daí eu acabei lembrando de uma coisa que eu vi dormindo, e anotei sem cerimônia com o garçom lendo por cima do meu ombro: você é um desses anjos duros da cinelândia que estão sempre se atirando do monumento. os pombos cagam na tua cabeça, os meninos picham os teus panos esculpidos e você finge que voa. faz um belo movimento congelado de mármore com essas asas pra mim.

chuva forte ameaçou. mas nada. engano de precipitação, era só antecipação e fez imaginar que: eu poderia ter mantido o jardim. não quis, dá trabalho. não molho, não cuido, mal paro em casa, que dirá tratar das plantas. mas se tivesse o jardim ainda, se tivesse chuva. quando ela estivesse no finalzinho, em suas últimas gotas, terra fria e úmida debaixo dos pés, eu iria lá fora. pegaria uma ou duas flores que tivessem vingado mais pelo meus cuidados impossíveis. deitaria de costas em tudo molhado e lançaria as flores pro alto dizendo um nome que valesse tanto como o jardim que cimentei.

e não tem reza que recupere o que rejeitei com convicção e mágoa. a própria fé se abalou e encolheu longe do que descarto, e ainda não quero. porque deve haver uma outra maneira de existir que não seja sentindo intensamente. mas aí descobre-se que não existe sentir sem intensidade. tudo que se sente é a força das coisas, das pessoas e dos eventos e negar uma fração sequer dessa força pode viciar a percepção. tornar-se alheio a todas as forças que existem e a si. nem mesmo a lembrança toca, a memória de tempestades não restaura o que está morto e seco.

é possível ser vazio? é ser? ou uma sub-vida estranha ao que antecipa na imaginação satisfeito as possibilidades de dias e dias, das próximas horas e mãos. as minhas mãos secas, vitrine. os olhos e o nada secos. uma internação voluntária. eu diagnostico uma ausência de fúria e o oco da história de quem não procura mais nada pra contar.