Texto primaveril (ui)

Acho um milagre que duas pessoas consigam namorar e até, em alguns casos, se casem. Não é cinismo: eu acredito que duas pessoas possam se gostar e estar juntas, é claro, vemos isso por aí todo dia. Mas pode haver todo tipo de empecilho no caminho que percorremos até a troca de telefones, de saliva e etc. Lidamos com probabilidades demais, com apostas demais, com desdobramentos que sequer imaginamos.

Primeiro, você é apresentado a alguém com uma boa conversa, nenhum dente preto (à vista), um rosto interessante e você não pensa “putaquiparil eu preferia estar em qualquer outro lugar neste momento” enquanto trocam figurinhas. O que pode dar errado neste paraíso? Bom, seu alvo pode:

1) estar pensando “putaquiparil eu preferia estar em qualquer outro lugar neste momento”;

2) já ter alguém e estar cagando pro fato de você também gostar do Elvis Costello;

3) não ter ninguém mas te achar:

3.a) intragável;

3.b) intragável E morbidamente obeso;

3.c) intragável, gordo demais E cabeçudo (eu poderia continuar…);

Ele (a) pode ainda:

4) ter sífilis;

4.a) ficha na polícia;

4.b) mau hálito que você não percebeu no primeiro encontro porque os dois estavam alcoolizados demais então você achou que era só o uísque. (Perceba que posso continuar ad nauseum em qualquer dos tópicos, principalmente no das doenças venéreas).

Pode ser que você consiga conversar de novo com essa criatura cheia de possibilidades fantásticas e só diga merda à ela; pode ser que ela só diga merda a você num segundo encontro casual; você pode marcar com ela um cinema e o trânsito ou seu chefe ou um telefonema te prender por alguns minutos a mais e você não aparecer a tempo de entrar na sessão e deixar alguém sozinho numa sala de cinema achando que você amarelou; pode ser que tudo ocorra perfeitamente no departamento das coisas em comum e simpatia mútua, mas tocar essa outra pessoa resulte em tanto tesão quanto fazer um canal num dente (observação que não vale para sado-masoquistas).

Sartre (não me joguem pedras), aquele do absurdo da vida, disse que não existe amor senão o que se constrói e eu acredito nisso. Não há nada menos existencialista do que acreditar que duas pessoas são predestinadas. Mas eu experimento mais que a náusea sartriana ao imaginar que está entregue à obra do absurdo o encontro de duas pessoas que podem gostar mais uma da outra do que de pizza, rock ou RPG. Como é que fica? Com a dúvida sobre se o acaso vai dar conta do recado? Ou há predestinação nesses casos e, no caso de haver, ela vai funcionar para você? Como é que essas coisas funcionam às vezes, eu não sei, mas eu sei que funcionam.

Isso tudo já parece bastante assustador e eu falava só de encontrar alguém interessante e não levar um toco por um motivo ou outro. Eu ainda não estava falando de amor.

Acho quase um Arquivo X que duas pessoas compatíveis possam estar no mesmo lugar, no mesmo momento e sejam apresentadas uma à outra. Acho mais incrível que nenhum dos empecilhos listados lá em cima e correlatos não surjam em seu caminho. Acho que duas pessoas de mãos dadas na rua enfrentaram mais obstáculos do que podem imaginar para chegarem àquele entrelace de dedos banal.