Retrato do jovem escritor, etc. – 1 – giannetti@terra.com.br

Guilherme Apolinário era a Nova Literatura. Estava hospedado pelo verão no apartamento mais espaçoso do prédio mais caro da Vieira Souto, aluguel pago pelo dono da Artiste, que vendia bem em São Paulo e tinha alguma sobrevida no Rio de Janeiro. Não falava com jornalistas há anos porque nenhuma entrevista jamais fez jus à sua personalidade, conversa jogada fora. Só a Artiste merecia algumas horas hoje, pelas resenhas favoráveis e por patrocinar a vista perfeita para onde olhava quando queria descansar do Word.

Humberto Boot, repórter do suplemento literário da revista, deveria cumprir a histórica tarefa de conduzir uma entrevista com o escritor que já mantivera cinco jornalistas presos numa suíte de hotel em Curitiba por 52 horas. Obrigara o grupo a anotar cada palavra que diziam e pensavam com delineadores da Avon sobre papel de carta Hallmark. Liberou-os sob a condição de que não falassem ou escrevessem sobre o caso durante um ano. Embora tenha apontado uma arma para eles, as autoridades sequer ficaram sabendo: o segredo editorial do século, uma tresloucada experiência realista-literária, seria alegremente acobertada até que virasse livro por todos os veículos interessados em transformá-la em um sucesso comercial . A idéia que o escritor tivera em meio a um porre de gin havia sido repassada por ele mesmo a alguns veículos; prontamente lhe enviaram seus melhores repórteres. Chegaram entusiasmados com bloquinhos e gravadores, ignorando qualquer risco até Apolinário anunciar que estavam presos. Girou a pistola, gargalhou com bafo de cachaça, fez o número todo – escreveram desesperadamente, misturando medo e decepção diante do cara que, poxa, poderia muito bem ser o Maior Escritor Vivo.

Teve então um ano para reunir os textos colhidos sob a mira de um revólver e sua visão do episódio em um livro de 220 páginas. Os jornais que estavam no esquema começaram a soltar notinhas sugerindo que a nova ficção de Guilherme Apolinário não era tão fictícia assim. Duas reimpressões em seis meses foi o começo da brilhante carreira deste livro, que até hoje não esquenta em prateleira de loja alguma. Os repórteres envolvidos ganharam bônus e cargos por sua discreta colaboração, além da distinção de conhecer Apolinário. Ele era uma exclusividade dos poucos a quem permitia transitar pelo apartamento e viver nele de acordo com regras muito próprias.

Boot veria aquele rosto e conversaria com o mito. O que lhe garantia tal privilégio e não a Vespúcio Khalil, ou outro mais experiente, não saberia dizer. Apesar dos perigos que relatava a história surreal do best seller Jornalistas são de Marte, escritores são de Vênus, ninguém dispensaria a oportunidade de encontrar Apolinário. Boot aceitou a incumbência tentando não demonstrar pânico (não conseguiu), passou pelos colegas de redação que o olhavam com inveja querendo não afetar orgulho (falhou) e aproveitou cada noite que restava antes do encontro para repassar toda a obra de Apolinário (a-do-rou). Entre suas leituras, imaginava um homem jovem sentado em frente ao laptop, digitando freneticamente; uma mecha de cabelos castanhos lisos largada sobre os olhos, enevoados pela fumaça do cigarro. Uma das certezas sobre Apolinário sempre usada para descrevê-lo era que pertencia à estirpe de Rimbaud, uma força que começava a pensar cedo demais e escrevia a todo vapor antes que a juventude o abandonasse para sempre.

Se, chegado o grande momento, a fita enrolasse no gravador, se o gênio decidisse que não ia responder às perguntas cruciais ou simplesmente o enxotasse do apartamento, não haveria nenhuma compaixão nos olhos injetados de seu chefe; se retornasse à redação com um fracasso, não haveria desculpas suficientes para acalmar aquele chefe. Ou segurar seu emprego. Como era bom ser o homem que desnudaria os mistérios de Apolinário para o mundo. Era?

Ajeitou a camisa para dentro da calça e tocou a campainha. Ao invés de um pééé ou ding dong, tão comuns, soou um trecho da Internationale. O estranho mundo da vida privada de Apolinário precipitando-se sobre Boot, que quase recuou. Não queria voltar derrotado à redação, ao mesmo tempo em que a expectativa de encontrar uma figura tão difícil o exasperava. Ainda poderia correr dali sem ser visto ou alguma câmera no corredor registraria o covarde para o divertimento de Apolinário e seus amigos artistas?

A porta se abriu sem que ele a tocasse, fez tzzz quando mostrou a brecha pela qual não passaria um gato magro. Empurrou-a e seguiu o corredor de paredes salpicadas de pinturas feias. Ecos de gritos, risos e música chegavam a ele junto com lembranças de histórias que tinha ouvido sobre o estilo de vida do escritor e seu circo de amizades. Girou a maçaneta dourada para passar de trêmulo a lívido.

Três silhuetas envoltas em panos (cortinas? Vestidos?) corriam ao redor do que devia ser uma piscina de plástico, o chão estava encharcado e podiam-se identificar algumas garrafas jogadas aqui e ali. Um estrobo tornava o ambiente claro e escuro claro e escuro claro e escuro e as feições de cada um eram fantasmas que surgiam em intervalos num canto e outro da sala.

– Pensa rápido! – ao mesmo tempo em que ouviu a frase, Boot foi nocauteado por uma bola de basquete que o atingiu em cheio na testa. Caído em cima de uma poça de água, segurou a mão estendida que se ofereceu para levantá-lo, aliviado porque as luzes foram finalmente acesas. Encarou um garoto.

Então o Escritor venerado por histórias que estudantes de literatura do mundo inteiro conheciam, que colocava na boca de personagens eternos frases como “fazendo-se de joão-sem-braço pra comer o cu do coveiro”, recitadas entre olhares cúmplices em restaurantes e festas da Academia, que decretara: “a traseira de um crítico é mais interessante que sua mente” sem perder um aplauso sequer; então, era um talento precoce demais, magrelo e com cachos loiros sobre a testa. Vestia um lençol branco improvisado à maneira de uma túnica, galhinho de louro atrás da orelha.

– Hoje é Quinta-feira! Eu podia jurar que era Segunda! Desculp´a bagunça, é… comé teu nome?

– Humberto, Humberto Boot? – Quase interrogação.

– Humberto, muito prazer! A gente esperava você pra Quinta-feira e, olha só como são as coisas! hoje é Quinta-feira!… levanta, homem! – puxou Boot com um solavanco e deu tapinhas nas suas costas, imprimindo com água desenhos sem forma na frente da calça e da camisa do repórter. Atrás, a roupa de Boot estava quase tão molhada quanto a túnica do garoto. Seu pânico dissolvera-se em constrangimento.

– Você sabe por que o Rio de Janeiro vai ser o berço do renascimento da Filosofia? – deu-se ares proféticos e esperou alguns segundos até responder à própria pergunta:

– Grécia Antiga, aquele calorão fazendo borbulhar mentes como as de Sócrates, Platão! Sol a pino, pouca roupa… não te faz pensar que estamos no caminho certo? – disse num só fôlego, largando o abraço tão bruscamente quanto o puxou, sendo interrompido por:

– Platão para prefeito! Platão para prefeito!

A voz chegou acompanhada de um rosto desconstruído, abobalhado e largo demais. Também num lençol molhado, tinha mais de trinta anos e parecia um louco de anedota.

– Este é Guilherme Apolinário – disse o loirinho, apontando para o louco de anedota, que transformou um pequeno tropeço numa rebuscada reverência, a cabeça inclinada e a mão direita sobre o peito, enquanto a esquerda se apoiava no rapazote, mais equilibrado que ele. Quando dobrou o corpo na direção de Boot, seu lençol se desprendeu da cintura, revelando pêlos e coisas que não se mostram assim, sem mais nem menos.

– E este é o Gangui Jã! – o escritor apresentou o guri, largando de vez o lençol. Sumiu por uma porta, caminhando sem pressa, trôpego e peladão.

O terceiro fantasma que brincava no claro escuro quando Boot chegou emergiu da piscina redonda, chamado pela conversa. Ela não deixou seu lençol cair na frente dos olhos coitados de Boot mas atravessou nua a suíte de cenas improváveis e perto deles cobriu-se com os panos de Apolinário. A mulher beirava os trinta e alguns, como Apolinário, Boot beirava o desespero, e Gangui Jã certamente era chave-de-cadeia.

– Oi, meu nome é Anne. Você é o repórter, né? Fica à vontade, serve alguma coisa pra você no bar. O Apolinário foi trocar de roupa e já conversa contigo.

– Não se preocupe, eu aguardo, nenhum problema…

– A gente nunca se preocupa.

Sumiram Gangui Jã e Anne arrastando os lençóis pelo chão, porta oposta a que Apolinário tinha entrado. Boot precisou de uma dose, até de duas da mesma coisa e aí relaxou. Mas quis mais outra quando sentiu a tensão voltar, olhou o relógio, viu que já haviam se passado duas horas desde que o deixaram na sala. Que porra era aquela?! Esperava um cara excêntrico mas, de novo, vamos lá, não acho que eu tenha conseguido expressar direitinho o meu espanto: QUE PORRA ERA AQUELA?!

?

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aaannnn alôôôô?

iiiiooouuu… ei… sou eu. Sou eu! Eu não sou ele, eu sou eu, só eu sei que tô quase me borrando de medo aqui, eu tô segurando um copo na mão e apertando meu rabo o máximo que eu posso pra não me borrar de verdade! O que é que tá acontecendo comigo. O que é que tá acontecendo comigo. É só uísque. É só uísque, é só uísque, são várias noites sem dormir lendo o que esse merda escreve. Que é que esse cara sabe? Que é que EU sei? Quem sou eu pra falar do que ele escreve? Eu sou eu, não sou ele, eu não sei dar nomes pra pessoas que não existem, eu não sei escrever qualquer coisa sem um lead e um sublead e eu não consigo entrar numa sala onde esteja alguém pouquinha coisa menos burro que eu sem tremer na base. Então, como posso saber?! Eu ACHO coisas sobre esse cara, eu não sei nada sobre ele e nunca vou saber .

Foi preciso afogar a voz de Humberto Boot lentamente em uísque. Sua voz é a consciência querendo ser impressa, tentando se agarrar (insetinho esmagado e gosma fria saindo por uma rachadura no pequeno casco para colar seu corpo ao capacho), ser estática. E, ainda que fixa ao papel, quem a ler a transforma sempre em uma outra coisa. Desculpe, Boot. Mas foi preciso afogar a sua voz lentamente em uísque.

Remexeu os bolsos até encontrar seu gravador. Começou a ditar A HISTÓRIA DE GANGUI JÃ:

Gangui Jã era holandês, holandês de 16. Caiu numa piscina Tony e quis ser velho outra vez.

Gangui Jã morava no piano da irmã. Não tocava muito bem mas vivia como um rei.

Gangui Jã tinha olhos siameses e corcunda de Notre Dame. Morava num piano, dormia no arame.

Gangui Jã era bonito. Tinha olhos? 16. Era muito meu amigo. Psi psi psi, venha cá, meu siamês.

Gangui Jã, meu pai meu filho, meu querido holandês. Diga um verso bem bonito, Tony casa outra corcunda.

A História de Gangui Jã não era coisa fácil de ser contada e só fazia sentido se lida de cabeça para baixo porque adolescentes são complexos. Se a pudessem resumir em uma frase, deveria ser dito em sua defesa que era sobre um rapaz que morava dentro de um piano. Isso não se discute. E Boot se esvai.

– Apolinário, posso lhe tomar emprestada esta caneta e, quem sabe, algumas folhas de seu bloco?

– Claro, Boot, meu caro! Soube que se esvai.

Boot, ou o que sobrara dele, ignorou a provocação imaginada e escreveu:

ANNE, ONDE ESTÁ MEU GUARDA SOL?

Anne, Anne

Onde está meu guarda sol?

Eu te segui até aqui

Só pra perguntar

Onde está?

Não, não é bem isso que eu quero saber

Pode ficar com tudo que é meu

Pode levar a TV e o vídeo

Os discos eu já quebrei

Pode levar porque sem você

Nada funciona mesmo

E o que eu quero eu não vou mais pedir.

O diálogo em que pergunta a Apolinário sobre papel e caneta foi a única coisa que realmente criara. Os versos, logo saberia de quem eram. O que faziam na sua cabeça? A mesma coisa que faziam na cabeça de todo mundo: pediam para ser cantados.

– Cara… cê tá doidão.

Procurou a fonte daquela voz chorosa. Podia ver uma língua molhada e vermelha, dentes brancos no túnel que acabava no bucal do alto-falante. Peraí. A boca se afastou de seus olhos o suficiente para que percebesse – sem entender – que não havia alto-falante algum. Os lábios de Ciao Bizureto, o popstar baiano, se colaram finalmente a um rosto completo. Fechou os olhos para estar sozinho novamente.

– Bebeu o Mel do Pelourinho.

– Vixe! Mas pra que deu isso a ele?

– Dei nada! Fui tomar banho e quando voltei o bicho já tava chapado.

O Mel do Pelourinho era uma mistura de uísque Passport, aguardente e umas ervas trazidas por Ciao dos intestinos da Bahia, onde o cantor era venerado como um deus. A cada volta do filho pródigo, o povo o recebia com garrafas contendo o líquido escuro onde dançavam ervas sagradas. Fazia-se um ritual para entregá-las, quando Ciao Bizureto devia dar A Palavra às centenas de fãs fiéis que o cercavam gritando “Bubute! Bubute!”, ou “popozudo” em funkarioquês. Ele traduzia a letra de The End dos Beatles e todo mundo repetia aliviado que no final, o amor que você ganha é igual ao amor que você dá. Pois um dia Ciao deu uma festa e quando acabou a cerveja, decidiu fazer algo dos litros daquela beberagem que já amontoavam em sua despensa. Sem saber se servia para curar doenças venéreas ou acompanhar um lanche, adicionou destilados que sobravam sobre a pia e inventou o Mel do Pelourinho. Que agora dava sonhos selvagens a Boot.

– Quanto tempo ele vai ficar assim? – Apolinário perguntou.

– Dois dias, dois anos… depende do quanto bebeu.

– Ele enfiou o pé na jaca. A garrafa tava cheia assim, ó. – mostrou o ó.

– Esses cariocas não sabem aproveitar o místico da experiência do Mel.

– Tô precisando fazer um rótulo pra botar nesse troço, senão o que vai Ter de visita desavisada passando mal aqui…

– Tem festa hoje?

– Tem, mais pra noitinha. Anne tá lá dentro dormindo, Gangui Jã também.

Bizureto começou a cantarolar seu hino à beleza de Anne, que compusera quando ela o trocou pelo amigo escritor. O Brasil todo acompanhara o affair pelas revistas de fofoca e cantava amargurado o refrão “sem você nada funciona mesmo”. Era assim desde a adolescência: ela mudava de interesse por um homem conforme mudava de interesse por atividade específica. Largou Ciao, seu primeiro namorado, por um pintor quando cursou artes na Europa, parindo Gangui Jã. Do pintor, voltou pra Ciao, até se interessar por culinária e namorar um chef. Tendo desenvolvido bulimia, enjoou de culinária e do chef e voltou para Ciao, só para passar a gostar de cinema. Virou atriz e namorou um diretor famoso. Mas isso também acabou e Anne estava novamente feliz nos braços de Ciao até o dia em que decidiu ler um livro e percebeu que a literatura era um troço, assim, fascinante. Ciao cedeu a vez a Apolinário mas continuava por perto, recorrendo ao sofrimento que Anne lhe oferecia como fonte de inspiração para suas canções.

Apolinário, indiferente à cantoria do amigo, estava mais preocupado em acordar Boot.

– Pega pelas pernas que eu pego pelos braços.

Dentro de um silêncio plácido, reconheceu uma centena de sonhos que um dia tivera com o mar. Sentiu-se parte de um organismo quente, cuja extensão não podia definir, fluía sem fardo nem adeus. “Eu nunca me preocupo”, disse para um santo que o batizava no Arpoador. Repetiu o mesmo para o seu preparador físico, enquanto se atirava às ondas com uma prancha larga, ao campeonato de surf no 1987 de sua cabeça. Ergueu-se da água buscando o ar, tonto, cuspindo e tossindo. Foi Apolinário quem amparou sua cabeça antes que ela batesse na borda da piscina.

– Que mangüaça, hein, rapaz? Tá tudo bem? – Apolinário estava molhado outra vez e não dava a mínima.

Boot limitou-se a tossir mais, tossiu muito, foi tossindo o tempo todo enquanto era carregado de volta ao sofá, pensou que ia expelir o pulmão.

– O Mel do Pelourinho é também um excelente expectorante.

– Eu tava dormindo?… acho que engoli água.

– Quantos copos daquilo ali você bebeu?

– Desculpa, eu não sabia… tava ansioso, bebi dois, três. Mais de um, com certeza. – passou os olhos entre copo, garrafa e balcão e – Ciao Bizureto! – apontou para o baiano, que já se jogara numa poltrona oposta a eles. Não movia um músculo, nem do rosto, nem do corpo, agindo ainda por alguns instantes como o melhor cantor da América Latina. Não, do mundo.

– Guri, você não tem condições de entrevistar ninguém agora. Por que não encosta por aí e relaxa? – sugeriu Apolinário.

– Eu tava relaxando! Vocês me jogaram na piscina! – reviu a cena e achou-a muito engraçada, tinha que rir. Riu. Muito.

– Você tava ensaiando um coma. E eu não quero isso. Fique acordado.

Apolinário fugiu da sala para nova troca de roupas e deixou Boot com seus pensamentos chacoalhados. Ciao sumiu bem devagar, como uma tarde em Itapoã.

***

Bati de leve na porta metade compensado metade vidro da sala de Túlio Caldas. Neste emprego há seis meses e nunca tinha sido chamado à sala de Túlio Caldas. Ganho mal, moro num sala-banheiro-cozinha em Copacabana, bebo cerveja com dois colegas de um jornal popular e escrevo para a seção de lançamentos da Artiste. Jamais fiz uma matéria inteira, mas uma vez ajudei um desses caras do jornal a checar uma fonte que dizia ter um pinto de quatro patas; fomos eu e o meu amigo pro Bairro do Peixoto ver o tal pinto de quatro patas. Era um pinto de quatro patas mesmo. Glória da minha carreira e eu sequer assinei a notícia.

Não sei o que o Túlio quer. Se for demissão, eu mando um caô no Correio Diário e arranjo qualquer coisa, é só falar que ajudei a descobrir o pinto de quatro patas. Sem emprego não fico. Não vai ser fácil como ser pago pra ler, mas dá pra segurar o aluguel. Chato é que, se eu ficasse aqui mais tempo, até poderia melhorar. Eles não acham que eu possa crescer e é por isso que eu vou pra rua.

– Humberto, tu vai pra rua amanhã.

– Posso saber por que, s… – ia ainda argumentar com o velho, sabe como é, tenho que pelo menos parecer surpreso.

– Essa é boa! Você é pago pra escrever resenhas e sabia desde o início que teria que cumprir algumas pautas também. Se você fizer esta direitinho, sai dos lançamentos e fica só na reportagem. Acertados?

– Então eu não tô demitido?

– Demitido? Meu Deus do céu, moleque! Tô pra colocar na tua mão um troço violento, que te alavanca aqui dentro, alavanca a revista pelo país, e tu não entende NADA! Seguinte: amanhã tu vai pro apartamento do Guilherme Apolinário e traz a primeira entrevista com o cara que não acabe em barraco.

– Guilherme Apolinário? O Apolinário dos reféns… do…

– Ele topou falar com a gente, Humberto. Vai pra casa agora, lê o cara de novo e amanhã você já me traz umas perguntas pra gente trabalhar aqui, tá certo?

– Posso levar uma cópia do livro de contos dele?

– Leva tudo que você precisar, mas eu quero as perguntas na minha mesa amanhã.

ainda tá acordado? (…) a gente não devia estar aqui. e qual o problema? 92997623. não faz isso! não tem ninguém aqui mesmo. muito obrigado pelo otimismo. otimismo é superficial, um cuspe na realidade, e eu não cuspo na realidade. é por causa daquela folha de caderno de novo? pra quê você leu? escrevi aquilo há tanto tempo… e nem naquele tempo significava qualquer coisa. só escrevi pelo prazer estético de ver escrito, não era a verdade. não tinha uma linha de verdade sequer nela. eu ainda não sabia que eu não era os eles, que eu não precisava ser. você não tem idéia do que é ouvir vozes na cabeça, essas pessoas chegam e começam a falar e agir e não sossegam até que estejam no papel. e aí fazem novas coisas e recomeça a festa e eu tenho que escrever de novo. mas quando aconteceu primeiro, pfff, eu não sabia! eu não sabia que eram eles, que eram outras pessoas! eu achei que eu realmente estava sentindo tudo aquilo. esta é a pior desculpa que eu já ouvi. se você fosse maduro, diria logo de uma vez que tava com raiva de mim e tinha escrito aquilo pra desabafar. mas vem com essa conversa de escritor que só o teu fã clube gosta e eu sou obrigada a ouvir isso. não ouça se não quiser. gostaria muito que a minha conversa de escritor não te chateasse, mas se chateia, não há nada que eu possa fazer porque é isso que paga as minhas contas e, ainda que não pagasse, eu não teria escolha. seria um funcionário público muito infeliz, dormindo uma hora por noite pra conseguir escrever e (…) continue escrevendo, eu vou embora. embora de vez? embora de vez. converse com as suas vozes, tenho certeza de que elas têm a coisa certa pra te dizer. estou escrevendo sobre um escritor. ah, é? e ele fica sozinho no final? não sei. não sou eu. é ele. legal que você já tenha aprendido isso. mas não quer dizer que você seja um bom escritor, só porque entendeu a diferença. pode me explicar uma coisa, espertalhão? por que você troca os pronomes? você acha que ninguém lê? então você tá indo embora por causa de um lixo que ninguém lê? já viu como é incoerente tudo isso? eu que o diga! já disse que você não precisa ir embora. só quero minha privacidade e algumas horas sozinho pra terminar esses diálogos. preciso disso pra viver. eu amo você e querer ficar sozinho pra escrever não quer dizer que eu não precise de você. você é ruim tanto falando quanto escrevendo. tem coisa que você escreve que eu chego a ficar vesga quando leio, de tão ruim que é. eu fico com vergonha por você já que você não percebe o quanto é ruim.

Tá certo. Eu preferia ter ido pra rua. Rua-demitido. Cacete! Quando entrei nesse negócio eu queria ficar em casa de pijaminha, bebendo minha cerveja e de vez em quando mandar uma coluna prum jornal. Uma vez por semana. Era isso! Tava nos lançamentos, só vinha aqui de vez em quando, muito tranqüilo. Agora, se eu for pra reportagem, pra entrevista, qualquer coisa pode me acontecer. Até ir pra casa do Apolinário. E ele é doido! Sou um cara tranqüilo, nunca gostei desse negócio de ficar pra cima e pra baixo, de exercício, de sair de casa… Olha a trabalheira que vai ser ir até o apartamento dele, falar com ele, aguentar as babaquices dele, mostrar que sei do que tô falando. Socorro. Tenho que ler aquilo tudo.

Cheguei em casa e fui logo abrindo a geladeira. Não tem nada melhor que sentir aquele ar gelado no corpo e estalar uma lata de cerveja sozinho. Fui pro sofá reler a cacetada toda. O cara escreve bem. Mas deve ser um mala. Sempre tive medo de conhecer pessoalmente um escritor que admiro. Posso passar a não gostar do que ele escreve porque achei ele escroto. Mas também posso admirar mais ainda o cara por ele ser um escroto que não deixa isso vazar no que escreve. Se depois disso tudo eu gostar mais de Guilherme Apolinário, eu viro bicha. É melhor que ele seja bacana. É pouco provável que ele seja bacana.

Olhei desanimado para a pilha de livros e escolhi os contos.

“THE MOTTA STORY (publicado pela primeira vez na London Review):

Erao momento em que não pensava mais. Sua cabeça vagava entre imagens automáticas, o filme de todas as pessoas que conhecia e de quem sentia falta. Não era raciocínio. Có Silva recebera três mirréis para matar Xi Clete, um menino de rua que roubava garrafas de leite pela manhã do alpendre das casas do bairro.

Có Silva era marido de sua mulher e pai de filho nenhum. Saiu determinado a assassinar Xi mas não conseguiu. O moleque deu-lhe uma rasteira e Có caiu no chão. Todo sujo e derrotado, tomou um porre e dormiu na sarjeta. Quando bateu na porta de casa novamente, sua mulher recusou-se a abrir: “bêbado sujo na minha casa num entra não!” Có morreu de inanição na rua e Motta, mandante do crime que não aconteceu, casou-se com a viúva, adotando Xi Clete. Fim da história. Ciao. Assinado: Guilherme Apolinário.”

Se Mark Twain está certo e escrever bem é usar um estilo simples e direto, Guilherme Apolinário é um Autor. Passei a noite inteira brincando com essa comparação e incorporando outras a ela. A temática social presente em sua obra, a urgência com que aborda a situação-limite de cada personagem, o absurdo da existência representado pela ação desnorteada do nefasto Motta, a gratuidade de seu ódio por Xi Clete que se transforma em amor paternal. Mais cerveja.

Acordei com as pulgas mordendo meu braço. Na outra semana, tinha trazido uma garota pra cá e ela trouxe um cachorro. A garota foi embora e o cachorro também, mas algumas pulgas ficaram. E, se elas ´tão vivas ainda, só pode ser por minha causa. Isso me embrulhava o estômago, mas não tanto quanto o que eu tinha que fazer. Olhei pros livros espalhados pela sala minúscula onde durmo, como e leio (não, nenhuma TV): não fiz meu dever de casa, apaguei com a quinta cerveja sem escrever as perguntas. Aí tinha bater alucinado na Remington velha uma dúzia de coisas que eu gostaria de saber sobre Guilherme Apolinário e entrar no chuveiro pra tirar as pulgas. Dez minutos depois já tava num coletivo que fedia a suor misturado com creme pra cabelo e logo chegava na sala de Túlio.

– Fez o que eu te pedi?

– Tá na mão.

Ele passou os olhos pelas perguntas, fez uhumm aqui e ali, e foi até sua geladeira.

– O que você bebe, Humberto?

– O mesmo que você.

– Então vamos de cuba.

Preparou os drinks e me encarou ao entregar o meu:

– Não fode com esse trabalho, moleque. Tá entendendo? Vai no carro da reportagem até o prédio do cara, não quero você chegando de ônibus nem de táxi. Só sai de lá depois que ele falar. Ciao.

Bebi a cuba mais esquisita da minha vida.

***

Estava em uma festa no apartamento de Guilherme Apolinário, então já devia ser noitinha. Algumas pessoas reuniam-se em torno da mesa de mármore no centro na sala; outros preferiam a água, brincando naquele arremedo de piscina que molhava todo o assoalho. Apolinário dominava as atenções à mesa. Era o jogo da garrafa, cujo giro determinava quem perguntava e quem respondia questões, aqui restritas ao universo literário. A punição por uma resposta errada era virar um copo de qualquer bebida forte que estivesse por perto. Acho que vi o litro de Mel do Pelourinho vazio girando no centro da mesa.

– Qual o nome do puteiro onde John dos Passos escreveu Três Soldados? – a pergunta partia de um senhor atarracado de cabelos brancos, a resposta teria que vir de Apolinário.

– Não era um puteiro. Era um rendezvous.

– Não enrola, Apolinário. Onde foi que dos Passos escreveu…

– Randezvous de Mariniers!- Apolinário não precisou beber nada e girou a garrafa, que apontou para um sujeito devastado por vários copos rápidos causando risos. – Querido… para quem “o contrário do burguês não era o proletariado – era o boêmio”?

O mais bêbado dos bêbados não esperou a memória selecionar o autor que procurava; pegou logo o conhaque e derramou sua derrota em um copo longo. Mais risos.

– Oswald, abrindo Serafim Ponte Grande!

– Bebe, filho da puta! – virou com este urro.

O homem murchou no sofá depois de perder todas as rodadas em que foi argüido. Dei minha contribuição ao jogo.

– E você, repórter. O que vendeu mais até hoje: Jornalistas são de Marte ou o Almoço com S, desse nosso amigo aqui? – apontou para o homem desmaiado.

– Bom… O Jornalistas chegou a emparelhar com o Almoço com S, mas voltou a ganhar força depois daquela capa sobre o seu estilo de vida recluso. Você vende mais.

A preocupação de Apolinário com suas vendas era indisfarçável. A importância que dava à crítica, doentia. Sofria com a antecipação de terríveis condenações à sua obra, alternando esses pensamentos com louvores fanáticos imaginados. Não escrevia uma lista de supermercado sem pensar nos críticos. Tornava-os quase co-autores. Mas deu-se por satisfeito com o comentário sobre vendagens. Ali, era o que havia para o elevar. E assim, abriu sorriso por toda a extensão de sua cara redonda e virou uma gargalhada que engoliu a sala, os convidados, as garrafas cheias e vazias, as mulheres, os homens, a piscina, a noite. Deixei as estrelas mastigadas na sala para procurar Anne e Gangui Jã. O guri fabricava Mel do Pelourinho na cozinha com Bizureto, Anne não estava à vista. Quarto por quarto, fui atrás da piranha. Encontrou-a tác tácquitéquitác tác tác tác tácquititác tác tác no escritório do escritor, sentada ao micro.

– Anne? Tá tudo bem?

– Não posso falar agora.

Sentia algum medo dela, que parecia um combatente esfomeado. Rosto bonito, mas a expressão era de uma eterna ansiedade; o corpo cadavérico e os ossos pronunciados, uma agressão. E o sorriso era machucado – disse isso a ela, que olhou para o chão, para os lados, para um copo e devolveu:

– Ah. Eu sorria bem melhor antigamente. – e sorriu, mais desbotada.

Sala de novo pra esperar nova garrafa de Mel e relaxar os músculos. Queria afastar a cabeça das possibilidades do produto de tanto batuque de Anne naquelas teclas gastas. Por mais curioso estivesse, preferi checar o litro fabricado pelo guri e o baiano. Chequei, doublechequei e o resultado foi que acordei com rato na boca, a claridade das dez da manhã varrendo a sala. Corri para a redação da Artiste.

– Eu quero mais tempo para fazer a matéria, Túlio.

– Que matéria, moleque? Você só tinha que entrevistar o cara. O que te impediu de fazer, se ele não te amordaçou nem amarrou? – a voz de Túlio ficava mais baixa e mais grave, como se já estivesse resignado com um fracasso. E eu tava com bafo de rato, não tive pasta de dente pra puxar o bicho pelo rabo e ser decente de manhã. Ô, meu chefe, desculpa o bafo de rato.

– Eu tô me enturmando. Ele gosta de mim, me convidou pra voltar lá. Vou Ter o material mais completo sobre Guilherme Apolinário que você já viu.

– Se não trouxer em uma semana, vai pra rua. Rua-demitido.

Fui pra casa juntar meus paninhos de bunda numa mochila pra passar o fim de semana com Apolinário, no apartamento da Vieira Souto. O telefone tocou quando eu já estava com o pé na porta.

– Beto?

– Fala.

– Feijão. Tô precisando de você aqui no Correio.

– Só se for jogo muito rápido, tô com um trabalho grande pra Artiste.

– Qualé, tu num tava pra sair dessa birosca afrescalhada?

– A coisa tá boa, rapá. Vou ganhar mais grana e tal. Mas diga lá, que que cê manda?

– Deixa eu chegar aí pra te contar a história.

– Rápido, cara, tenho que sair fora. Te espero meia hora e depois perdeu playboy.

Era assim que eu falava com o cara do Correio. Se não é assim, sou diferente dele. E aí não ganho os bicos que ele sempre tem pra oferecer. Tô sempre precisando de um dinheiro extra. Abri uma cerveja e sentei na poltrona. A campainha só tocou depois que eu já tinha bebido outras duas latas.

– E aí, Feijão?

– Que cara horrível, rapá!

– Tô virado… mas tu veio aqui pra me dizer que eu tô feio?

– Não, seguinte: ´bora lá na Cinelândia que o candidato da oposição tá se afundando.

– Porra, eu voto nele! Conheço o Pimba desde a época do bandejão na faculdade!

– Eu também voto no Pimba, mas é na encolha: o jornal precisa da vitória do Antônio Pesqueiro porque ele topou liberar a construção do novo parque gráfico do Correio Diário e ainda injeta uma grana pros efetivos se entrar na prefeitura.

– Saquei. E o que o Pimba fez?

– Besteira. Tá na praça gritando que o Correio Diário manipula o eleitorado dando chamada na capa pro Pesqueiro e colocando ele na margem inferior toda vez. E eu num posso nem chegar perto pra dar um toque porque o resto da redação tá toda lá. Se me virem falando com o cara, eu danço.

– Vamo pra lá. – peguei mochila, derreal e chaves, fui pra Cinelândia com o Feijão; Carlos Pimba já entrava no carro de um cabo eleitoral quando a gente chegou. Feijão foi prum lado, eu pra outro, que ele não é besta, e falei com o Pimba.

– Tá maluco, Pimba?

– Boot!

– Que é isso, desancar o Correio Diário às vésperas da eleição? Cadê o político que se fez no bandejão, cadê a estratégia? Bater de frente com essa gente é barato, cara, só vai te queimar.

– O político usa o que tem. – fez o V com os dedos e seguiu com a carreata.

Repórteres do Correio, algumas caras conhecidas cheias de vincos, e estagiários bem jovens, agitavam-se para subir de volta à redação, que ficava em um prédio em frente à praça. Carregavam o riso abobalhado de quem ia trabalhar no maior jornal do Brasil: com a vitória de Pesqueiro e um novo parque gráfico, o Correio ficaria forte. E quem sabe ganhariam mais.

Catei o Feijão no meio do tumulto, ele já seguia os colegas de volta ao cubículo.

– Bicho… nada.

– Xá prá lá, já tá feito. O jornal vai cair em cima.

– Feio assim?

– Editorial! – bafo de Feijão, falava num tom enfático de homem amarfanhado, suas roupas eram quase de quem saía da boca de um cachorro. Tudo nele cheirava eternamente à redação fechada. Quem se importa se o Pesqueiro entrar? Vai dar mais emprego a esses diabos que nasceram para beber café de máquina. Pesqueiro padroeiro dos meus ajanotados amigos, que viabilize então um novo parque a este jornal de embrulhar carne, pão e louça na mudança! Pimba emburreceu: desde o bandejão, desde o alojamento, we go back a long way, Pimba, ó, Pimba. Cheguei de Floripa, não tinha 200 paus pra dar num aluguel, ele me arranjou vaga no alojamento, comida no bandejão, fez o mesmo por todos os fudidos que aqui chegavam, de tudo que é canto do Brasil. Se candidatou pra provar que bondade e esperteza não namoram e eu posso até passar a desgostar do cara só por este clichê.

Se hoje fosse uma Sexta-feira comum na minha vida de gente que não tem amizades com Apolinário, com Anne, com guris bêbados, com popstars baianos, eu tava indo pra casa com uma bolsa tilintando de garrafas pra esvaziar. Faço isso a semana toda, pra tirar a solenidade da sexta-feira; o tlinc tlinc diário a caminho de casa e acordar com um rato morto na boca. Se isso é todo dia e é sexta-feira também, então sexta-feira pára de ser o dia ou a noite em que eu gostaria, juro, de ter uma mão sobre a minha cabeça, uma namorada sem cachorro e sem pulga. Mas agora eu vou pra casa dos malucos. Eu bebo com os malucos.

Entrei confiante no prédio, sou de casa, tá ligado? Subi direto sem interfonar, o porteiro me conhece. Queria mostrar a cara que fiz quando vi a sala dessa vez. Se eu soubesse, desenhava ela com letrinhas pra vocês. Nem vou tentar. Basta dizer que Anne dava uma coletiva, Apolinário em nenhum lugar à vista. Toda a sala tomada por jornalistas e quem falava era a vaca ossuda.

– Por que você escreve, Anne? – perguntou um terninho da concorrência.

– Porque não sei fotografar, nem pintar. Preciso que tudo com hábito de ir embora esteja à mão de alguma forma, para eu achar que ainda está aqui. Pessoas que eu perco retornam dizendo e fazendo coisas possíveis, parecidas com elas. Poderiam dizer e fazer assim como eu acho, e aí parece que estão comigo. Não enjoam, não me abandonam, posso sempre retomá-las.

A cretina!

– É verdade que você tem um filho?

– Sim. Quando ele nasceu, a primeira coisa que eu disse foi: “é igual ao pai”, um bebê chorão careca. Agora já se parece mais comigo, é bípede.

Percebi na mesa de onde Anne dirigia-se aos jornalistas o pesado volume Falando de Mim, capa colorida e moderna. De Anne Bizureto. A safada ainda usava o segundo nome de Ciao.

– Tem algum piercing, Anne?- perguntou um rapaz do Correio.

– No dedo mindinho do pé, em cima da tatuagem com a cara de Mao Tsé Tung.

Quarto, Apolinário, não lhe peço colo porque seria uma descompostura. Mas quero explicações.

– Agora não, Boot. Deixa eu te contar uma coisa – tava cheio de Mel – A narrativa morreu.

– Essa história da Anne, Apolinário, isso passa.

– Não. A narrativa morreu. E não é culpa de Anne e seu best seller.

– Best seller? Ontem ela ainda tava escrevendo!

E na tarde do dia seguinte, quando acordei, Anne já pipocava, nada pneumática, bastante omoplática, viço ausente dos lábios, em todos os cadernos culturais de todas as bancas de jornais. Mãe da Novíssima Literatura, era ela mesma a sua melhor personagem. Onde mais teria pregos na pele, em que outra parte de seu corpo podia-se ler um verso de Camus pintado a agulhadas, por que escolhia uma palavra em detrimento de outra. Ela recebia telefonemas enquanto disfarçava mal o orgulho – o de Apolinário já ferido, o meu, anestesiado de goró, há dias. Gângui Jã era bom de copo e eu entrei em uma disputa não-declarada com ele para ver quem teria cirrose antes. Não posso perder esse guri de vista pro resto da vida, ou jamais saberei quem ganhou.

Passeei combalido (olhos caídos) pelos recortes de jornal que estampavam Anne sem enxergar nela talento algum através da excessiva adjetivação que era a única maneira encontrada pelos meus colegas para descrever o que ela criara. Apenas o Correio Diário desafinava o coro da bajulação em torno da ossuda:

“(…) Se a sua bandeira é abolir fronteiras entre a literatura e a picaretagem, pode-se dizer que Anne Bizureto atingiu o êxito com Falando de Mim. Esta senhora poderia estar fazendo tanta coisa de valor para a sociedade: trabalho voluntário em alguma ONG, frescobol entre os postos 9 e 10, pulseirinhas trançadas para vender na feira hippie… e no entanto nos brinda com este mais que perfeito exemplar da decadência nacional das letras.” E tascaram uma seqüência de fotos onde os piores ângulos de Anne Bizureto eram celebrados. Parecia uma velha cubista com todas as cores erradas. Eu mesmo nunca pensei que fosse possível alguém ficar tão repugnante em tantas fotos. Viva o Photoshop.

Mas o Correio trazia naquela manhã coisa muito mais interessante que os ataques à Anne. Um editorial. Inteiro. Contra. O Pimba. A dois dias da votação, isso era a morte. Estava tudo lá: bebedeiras no Centro Acadêmico, os divórcios, a viagem para Amsterdã. Não era uma coletânea de seus melhores momentos.

Hora de apelar pro Feijão. Feijão, que porra é essa? Ah, eu avisei. Avisou. Direito de resposta? Tem, mas até agora não entrou com o pedido na justiça e

o Fórum fecha às 17h. Liguei. Pimba não estava em casa, em lugar algum. Comecei a me preparar para a possibilidade de ter outro imbecil na prefeitura e ver o Feijão ganhar cemrreal a mais no Correio. Não, senhora, eu não sou maluco: tô aqui me preocupando com coisas que não me dizem respeito diretamente, mas em alguma escala podem me fuder lindamente. A vitória do Antônio Pesqueiro pode mudar a minha rotina. A cidade ia ficar como a cara dele, esburacada. Eu piro só de pensar nisso mas não sei porque eu coloco esse pensamento antes de preocupações mais urgentes, tais como EU NÃO FIZ NENHUMA ENTREVISTA COM GUILHERME APOLINÁRIO E VOU SER DEMITIDO DAQUI A DOIS DIAS. Mas por que pensava também no livro babaca da Anne? Vai ver ele é tão incrivelmente idiota que não consigo acreditar que exista e fico me questionando se ele é real ou não, sei lá. Um jeito de não pensar na entrevista que não fiz. Ainda tinha que forçar a barra com o Apolinário, fazer ele parar de beber e responder umas perguntas. Isso era tão difícil que Anne e Pimba parecem refresco.

Era difícil porque eu mesmo tinha coisas melhores para fazer. Assim, todos os caminhos fáceis eram meus. (Jesus, me ame enquanto eu estou acordado e enquanto estou dormindo também. Além disso: não me deixe ter sonhos ruins. Sim.) Por que eu procuro o silêncio da sua companhia, Apolinário? A sua boca até que se mexe, mas não é que já não entendo? E, por suspeitar que minha fala estivesse igualmente grogue, suspendi o sono, com medo que Jesus não tivesse sido capaz de decifrar o código da minha reza bêbada. Ciao, meu baiano cantor, juntou-se a nós. Anne foi viver sua noite de vedete e temos aqui conosco também o Gangui Jã. Nossos fígados juntos não dariam um.

Viajei pra lagoa poluída onde nunca me incomodei de mergulhar. Parecia um plástico contínuo imitando o céu. Onde eu mexia, ela se desfazia e depois voltava a ser plástico. Sempre achei que, por enquanto eu pudesse ver o fundo da lagoa, o banho ainda continuaria saudável. Mas, nos últimos anos, diziam que aquela água tinha um milhão de coisas que poderiam me matar. Eu me tornei resistente a todas elas. Sentei na beira do caos balançando para frente e para trás. Ela sentou ao meu lado. Segurou o meu rosto com as mãos em concha. Desfez-se do horizonte e me contou um segredo: “todo dia 2 de cada mês em sonho com você. É um sonho de você me tratar bem. É um sonho de três anos atrás, de eu deitar no seu colo. De eu telefonar tarde da noite e perguntar o que fazer. De eu ter congelado o tempo naquelas uvas que comi no Ano Novo, pedi coisas que eu não sabia que iam acontecer. Pedi só pra desafiar. De eu ter voltado lá naquele tempo das uvas e dito pros carocinhos “eu não quero ele longe não!” Que eu queria sempre deitar no teu colo. Qualquer corpo que eu segure nesta vida ou na outra, qualquer voz me dizendo coisas que só se diz de um pra um, qualquer pra sempre a partir de você é uma revivenda mal feita, com o tempo contado pra acabar. É um troço requentado. Uma imitação. Tá ouvindo, meu docinho?” Assisti ao desfraldar de grandes asas, de grandes expectativas, e um vôo longo refletido na água encerrou o sonho. Muito mais do que eu havia barganhado. Ela bateu os braços em natação elisregínica, no ar, ainda me deu um abraço e me deixou no chão. Pintor, não respingue corvos nesta pintura azul. Era você que pagava contas de bar com rabiscos no guardanapo?

– Fiz uma música que, mesmo que não tivesse letra nenhuma, ia soar de qualquer jeito como desculpa? desculpa? desculpa?

– Mas ela não merece, Ciao! É ela que tem que pedir desculpa pra você! Ciao! – Não cediam, a conversa monotemática não parava, diante dos meus ouvidos e os meus olhos marejados por um sono de… poxa, eu dormi ao menos três horas. O que não posso dizer de Ciao e Apolinário, aparentemente, acho que passaram toda a noite discutindo a escrita de Anne, os cabelos, o perfume. Essas coisas. Apolinário quer, vejam bem, casar com a vaca ossuda; Ciao, por sua vez, é um otário.

Segunda-feira eu vou pra rua. Apolinário vai continuar bebendo, eu não tenho disposição para fazê-lo parar. Para falar a verdade, vou acompanhar o amigo em mais uns copos. Os dentes, eu não escovo nem finco em comida desde ontem de manhã. Não se come nesta casa, não se toma banho nesta casa, parece que Anne drenou a água toda e só sobrou álcool. Servido? Que luta! Ter ao menos um amigo bem sucedido é uma esperança mas quando essa boa aposta fracassa, a gente se entrega e bebe os dias e as noites, gasta, perde tudo e acha que está tudo bem porque, se nem ele conseguiu, não há para quê tentar qualquer coisa, certo?

– Sabe como conheci a tua mãe? – Contra tudo e contra todos, Ciao lengalengava, alugando a orelha mais jovem e menos sóbria do grupo. Como cabia naquele corpinho tanta da cachaça ninguém sabia, mas o garoto era forte. Aposto que já não entendia uma palavra da cantiga de Ciao sobre Anne.

Um Incrível Bocejo Uníssono. Também não entendi muita coisa.

– Eu tinha 15 anos e estava aprendendo a tocar acordeão. Um dia, saí da aula e fui descendo a ladeirona que cuspia a gente da casa de Meu Lévis. Ele era o melhor professor de acordeão que tinha na Bahia todinha todinha. Eu ia descendo e ia tocando. Lá pelo quilômetro 25 da ladeira de Meu Lévis, eu desidratei – que fazia o seguinte calor: uns 45 graus – e pedi água pra uma menina que ficava espiando a rua da janela. Ela foi dentro e voltou com um balde cheio d´água. E tacou tudo em mim, até o balde. Era ela. Tinha ouvido o meu acordeão e achou uma porcaria que eu fazia quadrados nele, ensinado pelo Meu Lévis. Disse que eu tinha que modernizar e me tacou também uma cassete do John Cage na cabeça. Depois disso, eu voltava lá todo dia e ficava inventando coisa no acordeão em troca de umas olhadelas que ela me dava. Aí teve um dia que fui lá em cima e só desci depois que ela enjoou. Vim pro Rio por causa dela, fui na Europa atrás dela, cantei diferente pra agradar ela. Sabe como é isso, Gangui Jã? Me dá sua mãe pra mim?

– Não sei dela, Ciao. Olha só: parido-expelido em cidade portuária, formigueiro cosmopolita de gente menosprezada sem grana, marinheiros sem casa e de muitas damas! – Gangui Jã declamava baforento sua saga- Chefe de quadrilha de magrelos, tomando de lojas pequenas e a vida me acontecendo enquanto eu já fazia outros planos. Minha mãe é o tipo de criatura que tira a roupa pra pedir desculpas. O negócio é que comigo não funciona.

– Alguns médicos acham isso bom.

– Eu sempre digo pra eles pouparem simpatia que de mim nada embolsam.

Gangui Jã, 15 anos, cínico. Devia parar de beber e ir pra escola, alguma coisa assim; o mais garoto dos três, quase nem mais falava a nossa língua. Decidi baixar o nível da conversa.

– Apolinário… você ouve os diálogos antes de escrever?

– Claro. Ouvidos atentos a tudo.

– Mas essas pessoas moram na sua cabeça ou onde?

– Não, isso é esquizofrenia. Rá rá rá! Eu colo o ouvido na parede e escuto o que meus vizinhos têm a dizer. Escuto gente nas ruas, no metrô, nos bares… nunca ninguém me processou e é isso que me dá certeza de que a literatura hoje é só a comichão de comprar. Livro agora é que nem quadro, que fica na estante embelezando; embeleza o que os outros pensam do dono do livro.

– Isso é surpreendente!

– Ah, sim! É muito pós-moderno!

A confissão de Apolinário acendeu alguma coisa em Ciao. Moveu-se pela primeira vez de maneira brusca e pegou um violão que guardava atrás do sofá. Começou a dedilha-lo como se procurasse algo, resmungava cadências entredentes, serrava os olhos atrás da estrofe que buscava. Os murmúrios foram ficando mais altos, menos tímidos, frases completas, re-arranjadas a partir do que ouvia. “Isso é muito moderno, é surpreendente…”, era um mantra.

– Música nova, Ciao?

– Sim, vai ser um hit!

O resto do dia foi dedicado inteiramente a audições de cada novo verso da canção que Ciao ia escrevendo, interrompidas brevemente por uma busca ao caderninho de telefones onde Apolinário anotara o número da faxineira. O apartamento estava do avesso, e nem animais ou artistas bêbados podiam viver ali sem que a moça fizesse uma boa limpeza. Quando encontrou o caderninho no meio de toda a baderna, quis a faxina para o dia seguinte.

– E por que não pode? Eu pago o dobro. Ahn. Eu não voto. Você vota? Tá certo, tá certo. Segunda-feira então. – desliga sem se despedir – não pode vir amanhã. Tem que votar. É uma piada. Ganha a vida limpando a casa dos outros e se acha na obrigação de votar num indivíduo que vai perpetuar ou piorar a sua situação. Mas, pensando bem, se não fosse por ela… ainda bem que nem todos querem ser escritores, senão o mundo seria um chiqueiro… precisamos de gente para limpar as casas, não é?

Esse papo me lembrou do Pimba. Quis ver o jornal. Permanecia intocado, exatamente como fora deixado na porta do apartamento. Nenhuma nota, nenhuma seqüência à esculhambação do dia anterior; o fórum fechou e ele provavelmente não conseguiu ou não quis dar entrada no pedido de resposta. Não quis por quê? Ninguém ali podia se importar menos: Ciao não votava no Rio de Janeiro, Gangui Jã ainda não tinha idade para isso e Apolinário simplesmente não votava porque não tinha vontade. Se eram formadores de opinião, segundo os cadernos culturais – excetuando Gangui Jã, é claro – o que seria de quem tem suas opiniões formadas por eles?! Dormi no sofá com a cabeça apoiada no ombro esquerdo de Apolinário e o último verso que a minha consciência distinguiu foi “o poder que essa gente bronzeada tem, iôiôiô”.

– Acorda pra cuspir! Ciao! ´Bora, Ciao! – Anne sacudia o baiano, que roncava agarrado à viola. – Você tem que ajudar a gente a ganhar essa eleição!

Anne estava metida em um terninho azul marinho e podia-se ver a camiseta com o rosto de Pimba estampada através da fenda do paletó. Com uma das mãos, dava tapinhas em Ciao e com a outra segurava o telefone celular perto da boca; gritava com ambos. Anne ofendida pelo Correio era Anne “politizada”: picuinha contra Antônio, contra parque gráfico e qualquer jornal que não achasse graça na sua literatura de auto-ajuda (ajuda a ela mesma).

– Ele está no Rio sim, estou olhando para ele e ele vai tocar!

Meu terceiro dia seguido sem uma escova de dentes e eu nem me importava, desde que estivesse no centro de toda aquela confusão e eu finalmente estava. Ciao, ao lado de Anne, subiu com um acordeão no trio elétrico alugado por Pimba e passeou cantando seus sucessos por todas as ruelas da cidade. O povo ia atrás, largando aqui e ali para votar. “eu quero falar pra vocês (pausa para o urro geral) eu quero falar pra vocês que vocês têm uma cidade linda! Mas ela precisa (…) ela precisa de alguém que saiba cuidar dela! Que saiba valorizar o dinheiro que ela rende! Que empregue esse dinheiro em cultura! Em emprego! Em saúde! Esse alguém, gente (…) é o Pimba! Pimba neles! Pimba neles!”

Fui sentadinho na carroceria lendo a resposta de Pimba no próprio Correio Diário ao ataque de Quinta-feira. Ele deixara passar a Quinta e a Sexta para procurar o Fórum somente no Sábado pela manhã. Assim, o direito de resposta saiu bem no Domingoe tornou-se a boca de urna mais bem feita que já vi. O espaço foi aproveitado com humilde revanche: limitou-se a expor suas metas para a prefeitura, discorreu sobre seu programa e objetivos, demonstrou que conhecia os números da cidade, gastos e receita. De todas as maneiras, um atestado da superioridade de Pimba sobre o adversário; em esperteza, ao menos. “Não prometo, mas garanto que esta cidade será mais que uma maravilha de cartão postal: será também um lugar seguro e próspero para quem vive sua rotina nela”. Se não promete, já tá bom.

Desci na altura do Jardim de Alá sozinho. O resto ia festejar, antevendo a vitória do Pimba. Tantas coisas para se gostar naquele dia. Segui pelo calçadão e, na altura do hotel Sol de Ipanema, tirei os sapatos. Quem precisa de sapatos apertados na praia? Pisei a areia, meus pés afundavam e derretiam nela. Um dia quando se gostava de quase tudo tinha aquela areia. O calor acumulado em 15 horas de um dia inteiro subiu pelas minhas pernas, ferveu-me todo, pensei que ia desmaiar, cair em cima das mulheres estendidas em toalhas. Pelé, da skolcocacolaguaranáguatudogeladinhô, coloca (tá sumido, rapá) minha roupa na tenda, debaixo do engradado pra ninguém mexer. Olhei para baixo, para o peito, para a barriga; estou mais magro, naufragado desses dias com Apolinário, ossos à mostra como os da nudez de Anne que eu cheguei mesmo a detestar, tão desengonçado. Corri salteando bundas até a espuma (a função do verão é fazer do trabalhador honesto um banhista bronzeado). Da espuma branca ao banco de areia, do banco de areia ao rapaz da prancha, até mais de um deles, mas poderia estar sofrendo de insolação: todos molhados, brotavam em uma felicidade descomunal do peito da zona sul. Quando veio minha primeira onda do dia, tinha quase fúria, cuspiu-me como um bagaço de volta à beira das conchinhas. Não precisava explicar nada e ainda assim me esclarecia todas as dúvidas acumuladas em 23 anos. Retornei à linha das pranchas. Outra, mais gentil. Era sempre certo que viesse, fui ficando seu amigo. Sal nos olhos. Fui ficando seu amigo. Febre. Exaustão do corpo e descanso total da mente, desligamento de tudo o mais que não seja água e vento. Amanhã não terei mais emprego e tudo em que consigo pensar é que vai sobrar mais tempo para a praia. Que cretino. É o limite da loucura: de cueca, na praia de Ipanema, rindo sozinho. Sou uma parte desta paisagem, da população seminua, feliz e lambuzada de protetor solar. Ou eles são uma parte de mim? Olha, de uma maneira ou de outra, a coisa é engraçada. Várias vezes tive dúvidas do tipo: “será que eu sou feliz?”, e agora eu tenho certeza de que só alguém com uma tendência cega à felicidade pode gostar de praia. Se eu fosse uma pessoa infeliz, eu não seria capaz de esperar cada onda com entusiasmo infantil. Elas são frescas, toda vez que vêm. Ao menos para mim. Todo bobo é feliz, toda simplicidade causa pena em quem não pode ser simples? Aí é que está. Não sou simples, sou simplório. E é esta pequena variação que determina a minha a distância de Apolinário.

Vou saindo daqui desviando de algas e bróders, dos meus próprios pingos, colocar pingos nos is, as coisas que o meu pai dizia pra minha mãe quando um dos dois perdia a linha e precisavam conversar. Uma conversa de pingos nos is agora com Apolinário, se bem que nem is temos, uma vez que nunca o entrevistei. Dias bebendo naquele apartamento, bicho. Não entrevistei o cara. Imagino a cara do Túlio Caldas, cãibras martelando os vincos perto dos olhos, vai me botar na rua, beber vodca pura e mandar alguém encontrar em cinco minutos uma matéria tão grande quanto a que eu perdi em uma semana. Todo dia é você, meu bem, todo dia, neste lugar feliz, que eu vejo esses olhos azuis, meu bem. A barraca do Pelé tem um rádio que toca sempre a mesma música e é uma música do Ciao Bizureto. Toda vez que qualquer dessas estações que tocam a mesma música eternamente é ligada, invariavelmente soa um hino para Anne.

***

Eu faço 25 anos amanhã. Onde é a festa?

Vespúcio Khalil olhou desanimado para a pilha de livros e escolheu os contos.

Uma das certezas que tinha sobre Apolinário é que ele era jovem. Abriu o volume de contos imaginando o Escritor com os olhos cheios de fumaça e uma mecha de cabelo azul que caía sobre eles.

“A História de Gangui Jã (publicado pela primeira vez na London Review)

Não sou muito bom com palavras mas, de qualquer maneira, vai sair melhor do que se eu tentasse desenhar: Gangui Jã era holandês, holandês de 16. Era filho de pai qualquer – que não conheceu – e de uma mulher ossuda que gostava de mudar de homem. Um deles decidiu que queria casar com ela e seu melhor amigo, ex-homem da ossuda e cantante pessoa embebida em Mel, enfiou-lhe algumas balas que não posso afirmar terem sido à queima roupa porque o casadoiro encontrava-se de sunga, boiando de bruços numa piscina de plástico no centro de um apartamento da Vieira Souto. Morreu igual ao Gatsby e deixou-me de herança a logomarca, a franquia, o estado de espírito de seu ofício e o segredo de uma morte que ninguém, nem vaca nem holandês, reclamou. Mas quem o mata, agora, sou eu, pois é morto nestas linhas e muito vivo enquanto eu.” Vespúcio trabalhou noite adentro, preparando-se para encarar o rosto de Apolinário com olhos de releitura.