Carta de Roberto à Dra. Kátia

“É absurdo que eles me chamem de louco. Logo eu, que sou a pessoa mais santa e idealista deste mundo desvairado.”

Carl Solomon – “De repente, acidentes”

Dra. Kátia,

Já que agora você anda exigindo hora marcada até pra falar no telefone com seus pacientes (que podem estar se matando do outro lado da linha mas se não têm hora marcada na semana a secretária não passa a ligação pra sua sala), decidi lhe escrever uma carta bem longa explicando por que meu amigo Fred, maluco desde que a vaca da mulher dele se mandou, enfim, por que o Fred não vai mais pra essa tua terapia da enganação.

Não tenho nenhum embasamento acadêmico, nem mesmo um livrinho ruim e técnico sobre o assunto que respalde esse esboço de opinião. Tenho aqui apenas duas estórias: a de um louco considerado normal e outra de um excêntrico tomado por louco. Mas, como digo, é opinião e só isso. São idéias livres sem nenhum comprometimento acadêmico, embora aquele menino, o Deleuze, tenha manjado que somos atravessados por várias coisas que deixam cacos dentro de nós e nem tudo são taras relacionadas à infância. Joguemos nossos diplomas fora, doutora. Ainda fuma um?

Você não deve conhecer a estória de Chico Picadinho, mas vale a pena contar só pra te irritar. Os feitos de Chico Picadinho viraram filme no final da década de 70 chamado “Ato de Violência”, com roteiro de um senhor que foi nosso professor, o Machado, lembra dele?

Morador da Boca-do-Lixo, em São Paulo, em 1966 Chico levou para seu apartamento uma dançarina, a quem estrangulou após o sexo e começou a esquartejar na banheira; não conseguindo completar o intento e transformá-la em bagagem para um ou dois sacos plásticos, começou a jogar os grandes pedaços de mal caminho no vaso sanitário, que acabou entupindo. Chico fugiu e foi encontrado pela polícia. Submetido a baterias de testes feitos por uma equipe de psiquiatras, foi considerado normal do ponto de vista mental, teria apenas “embriaguez patológica”. Teve um julgamento comum e foi mandado para a penitenciária. Interno de bom comportamento, com o tempo conseguiu autorização para receber visitas e conheceu a mulher com quem se casou. Em seguida, solto pelo mesmo bom-mocismo e finèsse que demonstrava e colocado em condicional, não conseguia arranjar emprego e acabou abandonado pela esposa e o filho que ela lhe dera; voltou para a Boca-do-Lixo. Onde incorreu no mesmo crime, dessa vez conseguindo fazer o picadinho completo. Foi pego novamente, examinado novamente, mas então, e só então, considerado pelos especialistas louco. Cito o caso do Chico porque ele voltou ao jornal sem precisar cometer um terceiro crime hediondo. O Globo de hoje mostra um “Corpo a Corpo” (é isso que chamam de humor negro de jornalista?) na página 13 onde o sujeito que já picotou duas mulheres cita Oscar Wilde e Franz Kafka e culpa seu comportamento psicótico a uma infância infeliz e às drogas da moda na década de 60. Diz que está curado e não fará uma terceira vítima. O que dirão os médicos dessa vez?

O que constitui a loucura? O que a caracteriza? Quais os critérios empregados na sua avaliação e que garantem um atestado seguro de que alguém é louco?

Um homem que estrangula uma mulher e faz mil pedacinhos dela já me parece suficientemente louco da primeira vez em que corta o dobrado, não sendo necessário um segundo ato semelhante para caracterizá-lo como doido varrido e violentíssimo. Mas a junta médica disse da primeira vez que ele não era louco! Afirmou e confirmou sua sanidade mental baseada nos processos de avaliação que sua ciência lhe deu como ferramentas de trabalho. Piorando tudo, enviaram-no para a cadeia, não para uma casa de repouso. De lá, ele saiu melhor em algum aspecto? Todos sabem que cadeia não ensina nada a ninguém, a não ser traquinagens de bandido, mas essa não é bem a questão. A questão é: quem é maluco? Quem pode ser considerado insano e quem pode ser considerado normal, e sob quais critérios? Qual a validade destes critérios quando um caso tão grave de doença mental como este pode passar por normalidade sob sua avaliação?

Vejamos o contrário: “Em 1948, quando voltei da França para este país inculto, fui logo taxado de louco em meu próprio meio por ler Baudelaire, usar sandálias e falar francês. Fui submetido a comas de insulina e eletrochoques por nenhuma razão a não ser minhas traduções e leituras. A União Marítima nacional suprimiu minha carteira de trabalho porque fui membro do Partido Comunista no início dos anos quarenta, quando tinha 15 anos (…) Como amante das artes igual a mim, o que o senhor sugere em matéria de reabilitação, readaptação, etc? Acho que tenho grande contribuição a dar à sociedade. De que modo meu imenso talento pode ser utilizado? Eu estou definhando em um meio estéril, em um meio quase criminoso e sou considerado um parasita pela minha família conformista (…) Não tenho recursos pessoais. E o comércio não me interessa. O poema HOWL foi escrito em minha homenagem por Allen Ginsberg, meu amigo e companheiro de infortúnio no Instituto Psiquiátrico de Nova Iorque (…)”

Artaud escreveu (…) em um livro sobre Van Gogh que um louco …’É um homem que preferiu se tornar louco, no sentido em que socialmente se entende este termo, a abandonar uma certa idéia superior de dignidade humana’ e ainda ‘uma sociedade corrompida inventou a psiquiatria para se defender das investigações de certas mentes lúcidas e superiores cujos poderes intuitivos a perturbavam (…) ‘

Ok. Carl Solomon, escritor amigo do grupo Beatnik porém aparte de suas idéias (sempre refutou a associação com os Beats), parece complemente louco. Ele escreve uma carta ao governador de Nova Iorque Rockefeller, na qual revela sua “estranha” (para a época) preferência por sandálias ao invés de sapatos comuns, suas leituras pouco ortodoxas e deixa correr nas entrelinhas um tom de sarcasmo sutil que nunca seria correto, ou prudente, dirigir a uma autoridade.

Carl Solomon foi confinado em uma instituição para doentes mentais e submetido a choques de insulina e elétricos, comas induzidos e outras estripulias durante a década de sessenta por ter sido considerado louco. Um escritor com grande senso de humor, quase dadaísta, iconoclasta, muito excêntrico e, como todo artista, vaidoso e inseguro ao mesmo tempo. Um caso de loucura? O que é loucura? O que faz de Carl Solomon um maluco que deve ser internado e não levou Chico Picadinho pelo mesmo caminho logo de cara, da primeira vez em que esquartejou uma mulher? O fato de terem sido avaliados por equipes diferentes, em países diferentes, e épocas diferentes não responde à pergunta totalmente. Cobre apenas a margem de erro que essas discrepâncias podem originar. Mas os livros, teorias, métodos, avaliações não têm um padrão a ser seguido, seja em Nova Iorque ou no Brasil, hoje ou daqui há uma década? Tenho certeza de que há uma resposta boa e acadêmica para esta pergunta, a qual a senhora me daria com prazer caso eu tivesse marcado hora em seu consultório para ouvi-la sobre o assunto. Mas, novamente, a questão que importa é: quais os critérios, qual a medida? O que caracteriza o louco? Se há várias instâncias e várias medidas de loucura, como diagnosticar corretamente as patologias, acertar na mosca, como um médico pode avaliar alguém sem associar a seu julgamento e aos dados do paciente pré-conceitos? O especialista em doenças mentais pode ser considerado isento, sem eventuais neuroses próprias que possam interferir no processo de avaliação que faz de um paciente? É possível um homem ser isento em a opinião médica que lida sempre com tantos elementos subjetivos?

Acredito que tratamentos para doentes mentais funcionem para amenizar crises, tornar mais fáceis situações chocantes, terríveis, emoções que não podemos suportar sem a ajuda do profissional que vai ouvir e dissecar com frieza todo o ‘trauma’ que nos aflige para fazê-lo parecer menor e menos ameaçador do que realmente é. Porque o dano já está feito, a imagem não vai embora e a dor não desaparece por completo.

Nos casos de ‘cura’, o paciente volta a sua rotina normal, mas o que o aflige nunca deixará de ter existido. É só que a ferida não fica aberta e o analgésico da terapia (e às vezes remédios propriamente ditos) permite que ele volte ao trabalho.

Mais Carl Solomon citando o Artaud das Cartas de Rodez, que é pra você ficar uma pessoa ainda mais ilustrada nos assuntos de doideira: “Eu gostaria de citar uma passagem de um artigo do poeta francês Antonin Artaud publicado após sua morte (…) Artaud tinha sido submetido ao tratamento por eletrochoque durante seu período de confinamento que durou nove anos e terminou com sua morte em março de 1948.

‘Eu morri em Rodez sob eletrochoque. Eu disse morri. Legalmente e medicamente morto. O coma de eletrochoque dura quinze minutos. Uma meia hora ou mais e o paciente respira (…) (Dr. Frediére) afirmou que me considerava morto naquele dia, e já tinha chamado dois guardas para instruí-los sobre a remoção do meu cadáver para o necrotério, já que uma hora e meia após o choque eu ainda não tinha voltado a mim. E parece que no momento exato em que os assistentes apareceram para remover meu corpo, ele estremeceu ligeiramente, após o que eu despertei completamente.’

É sempre melhor ficar maluco, decididamente maluco, louco mesmo, perder as estribeiras, se despedir do bom senso por dez minutos, por dez anos, pela tarde inteira na frente da televisão, do que encher o bolso de uma senhora que até bem pouco tempo levava cocaína pras festinhas do DCE e pretende dizer o que é melhor pra um cara que precisa mais dos amigos agora do que de Prozac. Considero seus estudos very insightful, excelente leitura, mas você é humana e cagona como todos nós e um diploma não muda isso, vide o resultado dos últimos remédios no Fred. Ele vai ficar melhor assistindo futebol, tomando sorvete e jogando conversa fora comigo.

Atenciosamente,

Beto, amigo do peito do Fred.