estamos falando de outdoors. de banners. de uma bandeirola laranja com listras amarelo-ovo que não deve, em hipótese alguma, aparecer até a segunda metade de um jogo de tênis. bruno já se levantou e sentou tantas vezes que não olho mais. ele me irrita. ricardo gira um lápis, eu giro os olhos enquanto o chefe repete que a bandeira terá que ser colocada durante o intervalo e não desde o início do jogo. caso contrário, pagaremos uma multa. não faz sentido. não importa. estou em outro mundo, afundando os pés na areia molhada, fria, tão fina. as mãos sobre o estômago, não, só uma delas. a outra segura a coxa de bruno – ele rodou tanto pela sala com aquele corpo que acabou cansado e teve que alugar uma cadeira de praia e se sentar e curtir um pouco – ou uma lata de cerveja – descobri que minha única vocação verdadeira e talento completo é beber cervejas geladas antes, durante e depois do almoço – ou ainda um beque – descobri que sou fumeta e detesto cerveja porque dá barriga e, se não tivesse abandonado os fermentados, só poderia contar com a primeira opção de sonho: mãos sobre o estômago, escondendo do sol e do mundo uma estética reprovável com elas. ou… ou…

– detesto essas reuniões. não levam à porra nenhuma.

– pensa mais baixo senão ele pode captar o significado.

– nada, ele é muito fraquinho. fica só no ruído.

– ei, você tava com a mão na minha coxa?

– desculpa, foi engano. eu queria mesmo era a cerveja.

– sei…

– sério. o que você acha que eu ia fazer com a mão na tua coxa?

– escorregá-la até a virilha.

– tu é nojento hein?

– ô, tem noção não? – ricardo, também com cagaço do chefe entrar na nossa freqüência. ele é o mais cagão. o bruno só reclama porque sacou que eu tava com umas idéias mais vagabundas – deve ser a ressaca – e quis tirar proveito. a verdade é que posso até me distrair e acabar vendo, por engano, uma cena mais picante e você, por acaso, estar nela. mas isso não quer dizer nada, bruno. nada!

– quem está pensando isso, ricardo ou felipe?

– …

– …

– quem está pensando? – repetiu o chefe, contrariado com a atividade mental de seus subordinados que, todo mundo sabe, é proibida em ambientes corporativos. – ok, de volta à bandeirola…