Sobre aquele seu grande amô (sai no Correio Popular sábado que vem)

Tem quem acredite que a grande contribuição de filmes como “Sabrina” (opção

bagaceira: qualquer um com a Meg Ryan), músicas como “The Long and Winding

Road” dos Beatles (opção bagaceira: aquela do “estou fazendo amor com outra

pessoaaaaa…” – aliás, para estender o parêntese e divagar sobre o estranho

verso citado, não fazer amor com outra pessoa seria onanismo?) e os livros

de Jane Austen (opção bagaceira: Danielle Steel) para a nossa cultura é o

fatalismo rosa-chá. Aquele que faz paspalhos e paspalhas acharem que terão

só um amor pra valer e os outros serão balela. Para que lado pendemos?

Paspalhos ou quanto-mais-melhor? Bom de pensar. Duas historinhas que não são

ficção:

Coco Chanel e Boy Capel

Boy Capel montou para a amante Coco Chanel sua primeira loja, uma

chapelaria. A moça magrela e pobretona gostava de criar estilo e, a partir

dos chapéus, desenvolveu seu trabalho para chegar rasgando (com trocadilho)

no mundo da moda.

Pois o rapaz inglês era o preferido de Chanel entre os amantes que ela tinha

em Paris, e ela acreditava que era sua intenção propor casamento. Mas Boy

ficou noivo de uma tal de Diana Lister, que vinha de família conhecida e

abastada assim como ele e blá blá blá, todas essas besteiras que até hoje

ainda existem em um nicho social xexelento.

Coco Chanel amargou aquela dor-de-cotovelo mas o grande choque veio mesmo

quando Boy faleceu, em um acidente de carro, ainda jovem. Casado, vá lá. Mas

morto era inaceitável. Chanel entrou em depressão e passava seus dias

trancada no quarto, que mandou decorar todo de preto.

Você pode argumentar: qualquer um que dispense Coco Chanel e se deixe chamar

de “Boy” sem que faça serviços gerais em um escritório não pode prestar. Mas

o fato é que, depois de algum tempo, Coco arranjou um tal de Dimitri. E um

Pierre. E até deu uns pegas no Stravinski. Tudo palha: não haveria mais

outro Boy Capel.

Ernest e Agnes

Era uma manhã de agosto de 1918, em um hospital de Milão. Um voluntário da

Cruz Vermelha ferido na guerra teve pulso e temperatura tomados por sua

enfermeira. A bela Agnes Kurowski, 26, logo em seguida deu banho em Ernest

Hemingway, 28. Como o paciente estivesse consciente e até bem brincalhão

(“Sou capaz de reter minha respiração por até três minutos!”), deixou que

ele mesmo lavasse seus próprios genitais, limitando-se a massagear suas

costas. A partir daquele momento, Agnes ficou gravada em Ernest como a

perfeição e pelo resto de sua estada no hospital, ficava feliz quando ela

atendia ao seu chamado pela campainha do quarto e arrasado se ela não

viesse. Apaixonou-se e namorou a enfermeira, embora tenha se queixado de que

certa vez ela foi jantar com um médico que usava um tapa-olho sobre a vista

esquerda. Quis se casar com ela, que disse que o amava. Em outubro, Agnes

partiu para Florença, prometendo-lhe fidelidade e cartas pelo período em que

estivessem separados, nas quais contaria absolutamente tudo sobre sua

rotina, completando: “Amo você cada vez mais e sei que vou levá-lo comigo

quando voltar para casa.”

“Sonho com você todas as noites. Vi rapazes italianos atraentes no hospital,

mas nenhum tão atraente quanto o meu rapaz.”

“Quando vi aquele casal no trem, ontem, desejei ter você ao meu lado para

poder pôr meu rosto naquele lugar delicioso, você sabe, o lugar côncavo para

a minha face, e adormecer com seus braços me envolvendo.”

Em março de 1919, o conteúdo das cartas de Agnes foi se modificando da

ternura à frieza, até que trouxeram a notícia de que ela estava de casamento

marcado com um italiano que acabara de conhecer. Ao ler sobre a traição

inexplicada, subiu as escadas até seu quarto e vomitou, vomitou pra

caralho…

Ernest escreve a um amigo: “Ela não me ama, Bill. Jogou tudo fora. Um

“equívoco”. Um daqueles pequenos e famosos equívocos, você sabe. (…) estou

simplesmente esmagado”.

Em seu segundo romance, “Adeus às Armas”, Ernest relembra sua história com

Agnes, matando a heroína Catherine Barkley de parto. Pelo menos na fantasia

ela permaneceria boa: era menos doloroso fechar a história com sua “morte”

do que com o casamento com um oficial italiano que, segundo relatos da

época, tinha ancas largas.

Depois, Ernest casou-se com Hadley. E casou-se com Pauline. E Martha. E, por

fim, Mary. Mas acho, acho mesmo que, quando se matou, em 1961, a última

coisa que passou por sua cabeça antes daquela bala foi a cachorra da Agnes

Kurowski.