Faltaram-me palavras

Mas Lya Luft as tinha, então peguei emprestadas algumas que ela escreveu para o Hélio Pellegrino:

O Lado Fatal – Lya Luft

IX

Outro dia sentei-me na beira da cama para aparar as unhas

que sempre trago bem rentes.

(Minhas duas mãos pareciam tão solitárias.)

Dei-me conta de que nunca mais ele sentará a meu lado dizendo:

“Gosto de ver você fazendo essas coisas bem cotidianas.”

Era a primeira vez que cuidava de minhas mãos

depois que ele se fora.

Então deitei-me no chão e chorei amargamente por duas horas,

sabendo que mesmo que chorasse dois anos ou dois séculos

ele não voltaria mais.

Quando as lágrimas secaram, comecei a entender

que ele estará comigo o tempo todo,

luz no centro da minha vida destroçada,

sabendo de mim tudo o que hoje não sei dele.