quanto mais os weblogs ficam populares, mais é preciso explicar o que é diário e o que não é. isto aqui não é um diário. são os trechos do que tenho escrito num caderno e depois pretendo juntar num livro só. inclusive os ‘poeminhas’, que são de uma personagem.

tem uma novela lá embaixo, retrato do jovem escritor etc., em que o sujeito principal, como diz o sexo, não sou eu. quando quero escrever em primeira pessoa, assumo, é simples. mas no caso do entreparenteses, tudo são os outros. se eu achar alterego nessa coisa nova que estou fazendo, aviso.

quantos cigarros eu ainda conseguiria mastigar com os dentes trincados até que a tensão do fim do disco se dissipasse. ele não virou o lado. só disse aquilo e não se mexeu mais.

em torno, tudo cacos. eu não sabia se pegava uma vassoura ou acendia outro cigarro no filtro do que terminava de queimar. fumamos pelos motivos mais bestas. começamos a fumar pelos mais insondáveis. eu roubava guimbas de cigarro do cinzeiro que a empregada abarrotava diariamente. fumava filtro amarelo de cigarro plaza ou hollywood, todos babados e sujos da cinza que se acumulava junto com aqueles restos da boca da mulher velha. ela era cozinheira mas, como só eu ficava em casa, pequena e totalmente desinteressada de comida, ela ficava mais na faxina e tomando conta de mim. mãe e pai, quando eu via, era só à noite, se eu ficasse acordada até tarde contrariando as ordens daquela mulher. um dia a chamei de mãe na frente da minha mãe e, para a casa vir abaixo, faltaria apenas que eu acendesse uma guimba naquele momento.

desde então, nunca parei de fumar. gosto particularmente de acender um cigarro no outro. todo a compulsão me apraz. todo o vício me parece amor.

continuei fumando na frente dele e aboli completamente a idéia da vassoura. eu não ia varrer na frente de um homem. hóspede e mulher, não varro. nem que a ex-mulher dele volte aqui e termine de quebrar tudo.

não a que estava sentada com o gordo mas a que entrou com o pedaço de ferro e derrubou de um golpe as garrafas perfiladas nas prateleiras atrás do balcão, acertando em seguida os espelhos que revestiam a parede do bar, os pratos virados pra baixo nas mesas vazias, os copos, a caixa registradora, as garrfas e eu já mencionei as garrafas, já, os uísques todos e conhaques nacionais terríveis eram tantos que eu podia falar “garrafas” o dia inteiro. a expressão no rosto da morena era de quem já imagivava aquilo possível. “não seria nenhuma surpresa se a fulana…” ou “ah, outra vez?” a expressão nos rostos das outras pessoas deve ter forçado o homem a reagir de alguma maneira e o que fez foi saltar por cima do balcão e dominá-la com intimidade. jogou longe o ferro e prendeu os pulsos da diaba com as mãos. meus olhos devem ter ficado muito gigantes enquanto ela destruía o salão e eu ainda não conseguia piscar. ela se debatia e tentava morder o coroa, enquanto a morena já tinha corrido pra rua e o casal simplesmente sumira, escada acima ou porta afora; não prestei atenção. só consegui olhar para aquela luta, que se movia aos poucos pelo corredor do restaurante e logo desembocaria lá fora. pude ver um pm se aproximar, provavelmente chamado pela morena. e daí todos sumiram. fiquei só com meu prato cheio de cacos de vidro.

ele voltou. sentou sobre o balcão com um pequeno impulso e curvou o tronco para trás para mexer em alguma coisa que eu não podia ver de onde estava. seus movimentos era de quem percorria um arquivo. levantou um vinil grosso que ficou olhando um tempo sob um foco de luz que sobrara intacto, e logo soou a agulha no sulco. eu conhecia aquilo, o chiado e a cantora. ouvimos o disco inteiro calados até que um novo roçar fino sobre o disco permitiu que dissesse:

– não gosto de novela.

nem todo mundo pode ou quer examinar por um momento se o que sente teria outro nome. se vem um dia uma preocupação mais sem endereço que outras angústias de antes, um cansaço que não é cansaço. se fosse possível voar mas por acaso, sem intenção de levitar, “estou voando, mas por quê? eu não planejei isso”, não estou vazio mas deveria estar porque, afinal, sei que não existe agora o que pudesse ocupar o salão de ausências. inquieto, mas não há correspondência no mundo para o meu estado interno. é um movimento involuntário… contra o quê? não se trata também de reação. ou de prevenção. não existe alvo. o que é?

mas um dia, sem aviso, os olhos duros são preenchidos outra vez por – ainda que não seja o certo, estão mar – tomam a vontade pela sensação física, onde é possível se enganar mas é Viço, algum Viço depois da possibilidade esquecida – é. se puder chegar até o engano, que seja o engano, que seja impressão exagerada da realidade, se internaliza invasora incapaz de sobreviver acesa por ser engano. deixa que entre e fique lá à vontade porque, uma vez que se chega aí, é possível também.