ipanema e leblon têm mesas de bar melhor dispostas, mais limpas. é a impressão que a gente tem, pelo menos. impressão não, é verdade sim. repara só. são mesas de displicência estudada, em que passa o tempo mais lento de todos os tempos. como de cafés lindos de uma paris que a gente nunca viu, e mal leu.

são bairros sem pé-sujo. um, talvez, um único, na visconde de pirajá, freqüentado por quase ninguém. outro mais lá pra dentro, em rua que cruza a prudente de moraes. no leblon, não encontro. restaurantes e bares nos dois bairros se gabam de serem pé-sujo. os freqüentadores também, “tô sempre naquele pé-sujo ali”. nunca mijaram num banheiro onde a urina dos outros ultrapassasse seus tornozelos. um bom boteco de subúrbio, imundo. copacabana mesmo, que já se asuburbanou toda.

estranha com tudo, foi que encontrei meu velho amigo viadinho num desses lugares bacanas que acham que são trash. eu e a bicha começamos a beber às dez horas da manhã e a intenção era não parar. eu não tenho mais porra nenhuma, ele tem uns projetos mas como não vai se inscrever no curso que tá querendo fazer antes de terminar de decorar a casinha em laranjeiras com o namorado – fica numa vila, é bem bacana, eles casaram agora – decidiu encher a cara por alguns dias, chegar vomitado, essas coisas que a gente não fazia desde o tempo do colégio. eu conheço o fabrício desde o tempo do colégio. só eu falava com ele. e só ele falava comigo. só o fabrício lembra da história de quando eu fui suspensa do colégio por causa dum piercing no nariz. isso foi na época que ninguém tinha piercing, aliás, não chamava nem de piercing, era um brinco no lugar errado. furei na farmácia mesmo, de maluca que eu era, bêbada, cheia de bola, não senti dor quando o farmacêutico, que era quem me vendia bola sem receita também – lexotan, prozac, ruhypnol, valium, tinha diumtudo – fez uma puta duma cratera em cima da minha narina esquerda, era quase uma terceira narina. pra escrotizar, eu meti lá um brinco desses enormes, de orelha mesmo, porque na época não tinha brinco especial pra isso. meti um brinco com um penduricalho dourado horroroso e uma pedra azul turquesa na ponta. aí me chamaram na diretoria do colégio e disseram que eu tinha que tirar aquilo. “tá assustando as crianças”. tá porra nenhuma! “tá sim, e daqui a pouco eles vão ter idéia e vão querer botar isso também”. não foi dali a pouco, mas agora, uns 15 anos depois, todo mundo usa essa porra no umbigo, no nariz, na sombrancelha. seus merdas. eu e meu amigo viadinho, o fabrício, só ele lembrava essa história. o resto da turma, se eu encontrasse na rua – graças a deus nunca encontrei ninguém – não ia nem lembrar de mim, quanto mais dessa palhaçada de brinco.

– e aí, você não vai começar a escrever não?

– escrever o quê, sua bicha.

– respeito, porra, meu namorado é enorme.

– bom pro teu rabo. mas vou escrever, sei lá, quando eu ficar sóbria. história em quadrinho.

– ah! cooptei mais um pro programa de vadiagem na praia em horário comercial! o léo também tá querendo deixar de ser mula de patrão e ir pegar jacaré durante o expediente. disse que é promessa de ano novo: “esse ano, eu vou cavar minha demissão!” aleluia.

– eu quero me dedicar a ganhar dinheiro de alguma maneira que eu não seja mais medíocre e possa terminar aquela faculdade. o que é impossível.

– eu quero fazer moda e ganhar dinheiro também deussabecomo, mas enfim…

– eu tenho que saber como por causa da quitinete. nunca ninguém vai querer nada comigo. pobre, feia, fudida, morando mal, sem nível superior. que traste, caralho. que traste, vê se me criaram pra isso? vê se titio sentou no colinho quando era pequena e disse: loirinha, você não vai ser PORRA NENHUMA e VAI MORRER SOZINHA. não disse. não me contou nada. mas aí, em compensação, noutro dia reencontrei aquele meu primo que eu já não via desde moleca, eu só ouvia dizer dele que andava fazendo muita merda, que sempre foi de fazer merda, que cada mês tava morando com uma mulher diferente, que não tinha estrutura, que era, enfim, um merda. e aí eu encontrei ele num bar e ele me abraçou, aquela coisa toda, prima, quanto tempo, num sei quê… ele já tá com uns 40 e todos. e aí ele me disse isso, só isso: “EU NÃO ME ARREPENDO DE NADA! EU NÃO ME ARREPENDO! EU IA ME ARREPENDER É SE EU NÃO TIVESSE FEITO! E TEM COISA QUE A GENTE ESPERA A VIDA TODA. EU TÔ ESPERANDO ATÉ HOJE, PRIMA! EU VOU CONTINUAR ESPERANDO!” e só disse isso aí. do nada. foi tipo uma revelação, saca?

– que coisa, hein? que homem perturbado. mas o seu contrato na quitinete é de quanto tempo?

– dois anos.

– dividir com alguem é mais barato.

– nada, ia sair a mesma coisa. e eu não conheço ninguém pra dividir. só conheço você, e tu tá casado. e mais: se eu não tiver emprego, não vou ter nem pra didivir uma baguete. por outro lado, se eu não largar esse emprego de merda – deus me perdoe – não tenho como terminar a faculdade e ter ao menos a caralha do diploma. e ainda que eu fique nesses empreguinhos, já fracassei na profissão que eu escolhi, bicha, fracaaaaaaaaaaaaaasso! além de não ser lá nenhuma gostosa, não dá nem pra esquecer que eu sou fudida, então.

– o mundo é assim, manja. então escolhe e assume a escolha.

– fácil falar.

– é difícil fazer mesmo. eu mesmo tô fudido, meu bem. este ano terá que ser crucial. mas tem que ser assim, você tem que escolher e sustentar. só isso. não pode é ficar sem escolher a vida toda que a vida passa rápido.

– se eu escolher o diploma – e vou ter que escolher o diploma – ainda assim é FRACASSO. SE eu passasse – o que nunca me aconteceu até agora – numa merda duma prova de estágio pra jornal, não seria aceita porque na minha idade não adianta mais, só entra a cabeçada nova. essas coisas. o que eu vou ser a vida toda? peão de jornalzinho de empresa, de site, ganhando merreca. se eu tiver sorte. e, enquanto estiver estudando, pelejar emprego de garçonete à noite.

– e eu vou ganhar quanto, amiga? o que você acha? com a formação que tenho hoje, faço no máximo 650 reais como professor substituto em cursinho. abrindo uma vaga, eu prestando concurso, já com mestrado em literatura (porra, não é pouca coisa em qualquer outra profissão), enfim, aí meu salário em qualquer lugar chegaria a 900 paus (rororororo). isso SE eu conseguisse emprego de professor. mas sabe, eu tô confiante nesse negócio de moda que eu vou fazer.

– é claro que você vai conseguir. quanto a mim, não tem jeito não. jornal só aceita se tiver experiência prévia e boas indicações, não tenho nem um nem outro. nem vou ter, por causa da idade, ainda que passe numa prova dessa. acabou, pra jornalismo, acabou. e além de jornalismo, o que que eu vou fazer?

– servir mesa.

– é. mas aí vai ter que ser em ipanema, no leblon, que tem uns bares mais ajeitados e contratam mulher.