“Também não quero mais saber disso” – menti, descaradamente, concordando com o que desconfiava ser uma mentira dele também.

Se eu conseguisse sustentar o discurso quando em casa, sozinha, não me incomodaria com noites longas. Olhei pros sapatos desviando do reflexo do meu rosto nos óculos escuros dele e acendi outro cigarro dando cobertura ao isqueiro com uma das mãos em concha. Aquilo na ponta do sapato esquerdo era, certamente, algo que havia passado algumas horas em mim antes de voltar a ver o mundo do lado de fora.

– De qualquer maneira, não dá pra levar a vida inteira assim.

Quando ele me daria uma brecha em vez de eu lhe dar a racha? Hora de ir. Hora de ir. Hora de ir. Paciência. Ele me deixava com sono como uma revista de jardinagem em alemão. Mas vai ver era assim mesmo, tolerância e muita cafeína faziam a felicidade de qualquer casal e só eu não sabia. Só eu não conhecia o segredo que os namorados eternos compartilham por anos entre as paredes dos seus apartamentos e sentados em seus os carros com algum híbrido seu, pequeno e gritão, amarrado numa cadeira no banco de atrás espalhando doces e baba no estofamento. Eu ainda babava meus próprios sapatos.

Busquei no seu rosto um mastro qualquer onde eu pudesse amarrar o pensamento mas os óculos escuros não me deixavam ver além do meu reflexo distorcido nas lentes. Sua boca não me prendia, nem as palavras, nem o duro nariz que eu já achava diferente. Bufei tédio em cima do cinzeiro e vi as cinzas levantarem no ar e descerem sobre o tapete sem reação. Era um dia tão chato que eu talvez nem tirasse toda a roupa. Era uma beleza, eu quis dali braços, pernas, tronco, pau e língua sem imaginação que variasse do que podia ver nele, eu salivava só de pensar no que era quente naquela pele. Mas.