Recordando Alessandra

A mania dele era ficar calado. Eu, que sempre gostei disso, já sabe. O barato de alguém não dizer nada nada, ficar só olhando ou nem isso, é que tem um segredo mal guardado ali, pedindo pra ser cutucado, pra gente achar alguma coisa. Aí eu tenho que arrancar, eu tenho que fazer o filho da puta cuspir seja lá o que for que ele esconde debaixo da roupa, da cara, da voz de homem e não é mais do que isso no final das contas, uma coisa de homem. Na maioria das vezes ele não está escondendo nada mesmo e eu descubro tudo logo que encosto mas não é por isso que vou embora sem concordar com a cabeça sim sim sim assim pra cima e pra baixo em leviana reverência. Comigo pega é que não tem um que me segure. Não tem, são chatos. Não sou a mulher mais esperta ou a mais bem-acabada do mundo mas tenho 20 anos e é cada coisa que aparece que nem rezando a gente bota pra correr. E dá pra saber quando é do tipo que não vai sumir. Cara fechadão, por exemplo. Gosta de parecer misterioso. Eu dou umas olhadas daquelas que não deixam dúvida nenhuma, até que ele chega. E aí manda um papinho escroto de meus olhos meu jeito meu não sei o quê ou alguma coisa que ele acha engraçadinha. Ajuda se eu beber um negócio mas não é tudo não. Eu tenho que inventar na minha cabeça uma história que justifique pra mim o silêncio que eu gosto no cara. E não é qualquer história. Também não é toda vez que eu consigo me enrolar. Mas quando eu consigo, eu me divirto. Depois é depois, eu não tenho nada a ver com isso. A gente se despede como quem acabou de assinar um monte de papel do trabalho e eu nunca mais vejo a criatura. Se por acaso ele me achar eu dou uma de maluca e não cumprimento. Isso se ele for do tipo que gruda. Ah, mas não digo nem oi. Finjo que nunca vi. Eu não tenho que dar explicação. Não gosto de homem no meu pé. Mesmo porque pé não é órgão sexual.

Esse cara dormindo do meu lado é do tipo que gruda. É o mais maluco que eu já topei. Sério, nunca vi ninguém ir tão longe por uma boceta. Preciso ligar pra Alessandra e contar essa, assim que eu descobrir onde ele escondeu minha agenda. Eu não sei como nem por quê mas esqueci o telefone da Alessandra. Minha cabeça é ruim mas o telefone da Alessandra é um negócio que eu sabia como sei meu nome completo. Aliás, até isso parece ter mudado agora. Meu nome. O palhaço vai tão longe com a história toda que diz que eu me chamo Bárbara Felicianni Heydel. Heydel. Heydel é o sobrenome dele e ele diz que é meu marido. Quando eu joguei o anel na privada, começou a choramingar. Não tem nada mais corta-tesão do que homem chorando. Ele é bem-apanhado, ele é alto, sabe, mas é maluco. E chorão. Coitado, não fala coisa com coisa.

Não sei nem como é que entrou aqui. Tá, exagero, eu sei que houve uma festa e desconfio que eu tenha ficado com essa criatura no meio de um pileque fenomenal, mas isso foi na sexta-feira. Hoje é domingo e o cara não se manda. Sábado ainda peguei mas hoje queria descansar. E acordei aqui com gosto de guarda-chuva velho na boca, o que é default de porre mas parece que teve alguma coisa mais, tipo quando você toma um monte de bola e apaga antes de começar a se divertir, saca? Não acredito, esse cara me deu um boa-noite-cinderela. E se aboletou na minha cama, na minha casa. Eu vou chamar a polícia, é isso. Pego o celular, levo pro banheiro e faço a ligação. Ele não vai perceber. Aaaaaaaaaaaaaaah aí. Mexo de leve na cama pra sentir se o sono dele é leve ou se é mais um desses sacos de merda que não acordam nem com balde de água fria.

– Onde você vai?

– Puta que me pariu. Tô indo no banheiro. Vai dizer que quer ir junto?

– Não precisa?

– Tá maluco! Que me ajudar o quê, eu não curto essas coisas não!

– Bárbara, você ainda deve estar meio…

Meio? Que porra é essa? Eu to to-tal-men-te… Que diabo é isso? Que que foi que q

Eu não acredito. Eu vou ter que parar um segundo essa história pra descer e comprar cigarro. É foda. Nessas horas eu até queria ter alguém pra eu fazer bico e ele ir comprar um cigarro. Mas eu não consigo, eu acho muita safadeza fazer homem de escravo. Não, não é bem assim; é que se você deixar o cara ir ficando, mesmo que seja pra fazer tudo que você quer, você tem sempre alguém por perto. Não sei do resto das mulheres, mas eu não aguento isso. Eu não agüento ninguém na minha casa esperando alguma coisa de mim em troca. Crie o bicho solto. Eu vou descer, comprar meu free, e já volto pra contar o resto.

Não, free nenhum, descida nenhuma senão essa que eu quase caio. Eu tô tonta. Senti assim que levantei a cabeça do travesseiro. Levantei da cama e ia pro chão se não fosse ele pular imediatamente e me segurar. Vergonha, nem conheço o cara. Eu dei pra ele, claro; ele tá deitado na minha cama, ele me comeu. Temos dúvida quanto à fodelância? Vamos checar e… não, eu não vou enfiar a mão na minha buceta na frente dele. Vai achar que tá agradando. Bom, mas não sinto como se eu tivesse trepado, não. Mulher depois de trepar pode saber se trepou mesmo que tenha estado inconsciente o tempo todo… ou não? Bem, eu não sinto como se eu tivesse trepado, o que faz desse cara aqui do meu lado um maníaco muito mais sinistro do que se ele tivesse realmente me comido porque um maníaco que fica na sua cama só pra estar perto de você tem que ser muito mas muito mais doente. Nem pra comer? Não comeu? Não, ele não comeu, não tô me sentindo comida. Que deprê. Será que eu fiz ele brochar? Isso nunca me aconteceu antes. Sempre fui a alegria da garotada, não é agora que eu vou falhar. Eles são chatos, insuportáveis mas eu não vivo sem e faço o melhor pra agradar nessas ocasiões. Adoro, adoro, todos eles. Ah. Menos esse merda aí. Xô! Vai embora! Hoje é domingo e eu quero ler jornal. Não quero conversar sobre nós. Não quero ninguém lendo o caderno de cultura por cima do meu ombro. Parece um desses pombos carentes que a gente vê na praia ciscando e andando em volta da fêmea com o pescoço todo inflado, fazendo uns barulhos horrorosos — grooo groooooo — Não vou fazer café pra você não. Ô… ei… vai embora, vai?

O fim aquele momento em que você pensa: porra, por que esses caras só acontecem comigo? Daí, EU aconteço a eles, eu prefiro fazer um estrago em alguém do que deixar rolar e ficar na merda.Também não preciso explicar demais aqui, um dia acham esse papel no chão e eu fico com que cara? Achei que seria legal as pessoas saberem o que eu estava pensando quando saí de casa. E deve ter sido uma dessas exceções que eu tava comentando lá em cima: um dia eu bebi demais, apaguei e quando dei por mim tinha um anel nesse dedo. Nesse aqui. Amanheci e tinha um cara do meu lado na cama.

– Bárbara…

Ele diz o meu nome com uma ternura, um esforço tão mínimo, como se dissesse uma outra coisa que não fosse só o meu nome. Isso é tão bonito… mesmo ele sendo totalmente pirado… Ora, que cara eu peguei que pode ser considerado normal? Nenhum. Nenhunzinho. E ninguém nunca me chamou desse jeito. Como se eu fosse um caso perdido que valesse a pena. É tão contraditório, né? Mas acho bonito. O nome dele é Roberto Heydel. É alemão? Ele ficou repetindo isso. Ele tem o cabelo meio aloirado e é branco azedo. Deve ser filho ou neto de gringo. Tem uma coisa nele que eu gosto mesmo: a curva entre o tornozelo e as batatas da perna. É a primeira coisa que eu procuro ver num homem. Quando eu tinha 13 anos, mudei de escola e a primeira menina que falou comigo me ensinou isso, a observar essa parte do corpo do homem. Ela estava sentada atrás de mim numa aula e, depois de cutucar meu ombro sem mais nem menos, sem nem se apresentar: “sabe como se descobre o tamanho do pau do cara antes de ver?” – eu mudei de cor nessa hora, meu rosto acendia com todos os matizes de vermelho e laranja que existem, ou pelo menos eu sentia assim. “Olha sempre os tornozelos. Não podem ser muito finos em relação às batatas da perna.” Renata era mais velha e já trabalhava no shopping, ela devia saber das coisas. E essa verdade não falhou uma vez sequer. Mesmo quando não posso ver antes, e só decifro essa parte da anatomia quando já estamos sem roupa, Renata estava certa. Se a curva não é brusca, ele é um homem delicioso. Às vezes não é o tamanho, é a espessura ou é… alguma outra coisa. Mas, antes de tudo, é a curva do tornozelo.

E a curva do tornozelo dele é interessante. É o que eu teria escolhido caso eu tivesse a chance de opinar. E tive mas não estava sóbria, então não se pode chamar isso de escolha. Mas é bom saber que até de porre eu ainda consigo manter o nível. O cara é pintoso. Mas chega de palhaçada.

– Bicho, cê tem que ir. Eu preciso ficar sozinha, sabe como é?

– Eu vou ligar pra sua mãe.

Minha mãe. Eu sabia que ela tinha alguma coisa a ver com isso. Eu escancarei sua buceta numa bela tarde de janeiro e, pro resto da minha vida, tenho que carregar o fardo de uma dívida que não se paga. Pelo menos uma vez por semana ela me apresenta um péla-saco. Ela traz esses caras pra comer na minha casa e, esperançosa, pra me comerem. E casar. Neste século, em que a gente conhece dez por dia e tem a liberdade de conhecer todos eles, é só querer. Casar. Ela quer netos. Eu digo: gatos. Gatos são tão legais. Gatos não precisam estudar e conseguem ler o jornal em silêncio com a gente. Já viu quanto tá custando pra botar uma criança no colégio? Plano de saúde? Brinquedo? Netos. Porra. PORRA! Esse cara não é o corretor que tava tentando vender a casa da Tia Léa? Eu acho que é. Ele tem uns 45 anos. E esse cara definitivamente faz parte do estranho círculo de amizades da minha mãe. Que inclui minha tia e mais uma dúzia de coroas alcóolatras portugueses e judeus que se reúnem em bailes da terceira idade ou coisa assim. os de 45 são sempre sozinhos e esquisitos, e aparecem nesses lugares que elas freqüentam meio que caindo de pára-quedas. Acho que deve ser uma situação meio desesperadora. Na altura da vida em que ele está, as pessoas devem fazer qualquer coisa pra não ficarem sozinhas. Isso inclui ir nas festas de velhos. Embora ele esteja muito bem conservado até pra alguém que chafurda na… segunda idade? Sei lá. O caso é que, se estiverem abaixo dos 60, minha mãe manda pra mim. E foi isso que aconteceu, ela mandou o… Roberto, isso, e ele agora quer ficar. Que foi que eu fiz com esse homem, meu Deus, que que foi? Por que ele não vai embora como os outros?

Roberto é um bom filho da puta… vou no banheiro, me dá uma ajudinha aqui só até a pia, tá? Eu quero lavar essa cara mas não tô me sentindo muito bem, talvez porque VOCÊ TENHA ME DADO UM MONTE DE DROGAS, SEU MERDA! Tá certo, não vou me estressar mais. O ferro de passar serve.

Bom, Roberrrrrrrrrto tá apagado no chão do quarto. Claro que ele tá respirando, eu só dei uma pancadinha pra ele dormir. Que coxão. Conservado mesmo, parabéns. Tem uma marquinha muito gostosa ali perto virilha, da vez que ele caiu de bicicleta em Paquetá. A gente largou o Pedro com a minha mãe e se mandou pra Paquetá. Tinha um hotel em frente à uma pracinha. Bicicletas duplas, pra casais. Casais. CA-SAIS.

É, e agora eu quero saber: será que os vizinhos me viram desse jeito? Alessandra filha-de-uma-puta-“esse-é-a-melhor-bala-que-chegou-no-brasil-esse-ano”, é viagem pra vida toda!, tem razão, filha-de-uma-puta. Volta e meia tenho flashback, e olha que tem uns 10 anos que tomei o negócio. Tomara que ele tenha mandado o Pedro pra mamãe. Eu me esqueço que casei com o Roberto. Casei porque ele era um mistério.

pare. respire. agora, repita com seu mentor (monitor): hoje eu sou um homem feliz, eu sou um homem liberto da minha própria parvoice, eu sou um homem livre, eu sou um homem.

agora, vá brincar de qualquer coisa por aí e não me enche o saco porque eu vou ligar o ar-condicionado, desligar o telefone, e não atender à porta.

você tá fazendo errado. perguntando as coisas pras pessoas lá atrás. elas não vão escutar. mas não é pra isso que serve a memória? pra eu poder fazer as perguntas pras pessoas lá atrás? mas você sabia. eu achei que isso podia acontecer. caras estranhas. elas são assim. não não. a sensação permanente de invadir e ser acompanhada de má vontade à porta cinco segundos depois de entrar. isso. o que você acha que eu devia fazer? pega o telefone e diz o que você tava pensando. não acho isso certo, entendeu? não me interessa. pega o telefone. eu acho que não vale a pena. não me interessa. eu não vou deixar de fazer, eu uso o que eu quiser e não preciso explicar. mas se você procurasse um jeito de apresentar isso com mais… clareza, deixar óbvio que é ficção. é ficção, não é? se não ficou claro, metade do problema é de quem lê. a minha parte tá feita. quanto menos gente paranóica no caminho, melhor. mas você não acha que podia ganhar alguma coisa com isso? eu sou totalmente ignorante. e eu tô cagando e andando. pensa nas pessoas que gostam de você. a decepção só existe quando ainda existe expectativa. e profissionalmente. profissionalmente pega muito mal pra você. imagina como esse último texto foi lido. como uma carta ressentida. ninguém vai te dar um emprego depois de ler isso. e daí? é o nirvana da existência. eu arrebento a tua cara usando apenas a força do meu espírito de porco. essas coisas que você tem dito sobre seus superiores terem hálito de fezes… sim, bafo de cocô. você não acha um pouco infantil? não. teoria da dependência. não tenho superiores. se você parar de beber agora, pode morrer como lester bangs e o pai do henry miller. meu avô era um sapateiro comunista. há alguns anos, descobriram que ele tinha 13 mulheres trabalhando pra ele na praça mauá antes de conhecer minha avó. o sogro o obrigou a largar um negócio lucrativo pelo casamento. antepassados presentes como fantasmas de chapéu e terno brancos humildes desde a primeira visão aos sete anos, nunca poderia disfarçar essa origem distante e transparente por causa das gerações seguintes que foram à universidade com dinheiro de catador de papelão. eu não fui genética e historicamente constituída pra escrever (estudos culturais, inglaterra, década de 80) como você acha que isso deve ser feito. e, no entanto, o que é isso que acabo de fazer? pode imprimir e limpar o rabo se quiser mas vai continuar sendo o que eu imaginei em primeiro lugar.

Carta aberta

Homem nenhum colocaria uma palavra no papel se tivesse a coragem de viver tudo aquilo em que acreditava.

Henry Miller.

Do caderno da Bi, amarelado, salvei poucas páginas. Algumas não querem dizer absolutamente nada, é claro, é bem o jeito dela. De encher páginas e mais páginas de nada. Mas eu sempre gostei do nada que escrevia.

Diga, então.

No meio do claro-escuro, um rosto de fantasma. Um clarão, o rosto encovado, os lábios finos, os olhos fechados. Mãos pequenas. Pequeno, magro. Do tamanho certo. Do meu tamanho. O rosto iluminado, muito, muito branco. Os cabelos muito pretos, tão bonitos, bem curtos, não formavam mais cachos. Claro-escuro, claro-escuro. Dançando sozinho, nenhuma mulher maior que ele, como da última vez. Ele, não tive dúvida, ele. O problema é o sempre: o sempre que o vejo.

Nesses instantes, o que eu acho que é a minha normalidade se abala e é abatida num golpe só. Tenho certeza de que nunca mais, nunca mais. Não tem a menor idéia do que me causa ali, a destruição amarga dos sistemas que ergui pra passar um dia depois do outro sem ele. Dor, choro, bolas, um médico que via sempre. Não é fácil, não é fácil. Ele existe. E eu sempre vou saber disso. E se um dia eu ainda estiver viva e souber que ele não está mais, será um outro tipo de dor. Mas a impotência que sinto é a mesma, estando ele vivo ou morto. Um tipo de morte é este, já ouvi. Ele continua respirando. Ou como assistir ao nosso vídeo. Ele tá lá. Eu tô lá. Mas é só um vídeo.

Da cabine eu volto à cozinha da minha casa onde sentamos juntos no chão há cinco anos. Ele tinha aparecido lá de madrugada, sem avisar. E pra mim aquilo não era nada estranho, era ótimo ter companhia àquela hora. Um nó grosso no peito, que não posso desatar, uma certeza que não consigo aniquilar com toda a bebida do mundo, remédios, trepadas, farras, doutor Sérgio, dinamite, guerra na CNN, nada. Certa. Fatalismo é uma teimosia sinistra, quase uma doença. Passaram-se quatro anos. Isso não é fatalismo. Isso não é teimosia. Já o vi com mulheres algumas vezes, nesses lugares. Ele sempre me convence de que está feliz. O jeito como as abraça, como se cada uma delas fosse a mulher definitiva. A última, ele envolvia como um garotinho agarrado à mãe, não podia soltá-la. Já experimentei usar a fachada também, acreditava no que estava fazendo. Olhar fundo nos olhos. Beijar sua cabeça, ajeitar seu cabelo, ouvir idéias estúpidas com interesse, chegar e sair de mãos dadas. Uma aparência que não me convence mais. Não quero fazer isso, sair e conhecer alguém é inútil, é desonesto, comigo, com ele, com esses caras que… pensei uma coisa terrível: eu, tão velha que não tivesse mais disposição para os amigos e sozinha demais. Sem ele. Ou eu, casada com alguém que tivesse conhecido num porre e tivesse me mantido bêbada até que assinasse alguns papéis e um dia acordasse em sua casa com todas as minhas roupas em seu armário e meus gatos em seu quintal e não tivesse forças pra sair dali. E ficasse lá pensando no chão da cozinha da minha casa.

A sua inteligência, sua conversa, seu aniversário, mãos pequenas, cabelo de algodão, veias altas, dentes tortos, dedicatórias em livros, o cheiro do antigo apartamento, escuro e lúgubre, eu nem sei onde você mora agora. Quem você leva até lá e escuta músicas arrastadas contigo.

É preciso que eu não me entregue. Um orelhão, rápido. Tá tarde. Vou ter que me contentar em desabafar com um dos bêbados contentes e ouvir absurdos de volta. Não. É preciso tentar. Banir qualquer pensamento sobre ele. Seguir, acreditar em alguém melhor. Na passagem do tempo. Nos anos. Em outro.

ipanema e leblon têm mesas de bar melhor dispostas, mais limpas. é a impressão que a gente tem, pelo menos. impressão não, é verdade sim. repara só. são mesas de displicência estudada, em que passa o tempo mais lento de todos os tempos. como de cafés lindos de uma paris que a gente nunca viu, e mal leu.

são bairros sem pé-sujo. um, talvez, um único, na visconde de pirajá, freqüentado por quase ninguém. outro mais lá pra dentro, em rua que cruza a prudente de moraes. no leblon, não encontro. restaurantes e bares nos dois bairros se gabam de serem pé-sujo. os freqüentadores também, “tô sempre naquele pé-sujo ali”. nunca mijaram num banheiro onde a urina dos outros ultrapassasse seus tornozelos. um bom boteco de subúrbio, imundo. copacabana mesmo, que já se asuburbanou toda.

estranha com tudo, foi que encontrei meu velho amigo viadinho num desses lugares bacanas que acham que são trash. eu e a bicha começamos a beber às dez horas da manhã e a intenção era não parar. eu não tenho mais porra nenhuma, ele tem uns projetos mas como não vai se inscrever no curso que tá querendo fazer antes de terminar de decorar a casinha em laranjeiras com o namorado – fica numa vila, é bem bacana, eles casaram agora – decidiu encher a cara por alguns dias, chegar vomitado, essas coisas que a gente não fazia desde o tempo do colégio. eu conheço o fabrício desde o tempo do colégio. só eu falava com ele. e só ele falava comigo. só o fabrício lembra da história de quando eu fui suspensa do colégio por causa dum piercing no nariz. isso foi na época que ninguém tinha piercing, aliás, não chamava nem de piercing, era um brinco no lugar errado. furei na farmácia mesmo, de maluca que eu era, bêbada, cheia de bola, não senti dor quando o farmacêutico, que era quem me vendia bola sem receita também – lexotan, prozac, ruhypnol, valium, tinha diumtudo – fez uma puta duma cratera em cima da minha narina esquerda, era quase uma terceira narina. pra escrotizar, eu meti lá um brinco desses enormes, de orelha mesmo, porque na época não tinha brinco especial pra isso. meti um brinco com um penduricalho dourado horroroso e uma pedra azul turquesa na ponta. aí me chamaram na diretoria do colégio e disseram que eu tinha que tirar aquilo. “tá assustando as crianças”. tá porra nenhuma! “tá sim, e daqui a pouco eles vão ter idéia e vão querer botar isso também”. não foi dali a pouco, mas agora, uns 15 anos depois, todo mundo usa essa porra no umbigo, no nariz, na sombrancelha. seus merdas. eu e meu amigo viadinho, o fabrício, só ele lembrava essa história. o resto da turma, se eu encontrasse na rua – graças a deus nunca encontrei ninguém – não ia nem lembrar de mim, quanto mais dessa palhaçada de brinco.

– e aí, você não vai começar a escrever não?

– escrever o quê, sua bicha.

– respeito, porra, meu namorado é enorme.

– bom pro teu rabo. mas vou escrever, sei lá, quando eu ficar sóbria. história em quadrinho.

– ah! cooptei mais um pro programa de vadiagem na praia em horário comercial! o léo também tá querendo deixar de ser mula de patrão e ir pegar jacaré durante o expediente. disse que é promessa de ano novo: “esse ano, eu vou cavar minha demissão!” aleluia.

– eu quero me dedicar a ganhar dinheiro de alguma maneira que eu não seja mais medíocre e possa terminar aquela faculdade. o que é impossível.

– eu quero fazer moda e ganhar dinheiro também deussabecomo, mas enfim…

– eu tenho que saber como por causa da quitinete. nunca ninguém vai querer nada comigo. pobre, feia, fudida, morando mal, sem nível superior. que traste, caralho. que traste, vê se me criaram pra isso? vê se titio sentou no colinho quando era pequena e disse: loirinha, você não vai ser PORRA NENHUMA e VAI MORRER SOZINHA. não disse. não me contou nada. mas aí, em compensação, noutro dia reencontrei aquele meu primo que eu já não via desde moleca, eu só ouvia dizer dele que andava fazendo muita merda, que sempre foi de fazer merda, que cada mês tava morando com uma mulher diferente, que não tinha estrutura, que era, enfim, um merda. e aí eu encontrei ele num bar e ele me abraçou, aquela coisa toda, prima, quanto tempo, num sei quê… ele já tá com uns 40 e todos. e aí ele me disse isso, só isso: “EU NÃO ME ARREPENDO DE NADA! EU NÃO ME ARREPENDO! EU IA ME ARREPENDER É SE EU NÃO TIVESSE FEITO! E TEM COISA QUE A GENTE ESPERA A VIDA TODA. EU TÔ ESPERANDO ATÉ HOJE, PRIMA! EU VOU CONTINUAR ESPERANDO!” e só disse isso aí. do nada. foi tipo uma revelação, saca?

– que coisa, hein? que homem perturbado. mas o seu contrato na quitinete é de quanto tempo?

– dois anos.

– dividir com alguem é mais barato.

– nada, ia sair a mesma coisa. e eu não conheço ninguém pra dividir. só conheço você, e tu tá casado. e mais: se eu não tiver emprego, não vou ter nem pra didivir uma baguete. por outro lado, se eu não largar esse emprego de merda – deus me perdoe – não tenho como terminar a faculdade e ter ao menos a caralha do diploma. e ainda que eu fique nesses empreguinhos, já fracassei na profissão que eu escolhi, bicha, fracaaaaaaaaaaaaaasso! além de não ser lá nenhuma gostosa, não dá nem pra esquecer que eu sou fudida, então.

– o mundo é assim, manja. então escolhe e assume a escolha.

– fácil falar.

– é difícil fazer mesmo. eu mesmo tô fudido, meu bem. este ano terá que ser crucial. mas tem que ser assim, você tem que escolher e sustentar. só isso. não pode é ficar sem escolher a vida toda que a vida passa rápido.

– se eu escolher o diploma – e vou ter que escolher o diploma – ainda assim é FRACASSO. SE eu passasse – o que nunca me aconteceu até agora – numa merda duma prova de estágio pra jornal, não seria aceita porque na minha idade não adianta mais, só entra a cabeçada nova. essas coisas. o que eu vou ser a vida toda? peão de jornalzinho de empresa, de site, ganhando merreca. se eu tiver sorte. e, enquanto estiver estudando, pelejar emprego de garçonete à noite.

– e eu vou ganhar quanto, amiga? o que você acha? com a formação que tenho hoje, faço no máximo 650 reais como professor substituto em cursinho. abrindo uma vaga, eu prestando concurso, já com mestrado em literatura (porra, não é pouca coisa em qualquer outra profissão), enfim, aí meu salário em qualquer lugar chegaria a 900 paus (rororororo). isso SE eu conseguisse emprego de professor. mas sabe, eu tô confiante nesse negócio de moda que eu vou fazer.

– é claro que você vai conseguir. quanto a mim, não tem jeito não. jornal só aceita se tiver experiência prévia e boas indicações, não tenho nem um nem outro. nem vou ter, por causa da idade, ainda que passe numa prova dessa. acabou, pra jornalismo, acabou. e além de jornalismo, o que que eu vou fazer?

– servir mesa.

– é. mas aí vai ter que ser em ipanema, no leblon, que tem uns bares mais ajeitados e contratam mulher.