Todo jornal tem pelo menos um editor maluco e alguma demanda por baboseira. A prova disso é que o Alexandre Matias, ex-Trabalho Sujo e atual editor do caderno cultural do Correio Popular, topou me publicar. O texto abaixo foi o que saiu na minha estréia no dia 9 de setembro de 2000, Sábado passado. Distante de Campinas, escrevo o que quiser e tô salva de cascudos do editor e dos leitores. Não podia ser mais conveniente.

Entrevista de emprego

O celular tocou na quarta-feira às 23h, interrompendo meu serão. Pedi

silêncio na mesa e mais um limãozinho para entender o que a voz distante

falava. Ligava de Campinas e não era a cobrar, o que achei muito fino.

Tratava-se do editor do caderno de cultura de um jornal local (no local de

lá), que queria contratar meus serviços para uma coluna semanal de crônicas

e contos.

– Vá desculpar, mas não faço essas coisas, não. O trabalho aqui é honesto.

Escrevo sobre o que fiz ontem à noite. Ficção, só quando tenho amnésia ou

quero encobrir alguma gafe.

– Rimbaud publicou uma obra prima antes que tivesse

cabelo no peito.

– Ainda tá em tempo pra mim então.

– Você não é mais nenhuma garotinha, Cecilia. Colava chiclete na cruz e

ainda está aí, sem jornal que queira te publicar. Se eu fosse você, aceitava

a minha proposta. Basta cortar uns palavrões do teu texto e te dou meia

página de jornal por semana.

– E pagamento?

– Mais ou menos cem caipirinhas por mês.

Se tem uma coisa que eu não tolero é ser feita de besta. Cem caipirinhas,

pfff. Exigi duzentas xiboquinhas para topar a oferta do jornal mas terei que

me submeter à política da casa: para agradar o editor e evitar processos dos

citados na coluna, todo fato que vocês lerem aqui de agora em diante, finjam

que é ficção. E tudo que for ficção, finjam que é um fato aumentado

pouquinha coisa, que na verdade é o que todo escritor faz. Combinados?

We are poor, yet very clean!

Grupos de doutores de outros países em busca da cidade perfeita para abrigar

sua conferência ou convenção contam com a ajuda do Rio Convention Bureau,

que tem um website, para saber das muitas qualidades do Rio de Janeiro. O

website, se não atrair de imediato uma horda de homens de negócio gringos à

Cidade Maravilhosa, pelo menos vai convencê-los de que, apesar da fome, da

violência, endemias e ecatombes afins alardeadas na mídia estrangeira, the

Carioca people are doing fine. Olha como fazemos boa figura para a gente do

Primeiro Mundo: “Despite their many hardships, the Brazilians remain a happy

people.” (“Apesar de suas muitas dificuldades, os brasileiros continuam a

ser um povo feliz”); “Delegates who wish to shop till they drop will have

few complaints” (“Os delegados que quiserem fazer compras até dizer chega

terão poucas reclamações”) “a night life which has received few, if any,

complaints over the years”. (“uma vida noturna que recebeu poucas, se é que

recebeu alguma, reclamação ao longo dos anos”). “Brazil is a country rich in

resources, yet one of its most precious resources is often overlooked: it’s

people.” (“O Brasil é um país rico em recursos, mas um de seus recursos mais

preciosos é frequentemente ignorado: seu povo”). Todo o texto do site segue

a mesma cartilha, pedindo desculpas nas entrelinhas e tentando cobrir

possíveis defeitos chamando atenção para eles (se já não citei exemplos

suficientes: “uma vida noturna que recebeu poucas, se é que recebeu alguma,

reclamação ao longo dos anos”), com o aval do Prefeito Luiz Paulo Conde dado

em uma Carta de Apresentação. Mas não deixa de ser um site informativo.

Informa, por exemplo, que o Rio de Janeiro não é uma cidade deserta: “Rio

has its own natives, The Cariocas” Ah, sim, assim sim.