quantos cigarros eu ainda conseguiria mastigar com os dentes trincados até que a tensão do fim do disco se dissipasse. ele não virou o lado. só disse aquilo e não se mexeu mais.

em torno, tudo cacos. eu não sabia se pegava uma vassoura ou acendia outro cigarro no filtro do que terminava de queimar. fumamos pelos motivos mais bestas. começamos a fumar pelos mais insondáveis. eu roubava guimbas de cigarro do cinzeiro que a empregada abarrotava diariamente. fumava filtro amarelo de cigarro plaza ou hollywood, todos babados e sujos da cinza que se acumulava junto com aqueles restos da boca da mulher velha. ela era cozinheira mas, como só eu ficava em casa, pequena e totalmente desinteressada de comida, ela ficava mais na faxina e tomando conta de mim. mãe e pai, quando eu via, era só à noite, se eu ficasse acordada até tarde contrariando as ordens daquela mulher. um dia a chamei de mãe na frente da minha mãe e, para a casa vir abaixo, faltaria apenas que eu acendesse uma guimba naquele momento.

desde então, nunca parei de fumar. gosto particularmente de acender um cigarro no outro. todo a compulsão me apraz. todo o vício me parece amor.

continuei fumando na frente dele e aboli completamente a idéia da vassoura. eu não ia varrer na frente de um homem. hóspede e mulher, não varro. nem que a ex-mulher dele volte aqui e termine de quebrar tudo.