veias altas, dentes tortos, dedicatórias em livros, o cheiro do antigo apartamento, escuro e lúgubre, eu nem sei onde você mora agora. Quem você leva até lá e escuta músicas arrastadas contigo.

É preciso que eu não me entregue. Um orelhão, rápido. Tá tarde. Vou ter que me contentar em desabafar com um dos bêbados contentes e ouvir absurdos de volta. Não. É preciso tentar. Banir qualquer pensamento sobre ele. Seguir, acreditar em alguém melhor. Na passagem do tempo. Nos anos. Em outro.