eu só posso escrever hoje quando não há ninguém olhando.

quem são meus amigos? o que é família? você se lembra de mim?

eu posso passar horas falando sobre o fracasso. ninguém fracassou tão rapidamente e de maneira tão eficaz e irremediável como eu. fracassaria também se tentasse relatar todo o percurso para o fracasso. o que é o fracasso? é a perda de todos os seus sonhos. imagine-se despido de todos eles. imagine-se sem poder imaginar. é assim o fracasso. querer e ter vergonha da vontade. eu posso confessar isso? ninguém pode. e no entanto eu confesso. ainda que pra mim, num espaço tão ridículo quanto a minha dor. quem guarda verdadeiras possibilidades jamais enxerga quando fracassou.

nem te conto do fracasso. de olhar um amor antigo e dele não guardar motivo que justifique o que chamava de amor. de verter um sonho em papel amassado. de tomar pílulas de tristeza sem mágoa, doce tristeza de quem pode ainda reverter… não pode? torna amarga, depois das onze não sei mais quem é o louco. quero me libertar de vocês. quero fugir de vocês.

que fez escrever, rolar noites quentes e frias de uma mesma estação, esquecer contas e festas. ignorar possíveis outras tantas trepadas que poderiam ter dado em alguma coisa mais que trepadas. quem era você? não sei. finjo que não me importo. você, que era mesmo e que amei, passou por mim como quem vara minha buceta. continua aqui mas não reconheço. que sorriso é este que me dá agora? não sei. não sei.