Fui até a sala para deixar operar a mágica que fervia o leite quando não tomamos conta dele. Acertei a antena da TV procurando qualquer coisa; os dois primeiros canais eram só chiado e estática, não que fizesse diferença para mim. Já desisti de ler jornal, não consigo me interessar nem pelas figuras nas revistas e literatura exige uma concentração que eu não tenho mais. Fiquei olhando para as minhas mãos, o tédio me apazigüava como em criança esperando até tarde no colégio. Eu devia comprar Lego, acho que agora só posso com essas distrações mansas, com miniaturas de plástico. Montar aviões, quebra-cabeças, pode ser. Videogame é muito agitado.

Fiquei inspecionando as minhas unhas feias, sem manicure. Eram dois minutos longos, cronometrados pelo relógio digital no meu pulso. A TV balbuciou qualquer coisa e meus olhos cravaram na tela assim que entrou música. Mostrou a mulher andando por uma cozinha amarela que devia ter o tamanho do meu apartamento inteiro. Ela sorria com um bocão inchado enquanto carregava a bandeja cheia de torradas; a câmera fechou na boca, na mesa e, em seguida, nas torradas bezuntadas pela margarina, mostrando ao lado uma embalagem com a logomarca de um sol amarelo-ovo. Ela passava margarina nas torradas como se regesse uma orquestra. Tommy Dorsey. ‘On The Sunny Side Of The Street’, era essa a gravação. É risível que a minha memória possa ser sacudida como se fosse iogurte num comercial só porque registrou uma música um dia. Esqueço e me livro de tantas coisas. E agora isso, sendo puxado da minha cabeça como uma ficha de arquivo. Os primeiros fraseados da música me deixaram confortável e eu não distingui direito o que via mas logo percebi a margarina, as torradas, o sol amarelo. As lembranças que nada tinham a ver com a cena na TV ficaram ridículas. Como se o comercial se tornasse o proprietário exclusivo da música, retendo a única versão de realidade em que ‘Sunny Side Of The Street’ poderia transmitir emoção. As imagens que eu tinha guardadas e se moviam com aquela trilha não eram tão nítidas quanto as que passavam na minha frente. Não me senti roubada nem nada disso, era só uma coisa comum que não significasse mais nada depois de tanto tempo. Ou que não me pertencesse mais.

Voltei para a cozinha, desliguei o fogão, limpei as bordas para evitar que o leite derramado formasse crostas. Tomei leite com café.