O amor nos tempos do dólar

Chega um ponto em que seus amigos todos trabalham no mesmo escritório que você, não por uma feliz coincidência, mas porque é mais conveniente.

Você não tem mais tempo de ver outras pessoas: já é tarde demais quando sai do trampo e sua única chance de relaxar com cerveja é junto àquele grupo com quem você já passou o dia todo trabalhando. Ou isso ou sozinho. Você vai com eles. Bêbado, conta a sua vida pro cara mais próximo na mesa, ele te conta a dele… aí parece que se conhecem desde a infância e sair dali, do bar perto do trabalho, pra ir encontrar os velhos (mesmo) amigos numa festa em outro bairro ou numa boate onde você não vai poder conversar com eles seria insano. Alguns dos velhos (mesmo) amigos, ainda se falam durante a semana e sabem mais ou menos como está a vida de um e de outro, mas você já não tem mais essa disposição. De você, só sabem que agora rala que nem um maluco e não tem tempo de aparecer no aniversário do fulano. Ouviram dizer que vai passar o ano novo em Angra, acordar no dia 1o. numa lancha, sem ter que pensar no reveillon passado, quando todos na festa se conheciam bem demais pra que a noite pudesse passar sem problemas. Você tá cansado de problemas. Nesse ambiente menos insalubre, cheio de gente superficialmente conhecida, é muito mais difícil ocorrer algum problema de ordem pessoal que atrapalhe sua noite. Então você puxa a âncora aqui mesmo e terá esses amigos até mudar de emprego novamente. Os velhos (mesmo) amigos são aqueles pra quem você sempre pode voltar, ainda que só na entresafra de amigos-no-escritório. É confortável, assim como a poltrona que você comprou numa daquelas lojas de decoração shopping da Gávea.

Ganhar dinheiro, comprar um aparelho de DVD, uma TV maior, telefone celular, economizar pro carro, fazer dívidas no Credicard, passar a noite depois de uma boate num motel perto do trabalho pra não chegar atrasado na segunda-feira, camisas de R$80,00, sapatos de R$100,00, look sharp, act smart, work the room, show me the money, inglesando seu Português pra poder falar no jargão do Atendimento ainda que eles te enviem briefings mais vagos do que parábolas budistas.

Foi nesse contexto que Hélio e Anita se enroscaram. Pensa bem: era a única mulher com bunda na agência e vivia se queixando de solidão. Um dia, saíram com todo mundo mas acabaram ficando só os dois num bar. Foi um tal de beijo com bafo de caipirinha e cigarro, desembocou no motelzinho perto do trabalho (porra, óbvio) e começaram a namorar.

Dois meses antes do casamento, seis meses depois daquele motelzinho (ou seja, na data que coincidia com o início das férias de ambos na agência, iriam pra lua-de-mel), Hélio foi ver um filme do Wong Kar-wai sozinho (Anita tinha ido à mostra Belga com o pessoal, filme chinês já tava fora de moda) e conheceu Mônica. Pô, a Mônica era aquela coisa, cabelo curtinho, um corpo estreito, morrendo de frio no cinema. Abraçou, esquentou, saiu pra conversar, tudo invertido como tava acostumado a fazer. Tinha um livro publicado, a garota, que ele leu e de onde copiou uma sacada ou duas para usar no trabalho. Na hora do almoço, fodia com a ela. De noite, nem precisava inventar desculpa pra não comer a noiva, porque ela também tava e-xaus-ta. Ficou maluco pela Mônica, com quem não falava em jargão de Atendimento nem tinha facilidade de contornar com mentirinhas. Aliás, a única vez que tentou mentir pra ela foi um grande fracasso. Dormiu ouvindo na cabeça as risadas graves e “você acha que depois de 32 anos eu não saberia que tô saindo com um cara amarrado?”

Ficou dividido. Tirava a aliança do dedo e brincava com ela perto do vaso sanitário. Girava ela no lápis com o qual chegou a escrever diálogos de separação, em caso de tomar coragem pra dizer o que queria dizer à noiva. Bolou (cliente sempre usa isso, “bolar”- “bola aí um conceito…”) uma frase: “O lugar mais solitário do mundo não é mais a estrada onde está uma mulher e um pneu furado (baseado num antigo anúncio de pneus); esse lugar é a igreja no dia do nosso casamento porque eu não vou mais e se eu fosse você também não iria!”

Levou o conjunto de malas pra casa de Mônica. Foi uma daquelas noites espetaculares, e que ele não planejara como despedida; pelo contrário, ao invés de partir com a bagagem pra Itália e a lua-de-mel no dia seguinte, ia ficar mesmo por ali. Isso estava certo até se deitar e o seguinte pensamento lhe ocorrer (era ou não era um gênio, after all?): é inquietante saber que a cabeça ao meu lado no travesseiro está pensando também.

No dia seguinte, casou-se com Anita.