Paris é uma festa mas a doorgirl me barrou

Como é do conhecimento de quase todos, na última semana deixei meu emprego na agência onde trabalhava e tranquei matrícula na faculdade de jornalismo para me dedicar a escrever críticas de letras de música, que passam a ser publicadas na The Transatlantic Review. Além disso, estou temporariamente alucinando e me sento todos os dias na Praça Paris bebendo vinho Dom Bosco direto do gargalo e acreditando estar em Montparnasse, onde espero por Miró para tramar uma maneira de quebrar as guitarras dos cubistas.

Em primeira mão, excertos da minha nova linha de trabalho: uma análise da tradução livre de “No Surprises”, do jovem poeta inglês Thom Yorke.

A heart thats full up like a landfill,

Um coração lotado como um acampamento de sem-terras,

a job that slowly kills you,

Um estágio que não dá ticket-refeição, e por que diabos eu tenho que tomar decisões de marketing se sou redatora?

bruises that won’t heal.

Herpes genital.

You look so tired, unhappy,

Você me olha como se eu fosse a Zezé Macedo,

bring down the government

Joga ovos no Serra

They don’t, they don’t speak for us

E depois diz que não participo das reuniões do Centro Acadêmico porque sou uma burguesinha diletante.

I’ll take a quiet life,

Eu vou tomar um Lacto-Purga

A handshake some carbon monoxide,

Cheirar benzina com os calouros de Psicologia,

no alarms and no surprises X 3

Eles pelo menos tomam banho três vezes por semana

Silent, Silent

E nem reclamam, E nem reclamam

This is my final fit, my

E digo mais: esse aqui é Marcelo, meu

final bellyache with

personal trainner, e ele tá me comendo

no alarms and no surprises

sem surpresinhas do tipo que as mulheres não gostam de ter quando dão pra alguém, se é que você me entende

Such a pretty house

Que casinha maneira, hein? Vai herdar do teu pai?

Such a pretty garden

Posso assentar uns sem-terra no seu jardim?

no alarms and no surprises

Tem alarme contra ladrão?

“No Surprises” (“Nem Vem Que Não Tem”) foi a primeira tentativa de Yorke usando a voz feminina. Foi também a última, já que todo mundo achou meio ridículo um marmanjo daquele falando fininho. O tema causou celeuma: luta de classes e doenças venéreas sempre foram assuntos controversos na Inglaterra. Mas deve prevalecer sobre qualquer ataque a ousadia com que o autor soube abordá-los.

Na semana que vem, “Beggar´s Banquet” – Rolling Stones (“A gente é pobre mas é limpinho”).