Faltaram-me palavras

Mas Lya Luft as tinha, então peguei emprestadas algumas que ela escreveu para o Hélio Pellegrino:

O Lado Fatal – Lya Luft

IX

Outro dia sentei-me na beira da cama para aparar as unhas

que sempre trago bem rentes.

(Minhas duas mãos pareciam tão solitárias.)

Dei-me conta de que nunca mais ele sentará a meu lado dizendo:

“Gosto de ver você fazendo essas coisas bem cotidianas.”

Era a primeira vez que cuidava de minhas mãos

depois que ele se fora.

Então deitei-me no chão e chorei amargamente por duas horas,

sabendo que mesmo que chorasse dois anos ou dois séculos

ele não voltaria mais.

Quando as lágrimas secaram, comecei a entender

que ele estará comigo o tempo todo,

luz no centro da minha vida destroçada,

sabendo de mim tudo o que hoje não sei dele.

Texto primaveril (ui)

Acho um milagre que duas pessoas consigam namorar e até, em alguns casos, se casem. Não é cinismo: eu acredito que duas pessoas possam se gostar e estar juntas, é claro, vemos isso por aí todo dia. Mas pode haver todo tipo de empecilho no caminho que percorremos até a troca de telefones, de saliva e etc. Lidamos com probabilidades demais, com apostas demais, com desdobramentos que sequer imaginamos.

Primeiro, você é apresentado a alguém com uma boa conversa, nenhum dente preto (à vista), um rosto interessante e você não pensa “putaquiparil eu preferia estar em qualquer outro lugar neste momento” enquanto trocam figurinhas. O que pode dar errado neste paraíso? Bom, seu alvo pode:

1) estar pensando “putaquiparil eu preferia estar em qualquer outro lugar neste momento”;

2) já ter alguém e estar cagando pro fato de você também gostar do Elvis Costello;

3) não ter ninguém mas te achar:

3.a) intragável;

3.b) intragável E morbidamente obeso;

3.c) intragável, gordo demais E cabeçudo (eu poderia continuar…);

Ele (a) pode ainda:

4) ter sífilis;

4.a) ficha na polícia;

4.b) mau hálito que você não percebeu no primeiro encontro porque os dois estavam alcoolizados demais então você achou que era só o uísque. (Perceba que posso continuar ad nauseum em qualquer dos tópicos, principalmente no das doenças venéreas).

Pode ser que você consiga conversar de novo com essa criatura cheia de possibilidades fantásticas e só diga merda à ela; pode ser que ela só diga merda a você num segundo encontro casual; você pode marcar com ela um cinema e o trânsito ou seu chefe ou um telefonema te prender por alguns minutos a mais e você não aparecer a tempo de entrar na sessão e deixar alguém sozinho numa sala de cinema achando que você amarelou; pode ser que tudo ocorra perfeitamente no departamento das coisas em comum e simpatia mútua, mas tocar essa outra pessoa resulte em tanto tesão quanto fazer um canal num dente (observação que não vale para sado-masoquistas).

Sartre (não me joguem pedras), aquele do absurdo da vida, disse que não existe amor senão o que se constrói e eu acredito nisso. Não há nada menos existencialista do que acreditar que duas pessoas são predestinadas. Mas eu experimento mais que a náusea sartriana ao imaginar que está entregue à obra do absurdo o encontro de duas pessoas que podem gostar mais uma da outra do que de pizza, rock ou RPG. Como é que fica? Com a dúvida sobre se o acaso vai dar conta do recado? Ou há predestinação nesses casos e, no caso de haver, ela vai funcionar para você? Como é que essas coisas funcionam às vezes, eu não sei, mas eu sei que funcionam.

Isso tudo já parece bastante assustador e eu falava só de encontrar alguém interessante e não levar um toco por um motivo ou outro. Eu ainda não estava falando de amor.

Acho quase um Arquivo X que duas pessoas compatíveis possam estar no mesmo lugar, no mesmo momento e sejam apresentadas uma à outra. Acho mais incrível que nenhum dos empecilhos listados lá em cima e correlatos não surjam em seu caminho. Acho que duas pessoas de mãos dadas na rua enfrentaram mais obstáculos do que podem imaginar para chegarem àquele entrelace de dedos banal.

O amor nos tempos do dólar

Chega um ponto em que seus amigos todos trabalham no mesmo escritório que você, não por uma feliz coincidência, mas porque é mais conveniente.

Você não tem mais tempo de ver outras pessoas: já é tarde demais quando sai do trampo e sua única chance de relaxar com cerveja é junto àquele grupo com quem você já passou o dia todo trabalhando. Ou isso ou sozinho. Você vai com eles. Bêbado, conta a sua vida pro cara mais próximo na mesa, ele te conta a dele… aí parece que se conhecem desde a infância e sair dali, do bar perto do trabalho, pra ir encontrar os velhos (mesmo) amigos numa festa em outro bairro ou numa boate onde você não vai poder conversar com eles seria insano. Alguns dos velhos (mesmo) amigos, ainda se falam durante a semana e sabem mais ou menos como está a vida de um e de outro, mas você já não tem mais essa disposição. De você, só sabem que agora rala que nem um maluco e não tem tempo de aparecer no aniversário do fulano. Ouviram dizer que vai passar o ano novo em Angra, acordar no dia 1o. numa lancha, sem ter que pensar no reveillon passado, quando todos na festa se conheciam bem demais pra que a noite pudesse passar sem problemas. Você tá cansado de problemas. Nesse ambiente menos insalubre, cheio de gente superficialmente conhecida, é muito mais difícil ocorrer algum problema de ordem pessoal que atrapalhe sua noite. Então você puxa a âncora aqui mesmo e terá esses amigos até mudar de emprego novamente. Os velhos (mesmo) amigos são aqueles pra quem você sempre pode voltar, ainda que só na entresafra de amigos-no-escritório. É confortável, assim como a poltrona que você comprou numa daquelas lojas de decoração shopping da Gávea.

Ganhar dinheiro, comprar um aparelho de DVD, uma TV maior, telefone celular, economizar pro carro, fazer dívidas no Credicard, passar a noite depois de uma boate num motel perto do trabalho pra não chegar atrasado na segunda-feira, camisas de R$80,00, sapatos de R$100,00, look sharp, act smart, work the room, show me the money, inglesando seu Português pra poder falar no jargão do Atendimento ainda que eles te enviem briefings mais vagos do que parábolas budistas.

Foi nesse contexto que Hélio e Anita se enroscaram. Pensa bem: era a única mulher com bunda na agência e vivia se queixando de solidão. Um dia, saíram com todo mundo mas acabaram ficando só os dois num bar. Foi um tal de beijo com bafo de caipirinha e cigarro, desembocou no motelzinho perto do trabalho (porra, óbvio) e começaram a namorar.

Dois meses antes do casamento, seis meses depois daquele motelzinho (ou seja, na data que coincidia com o início das férias de ambos na agência, iriam pra lua-de-mel), Hélio foi ver um filme do Wong Kar-wai sozinho (Anita tinha ido à mostra Belga com o pessoal, filme chinês já tava fora de moda) e conheceu Mônica. Pô, a Mônica era aquela coisa, cabelo curtinho, um corpo estreito, morrendo de frio no cinema. Abraçou, esquentou, saiu pra conversar, tudo invertido como tava acostumado a fazer. Tinha um livro publicado, a garota, que ele leu e de onde copiou uma sacada ou duas para usar no trabalho. Na hora do almoço, fodia com a ela. De noite, nem precisava inventar desculpa pra não comer a noiva, porque ela também tava e-xaus-ta. Ficou maluco pela Mônica, com quem não falava em jargão de Atendimento nem tinha facilidade de contornar com mentirinhas. Aliás, a única vez que tentou mentir pra ela foi um grande fracasso. Dormiu ouvindo na cabeça as risadas graves e “você acha que depois de 32 anos eu não saberia que tô saindo com um cara amarrado?”

Ficou dividido. Tirava a aliança do dedo e brincava com ela perto do vaso sanitário. Girava ela no lápis com o qual chegou a escrever diálogos de separação, em caso de tomar coragem pra dizer o que queria dizer à noiva. Bolou (cliente sempre usa isso, “bolar”- “bola aí um conceito…”) uma frase: “O lugar mais solitário do mundo não é mais a estrada onde está uma mulher e um pneu furado (baseado num antigo anúncio de pneus); esse lugar é a igreja no dia do nosso casamento porque eu não vou mais e se eu fosse você também não iria!”

Levou o conjunto de malas pra casa de Mônica. Foi uma daquelas noites espetaculares, e que ele não planejara como despedida; pelo contrário, ao invés de partir com a bagagem pra Itália e a lua-de-mel no dia seguinte, ia ficar mesmo por ali. Isso estava certo até se deitar e o seguinte pensamento lhe ocorrer (era ou não era um gênio, after all?): é inquietante saber que a cabeça ao meu lado no travesseiro está pensando também.

No dia seguinte, casou-se com Anita.

Carta de Roberto à Dra. Kátia

“É absurdo que eles me chamem de louco. Logo eu, que sou a pessoa mais santa e idealista deste mundo desvairado.”

Carl Solomon – “De repente, acidentes”

Dra. Kátia,

Já que agora você anda exigindo hora marcada até pra falar no telefone com seus pacientes (que podem estar se matando do outro lado da linha mas se não têm hora marcada na semana a secretária não passa a ligação pra sua sala), decidi lhe escrever uma carta bem longa explicando por que meu amigo Fred, maluco desde que a vaca da mulher dele se mandou, enfim, por que o Fred não vai mais pra essa tua terapia da enganação.

Não tenho nenhum embasamento acadêmico, nem mesmo um livrinho ruim e técnico sobre o assunto que respalde esse esboço de opinião. Tenho aqui apenas duas estórias: a de um louco considerado normal e outra de um excêntrico tomado por louco. Mas, como digo, é opinião e só isso. São idéias livres sem nenhum comprometimento acadêmico, embora aquele menino, o Deleuze, tenha manjado que somos atravessados por várias coisas que deixam cacos dentro de nós e nem tudo são taras relacionadas à infância. Joguemos nossos diplomas fora, doutora. Ainda fuma um?

Você não deve conhecer a estória de Chico Picadinho, mas vale a pena contar só pra te irritar. Os feitos de Chico Picadinho viraram filme no final da década de 70 chamado “Ato de Violência”, com roteiro de um senhor que foi nosso professor, o Machado, lembra dele?

Morador da Boca-do-Lixo, em São Paulo, em 1966 Chico levou para seu apartamento uma dançarina, a quem estrangulou após o sexo e começou a esquartejar na banheira; não conseguindo completar o intento e transformá-la em bagagem para um ou dois sacos plásticos, começou a jogar os grandes pedaços de mal caminho no vaso sanitário, que acabou entupindo. Chico fugiu e foi encontrado pela polícia. Submetido a baterias de testes feitos por uma equipe de psiquiatras, foi considerado normal do ponto de vista mental, teria apenas “embriaguez patológica”. Teve um julgamento comum e foi mandado para a penitenciária. Interno de bom comportamento, com o tempo conseguiu autorização para receber visitas e conheceu a mulher com quem se casou. Em seguida, solto pelo mesmo bom-mocismo e finèsse que demonstrava e colocado em condicional, não conseguia arranjar emprego e acabou abandonado pela esposa e o filho que ela lhe dera; voltou para a Boca-do-Lixo. Onde incorreu no mesmo crime, dessa vez conseguindo fazer o picadinho completo. Foi pego novamente, examinado novamente, mas então, e só então, considerado pelos especialistas louco. Cito o caso do Chico porque ele voltou ao jornal sem precisar cometer um terceiro crime hediondo. O Globo de hoje mostra um “Corpo a Corpo” (é isso que chamam de humor negro de jornalista?) na página 13 onde o sujeito que já picotou duas mulheres cita Oscar Wilde e Franz Kafka e culpa seu comportamento psicótico a uma infância infeliz e às drogas da moda na década de 60. Diz que está curado e não fará uma terceira vítima. O que dirão os médicos dessa vez?

O que constitui a loucura? O que a caracteriza? Quais os critérios empregados na sua avaliação e que garantem um atestado seguro de que alguém é louco?

Um homem que estrangula uma mulher e faz mil pedacinhos dela já me parece suficientemente louco da primeira vez em que corta o dobrado, não sendo necessário um segundo ato semelhante para caracterizá-lo como doido varrido e violentíssimo. Mas a junta médica disse da primeira vez que ele não era louco! Afirmou e confirmou sua sanidade mental baseada nos processos de avaliação que sua ciência lhe deu como ferramentas de trabalho. Piorando tudo, enviaram-no para a cadeia, não para uma casa de repouso. De lá, ele saiu melhor em algum aspecto? Todos sabem que cadeia não ensina nada a ninguém, a não ser traquinagens de bandido, mas essa não é bem a questão. A questão é: quem é maluco? Quem pode ser considerado insano e quem pode ser considerado normal, e sob quais critérios? Qual a validade destes critérios quando um caso tão grave de doença mental como este pode passar por normalidade sob sua avaliação?

Vejamos o contrário: “Em 1948, quando voltei da França para este país inculto, fui logo taxado de louco em meu próprio meio por ler Baudelaire, usar sandálias e falar francês. Fui submetido a comas de insulina e eletrochoques por nenhuma razão a não ser minhas traduções e leituras. A União Marítima nacional suprimiu minha carteira de trabalho porque fui membro do Partido Comunista no início dos anos quarenta, quando tinha 15 anos (…) Como amante das artes igual a mim, o que o senhor sugere em matéria de reabilitação, readaptação, etc? Acho que tenho grande contribuição a dar à sociedade. De que modo meu imenso talento pode ser utilizado? Eu estou definhando em um meio estéril, em um meio quase criminoso e sou considerado um parasita pela minha família conformista (…) Não tenho recursos pessoais. E o comércio não me interessa. O poema HOWL foi escrito em minha homenagem por Allen Ginsberg, meu amigo e companheiro de infortúnio no Instituto Psiquiátrico de Nova Iorque (…)”

Artaud escreveu (…) em um livro sobre Van Gogh que um louco …’É um homem que preferiu se tornar louco, no sentido em que socialmente se entende este termo, a abandonar uma certa idéia superior de dignidade humana’ e ainda ‘uma sociedade corrompida inventou a psiquiatria para se defender das investigações de certas mentes lúcidas e superiores cujos poderes intuitivos a perturbavam (…) ‘

Ok. Carl Solomon, escritor amigo do grupo Beatnik porém aparte de suas idéias (sempre refutou a associação com os Beats), parece complemente louco. Ele escreve uma carta ao governador de Nova Iorque Rockefeller, na qual revela sua “estranha” (para a época) preferência por sandálias ao invés de sapatos comuns, suas leituras pouco ortodoxas e deixa correr nas entrelinhas um tom de sarcasmo sutil que nunca seria correto, ou prudente, dirigir a uma autoridade.

Carl Solomon foi confinado em uma instituição para doentes mentais e submetido a choques de insulina e elétricos, comas induzidos e outras estripulias durante a década de sessenta por ter sido considerado louco. Um escritor com grande senso de humor, quase dadaísta, iconoclasta, muito excêntrico e, como todo artista, vaidoso e inseguro ao mesmo tempo. Um caso de loucura? O que é loucura? O que faz de Carl Solomon um maluco que deve ser internado e não levou Chico Picadinho pelo mesmo caminho logo de cara, da primeira vez em que esquartejou uma mulher? O fato de terem sido avaliados por equipes diferentes, em países diferentes, e épocas diferentes não responde à pergunta totalmente. Cobre apenas a margem de erro que essas discrepâncias podem originar. Mas os livros, teorias, métodos, avaliações não têm um padrão a ser seguido, seja em Nova Iorque ou no Brasil, hoje ou daqui há uma década? Tenho certeza de que há uma resposta boa e acadêmica para esta pergunta, a qual a senhora me daria com prazer caso eu tivesse marcado hora em seu consultório para ouvi-la sobre o assunto. Mas, novamente, a questão que importa é: quais os critérios, qual a medida? O que caracteriza o louco? Se há várias instâncias e várias medidas de loucura, como diagnosticar corretamente as patologias, acertar na mosca, como um médico pode avaliar alguém sem associar a seu julgamento e aos dados do paciente pré-conceitos? O especialista em doenças mentais pode ser considerado isento, sem eventuais neuroses próprias que possam interferir no processo de avaliação que faz de um paciente? É possível um homem ser isento em a opinião médica que lida sempre com tantos elementos subjetivos?

Acredito que tratamentos para doentes mentais funcionem para amenizar crises, tornar mais fáceis situações chocantes, terríveis, emoções que não podemos suportar sem a ajuda do profissional que vai ouvir e dissecar com frieza todo o ‘trauma’ que nos aflige para fazê-lo parecer menor e menos ameaçador do que realmente é. Porque o dano já está feito, a imagem não vai embora e a dor não desaparece por completo.

Nos casos de ‘cura’, o paciente volta a sua rotina normal, mas o que o aflige nunca deixará de ter existido. É só que a ferida não fica aberta e o analgésico da terapia (e às vezes remédios propriamente ditos) permite que ele volte ao trabalho.

Mais Carl Solomon citando o Artaud das Cartas de Rodez, que é pra você ficar uma pessoa ainda mais ilustrada nos assuntos de doideira: “Eu gostaria de citar uma passagem de um artigo do poeta francês Antonin Artaud publicado após sua morte (…) Artaud tinha sido submetido ao tratamento por eletrochoque durante seu período de confinamento que durou nove anos e terminou com sua morte em março de 1948.

‘Eu morri em Rodez sob eletrochoque. Eu disse morri. Legalmente e medicamente morto. O coma de eletrochoque dura quinze minutos. Uma meia hora ou mais e o paciente respira (…) (Dr. Frediére) afirmou que me considerava morto naquele dia, e já tinha chamado dois guardas para instruí-los sobre a remoção do meu cadáver para o necrotério, já que uma hora e meia após o choque eu ainda não tinha voltado a mim. E parece que no momento exato em que os assistentes apareceram para remover meu corpo, ele estremeceu ligeiramente, após o que eu despertei completamente.’

É sempre melhor ficar maluco, decididamente maluco, louco mesmo, perder as estribeiras, se despedir do bom senso por dez minutos, por dez anos, pela tarde inteira na frente da televisão, do que encher o bolso de uma senhora que até bem pouco tempo levava cocaína pras festinhas do DCE e pretende dizer o que é melhor pra um cara que precisa mais dos amigos agora do que de Prozac. Considero seus estudos very insightful, excelente leitura, mas você é humana e cagona como todos nós e um diploma não muda isso, vide o resultado dos últimos remédios no Fred. Ele vai ficar melhor assistindo futebol, tomando sorvete e jogando conversa fora comigo.

Atenciosamente,

Beto, amigo do peito do Fred.

A Equipe Vulcânica de Aeromodelismo apresenta: Que Horas São? Telefone Pra Você – Uma Coletânea

Capítulo 1 – How To Raise Adults

Dizer “oi” foi mais constrangedor que ser vista à saída da locadora numa

sexta-feira à noite com um filme do Jabor e uma tangerina na mão mas agora

eu já disse então vamos conversar:

– Tu já leu os clássicos?

– Mas quem disse que são clássicos?!

– Eu nunca fui no Pão de Açúcar.

– Quanto dinheiro é suficiente? Comer, morar, cinema sábado.

– Se eu aguentar firme nesse emprego, eles aumentam meu salário?

– Ela era piranha ou morria mesmo por mim?

– A função do amor é fabricar desconhecimentos… Cummings.

– Cuma? Amor é um comprimidinho de alka seltzer.

– Eu quero que o meu fundo do poço vire uma piscininha Tony.

– E nela você dissolve toda a alka seltzer?

Me encho de coragem, bom dia flor do dia, bom dia cafeteira genial, bom dia

garotos uniformizados do Pedro II a quem só posso dar bom dia mesmo senão

vou pra cadeia, bom dia seu guarda, tava só olhando, bom dia amor fati, ame

o seu destino, mesmo que ele seja um filme da Meg Ryan e uma tangerina na

mão.

Capítulo 2 – Eu Acho Que Falta Provocação (Geração de Bundonas)

Minha cortiça vazia sabe o que eu quero dizer. Fiz picadinho de polaroid, o

maior pecado do Velho de Peruca Prateada foi ter popularizado essa merda de

máquina, porque a gente click click click é tão fácil registrar os momentos que a gente

nem pensa se eles vão ser queridos por tanto tempo quanto fica o papel da foto sem

gastar o colorido.

Você tá de bode ou só não sabe o que vestir pra enfrentar as barricadas? Grandes

mudanças a partir de pequenas picuinhas. Eu tenho uma pequena picuinha com as

rádios de rock. Olha, a gente tem muito o que fazer! Se eu te contar que sou flamengo,

tá tudo acabado entre nós antes mesmo de começar? Deixa eu te fazer uma

massagem nos pés. Cheiro de cigarro e sol. Fade out pro campinho de futebol.

Capítulo 3 – Campinho Tecnicolor (O Cinema de Wong Kar wai)

Sentou-se no meio do campinho de futebol e esperou a chuva terminar de cair,

e o céu terminou de cair, e não disse pra ninguém o que achava daquele

momento embaraçoso. E pra mim era assim como se aqueles dois olhos tivessem

se fechado nos meus e me perdi que nem criança no supermercado cheio. Meus

amigos, meus pais, minha irmã… Eu quero um pouquinho de casa e movimento

em volta da piscina. “Que horas são? Telefone pra você”, ele deve enxergar

as coisas através de azul, vamos tomar um sorvete, vamos passear de

pedalinho, votar pra presidente, juntar nossas coleções de CDs e Showbizz (você tem

a número 100?), eu acho que dá pra sonhar em tecnicolor lá em casa, hein? A gente

podia alugar um filminho. Me explicaram quando eu era pequena que o gostar são

feixes que partem de mim pra mim e depois podem bater em alguém e voltar pra mim.

Capítulo final – Simpatia É Quase Amor

Eu vou telefonar, se não for mais de onze da noite ou mesmo 40 anos depois de hoje,

o que mais eu posso escrever que você já não tenha lido? Fica estabelecido assim: não

te ligo.

Amor fati, ame a vida como se não se lembrasse, como se sempre

soubesse que tudo o que já fez está feito e que “outrora, a minha vida era

um festim” foda-se outrora e, se um raio te atingir e eu não puder segurá-lo

no ar, se ele realmente te atingir, amor fati, era pra ti o raio que te

partiu!

Paris é uma festa mas a doorgirl me barrou

Como é do conhecimento de quase todos, na última semana deixei meu emprego na agência onde trabalhava e tranquei matrícula na faculdade de jornalismo para me dedicar a escrever críticas de letras de música, que passam a ser publicadas na The Transatlantic Review. Além disso, estou temporariamente alucinando e me sento todos os dias na Praça Paris bebendo vinho Dom Bosco direto do gargalo e acreditando estar em Montparnasse, onde espero por Miró para tramar uma maneira de quebrar as guitarras dos cubistas.

Em primeira mão, excertos da minha nova linha de trabalho: uma análise da tradução livre de “No Surprises”, do jovem poeta inglês Thom Yorke.

A heart thats full up like a landfill,

Um coração lotado como um acampamento de sem-terras,

a job that slowly kills you,

Um estágio que não dá ticket-refeição, e por que diabos eu tenho que tomar decisões de marketing se sou redatora?

bruises that won’t heal.

Herpes genital.

You look so tired, unhappy,

Você me olha como se eu fosse a Zezé Macedo,

bring down the government

Joga ovos no Serra

They don’t, they don’t speak for us

E depois diz que não participo das reuniões do Centro Acadêmico porque sou uma burguesinha diletante.

I’ll take a quiet life,

Eu vou tomar um Lacto-Purga

A handshake some carbon monoxide,

Cheirar benzina com os calouros de Psicologia,

no alarms and no surprises X 3

Eles pelo menos tomam banho três vezes por semana

Silent, Silent

E nem reclamam, E nem reclamam

This is my final fit, my

E digo mais: esse aqui é Marcelo, meu

final bellyache with

personal trainner, e ele tá me comendo

no alarms and no surprises

sem surpresinhas do tipo que as mulheres não gostam de ter quando dão pra alguém, se é que você me entende

Such a pretty house

Que casinha maneira, hein? Vai herdar do teu pai?

Such a pretty garden

Posso assentar uns sem-terra no seu jardim?

no alarms and no surprises

Tem alarme contra ladrão?

“No Surprises” (“Nem Vem Que Não Tem”) foi a primeira tentativa de Yorke usando a voz feminina. Foi também a última, já que todo mundo achou meio ridículo um marmanjo daquele falando fininho. O tema causou celeuma: luta de classes e doenças venéreas sempre foram assuntos controversos na Inglaterra. Mas deve prevalecer sobre qualquer ataque a ousadia com que o autor soube abordá-los.

Na semana que vem, “Beggar´s Banquet” – Rolling Stones (“A gente é pobre mas é limpinho”).