Bárbara

Bárbara, noutro dia encontrei a Laura em um ônibus, que não fervia como este que peguei hoje pela manhã simplesmente porque era noite e ainda estávamos no inverno, estação que no Rio de Janeiro vem imediatamente antes do verão, sem escalas em primaveras tolas. Ela me contou que também, como eu, aguardava a sua vinda ao Brasil. Estava tão ansiosa que chegou a perseguir uma mulher na rua achando que era você e que, quando se aproximou, a vergonha causada pela reação negativa da mulher ao ser abordada por uma estranha foi infinitamente menor do que a decepção por não estar diante de você, você mesma.

Ócio, beócio

31º 10:42 31º 10:45 31º 10:49 31º 11:15 d0º 20:88 Engarrafamento. E dizem que os mostradores digitais espalhados pela cidade não acusam uma temperatura alta como 43º para evitar que a turma deixe de trabalhar, o que certamente ocorreria (pois seria considerado calamidade pública) caso tivesse uma justificativa ali, óbvia, piscando enquanto o trânsito não se move, de que o mundo se encaminha para um fim infernal e por isso não faria sentido trabalhar àquela altura do championship.

Escholé é grego para ócio, de onde tiramos a nossa palavra “escola”. O ócio significaria, no sentido grego (se não posso dizer que existe tal coisa como um “sentido grego”, que me perdoem os acadêmicos), estar aberto para as possibilidades do mundo. Nec-otium é o contrário disso, é negar o (produtivo) ócio, é o tal do “negócio”.

Estou olhando para o mesmo mostrador digital há vinte minutos e sei que ele está nos enganando. Que o ônibus está fervendo. Que as pessoas na praia estão correndo o risco de sofrer queimaduras de primeiro grau. Que o Rio de Janeiro é assim mesmo. E que minha cabeça está fria: é meu último dia neste emprego.

Sobre aquele seu grande amô (sai no Correio Popular sábado que vem)

Tem quem acredite que a grande contribuição de filmes como “Sabrina” (opção

bagaceira: qualquer um com a Meg Ryan), músicas como “The Long and Winding

Road” dos Beatles (opção bagaceira: aquela do “estou fazendo amor com outra

pessoaaaaa…” – aliás, para estender o parêntese e divagar sobre o estranho

verso citado, não fazer amor com outra pessoa seria onanismo?) e os livros

de Jane Austen (opção bagaceira: Danielle Steel) para a nossa cultura é o

fatalismo rosa-chá. Aquele que faz paspalhos e paspalhas acharem que terão

só um amor pra valer e os outros serão balela. Para que lado pendemos?

Paspalhos ou quanto-mais-melhor? Bom de pensar. Duas historinhas que não são

ficção:

Coco Chanel e Boy Capel

Boy Capel montou para a amante Coco Chanel sua primeira loja, uma

chapelaria. A moça magrela e pobretona gostava de criar estilo e, a partir

dos chapéus, desenvolveu seu trabalho para chegar rasgando (com trocadilho)

no mundo da moda.

Pois o rapaz inglês era o preferido de Chanel entre os amantes que ela tinha

em Paris, e ela acreditava que era sua intenção propor casamento. Mas Boy

ficou noivo de uma tal de Diana Lister, que vinha de família conhecida e

abastada assim como ele e blá blá blá, todas essas besteiras que até hoje

ainda existem em um nicho social xexelento.

Coco Chanel amargou aquela dor-de-cotovelo mas o grande choque veio mesmo

quando Boy faleceu, em um acidente de carro, ainda jovem. Casado, vá lá. Mas

morto era inaceitável. Chanel entrou em depressão e passava seus dias

trancada no quarto, que mandou decorar todo de preto.

Você pode argumentar: qualquer um que dispense Coco Chanel e se deixe chamar

de “Boy” sem que faça serviços gerais em um escritório não pode prestar. Mas

o fato é que, depois de algum tempo, Coco arranjou um tal de Dimitri. E um

Pierre. E até deu uns pegas no Stravinski. Tudo palha: não haveria mais

outro Boy Capel.

Ernest e Agnes

Era uma manhã de agosto de 1918, em um hospital de Milão. Um voluntário da

Cruz Vermelha ferido na guerra teve pulso e temperatura tomados por sua

enfermeira. A bela Agnes Kurowski, 26, logo em seguida deu banho em Ernest

Hemingway, 28. Como o paciente estivesse consciente e até bem brincalhão

(“Sou capaz de reter minha respiração por até três minutos!”), deixou que

ele mesmo lavasse seus próprios genitais, limitando-se a massagear suas

costas. A partir daquele momento, Agnes ficou gravada em Ernest como a

perfeição e pelo resto de sua estada no hospital, ficava feliz quando ela

atendia ao seu chamado pela campainha do quarto e arrasado se ela não

viesse. Apaixonou-se e namorou a enfermeira, embora tenha se queixado de que

certa vez ela foi jantar com um médico que usava um tapa-olho sobre a vista

esquerda. Quis se casar com ela, que disse que o amava. Em outubro, Agnes

partiu para Florença, prometendo-lhe fidelidade e cartas pelo período em que

estivessem separados, nas quais contaria absolutamente tudo sobre sua

rotina, completando: “Amo você cada vez mais e sei que vou levá-lo comigo

quando voltar para casa.”

“Sonho com você todas as noites. Vi rapazes italianos atraentes no hospital,

mas nenhum tão atraente quanto o meu rapaz.”

“Quando vi aquele casal no trem, ontem, desejei ter você ao meu lado para

poder pôr meu rosto naquele lugar delicioso, você sabe, o lugar côncavo para

a minha face, e adormecer com seus braços me envolvendo.”

Em março de 1919, o conteúdo das cartas de Agnes foi se modificando da

ternura à frieza, até que trouxeram a notícia de que ela estava de casamento

marcado com um italiano que acabara de conhecer. Ao ler sobre a traição

inexplicada, subiu as escadas até seu quarto e vomitou, vomitou pra

caralho…

Ernest escreve a um amigo: “Ela não me ama, Bill. Jogou tudo fora. Um

“equívoco”. Um daqueles pequenos e famosos equívocos, você sabe. (…) estou

simplesmente esmagado”.

Em seu segundo romance, “Adeus às Armas”, Ernest relembra sua história com

Agnes, matando a heroína Catherine Barkley de parto. Pelo menos na fantasia

ela permaneceria boa: era menos doloroso fechar a história com sua “morte”

do que com o casamento com um oficial italiano que, segundo relatos da

época, tinha ancas largas.

Depois, Ernest casou-se com Hadley. E casou-se com Pauline. E Martha. E, por

fim, Mary. Mas acho, acho mesmo que, quando se matou, em 1961, a última

coisa que passou por sua cabeça antes daquela bala foi a cachorra da Agnes

Kurowski.

A Equipe Vulcânica de Aeromodelismo apresenta:

Que Horas São? Telefone Pra Você – Uma Coletânea

Capítulo 1 – How To Raise Adults

Dizer “oi” foi mais constrangedor que ser vista à saída da locadora numa

sexta-feira à noite com um filme do Jabor e uma tangerina na mão mas agora

eu já disse então vamos conversar:

– Tu já leu os clássicos?

– Mas quem disse que são clássicos?!

– Eu nunca fui no Pão de Açúcar.

– Quanto dinheiro é suficiente? Comer, morar, cinema sábado.

– Se eu aguentar firme nesse emprego, eles aumentam meu salário?

– Ela era piranha ou morria mesmo por mim?

– A função do amor é fabricar desconhecimentos… Cummings.

– Cuma? Amor é um comprimidinho de alka seltzer.

– Eu quero que o meu fundo do poço vire uma piscininha Tony.

– E nela você dissolve toda a alka seltzer?

Me encho de coragem, bom dia flor do dia, bom dia cafeteira genial, bom dia

garotos uniformizados do Pedro II a quem só posso dar bom dia mesmo senão

vou pra cadeia, bom dia seu guarda, tava só olhando, bom dia amor fati, ame

o seu destino, mesmo que ele seja um filme da Meg Ryan e uma tangerina na

mão.

Capítulo 2 – Eu Acho Que Falta Provocação (Geração de Bundonas)

Minha cortiça vazia sabe o que eu quero dizer. Fiz picadinho de polaroid, o

maior pecado do Velho de Peruca Prateada foi ter popularizado essa merda de máquina, porque a gente click click click é tão fácil registrar os momentos que a gente nem pensa se eles vão ser queridos por tanto tempo quanto fica o papel da foto sem gastar o colorido.

Você tá de bode ou só não sabe o que vestir pra enfrentar as barricadas? Grandes mudanças a partir de pequenas picuinhas. Eu tenho uma pequena picuinha com as rádios de rock. Olha, a gente tem muito o que fazer! Se eu te contar que sou flamengo, tá tudo acabado entre nós antes mesmo de começar? Deixa eu te fazer uma massagem nos pés. Cheiro de cigarro e sol. Fade out pro campinho de futebol.

Capítulo 3 – Campinho Tecnicolor (O Cinema de Wong Kar wai)

Sentou-se no meio do campinho de futebol e esperou a chuva terminar de cair,

e o céu terminou de cair, e não disse pra ninguém o que achava daquele

momento embaraçoso. E pra mim era assim como se aqueles dois olhos tivessem

se fechado nos meus e me perdi que nem criança no supermercado cheio. Meus

amigos, meus pais, minha irmã… Eu quero um pouquinho de casa e movimento

em volta da piscina. “Que horas são? Telefone pra você”, ele deve enxergar

as coisas através de azul, vamos tomar um sorvete, vamos passear de

pedalinho, votar pra presidente, juntar nossas coleções de CDs e Showbizz (você tem a número 100?), eu acho que dá pra sonhar em tecnicolor lá em casa, hein? A gente podia alugar um filminho. Me explicaram quando eu era pequena que o gostar são feixes que partem de mim pra mim e depois podem bater em alguém e voltar pra mim.

Capítulo final – Simpatia É Quase Amor

Eu vou telefonar, se não for mais de onze da noite ou mesmo 40 anos depois de hoje, o que mais eu posso escrever que você já não tenha lido? Fica estabelecido assim: não te ligo.

Amor fati, ame a vida como se não se lembrasse, como se sempre

soubesse que tudo o que já fez está feito e que “outrora, a minha vida era

um festim” foda-se outrora e, se um raio te atingir e eu não puder segurá-lo

no ar, se ele realmente te atingir, amor fati, era pra ti o raio que te

partiu!

Platão pra presidente

Depois de admitir que eu sou babaca e largar o emprego, pra assinar carteirinha de maluco só faltava raspar a cabeça e passar três dias gritando Platão pra presidente! pulando num pé só. Não cheguei a tanto mas confesso que vim pro trabalho pensando em como seria o véio de ombros largos na presidência do país. Ah, também admiti que eu fumo. Passei anos dizendo “só fumo quando bebo.” Bom, eu bebo à beça.

Aí fui almoçar, depois de saber que tem um conceito pra criar aqui pro site do Rio Listas e eu tô sem a menor paciência pra inventar conceito pruma coisa tão besta. Pior: descobri que, além de mim, mais dois aqui estão igualmente sem saco pra isso. Coincidentemente (?) os dois chefes de criação. Putaquipariu. Não era novidade, desde o início do mês a gente já sabia que o Fábio, que toca com a gente no 4tréqui valsa, ia pular fora pra tentar a vida só como produtor e roquista de drumba. Saiu o Sandro , que é guitarrista do projeto Gerador Zero, na mesma época em que o Fábio soltou a bomba da demissão dele. Aí um cara da produção pulou fora. E eu anunciei que precisava estudar e deixar de ser medíocre e escrever uma boa monografia. Essas coisas. Vou ficar dura mas vai ser legal ser aluna ouvinte do IFCS enquanto todos os meus amigos se endividam com o credicard trampando nos empregos que mais detestam. Vou viver de frila. Ou Não. Não sei ainda o que vai acontecer. Quero estudar, mim quer tocar.

Mas aí eu fui almoçar, era isso que eu tava dizendo procês. Antes de sairmos do prédio para destinos gastronômicos diferentes, o Fábio me conta que a outra chefe de criação, tava aceitando um emprego no Globo.com. Cheguei no Terra Brasilis e enchi o prato de batata com pimenta, só comi isso, p edi uma cerveja. Fiquei lá meio esquisitona, que porra é essa?

Quando cheguei aqui, há uns quatro meses, conversava com o Sandro no Caneco 70 e ele me dizia que amava isso aqui. E eu amava isso aqui. E todo amava isso aqui porque isso aqui é muito divertido mesmo: a gente sai pra beber junto, ouve Blitz, Portishead, Burt Bacharah, Apollo For Forty, charme e proibidão. Foi alguma coisa na água da agência que mudou a nossa cabeça?

A gente vai cuidar das nossas vidas. Pode dar certo. Pode ser que o Fábio ganhe muita grana produzindo o novo mega som foda drumba e rock do brasil varonil. Pode ser que eu deixe de ser medíocre lá no Instituto. Pode ser que eu consiga fazer a minha banda virar uma banda. E a Dri pode ser a maioral na carreira que ela escolheu, que aquilo de que eu e Fábio estamos fugindo. Só temos agora pra arriscar. Pode ser que aquele guri que eu acho brilhante me dê bola um dia, pode ser que eu não goste da aula de Camus, ou pior, não entenda chongas dela. Cara, pode ser tanta coisa. Pra ser qualquer coisa, a gente tem que fazer alguma coisa.

Bicho, vou te contar

Eu tenho estado mais babaca que de costume. Começo logo na primeira pessoa porque essa deve ser uma mudança pro espaço já que ele é o site menos acessado da web, só eu venho aqui e muito de vez em quando, então vou arregaçar, ninguém vai ler mesmo. Tô pouco me lixando pro papo que chama isso de exibicionismo de final de milênio, sai mais barato que pagar analista.

A autocrítica será constante, as ofensas menos ofensivas do que se viessem de você ou de qualquer outra pessoa que não seja eu mesma e eu pego primeiro pelo cacoete (que eu espero que já tenha sumido) idealista revoltadinho, me envorgonho demais das coisas que escrevi no dia 15 de setembro aqui mas não vou tirar do arquivo do site, vai ficar aqui pra todo mundo ver.

No mais, hoje passa pela minha cabeça uma idéia de que o Rio de Janeiro deve ser hoje o lugar com as bandas mais pretensiosas do Brasil, incluindo aqui a minha própria. Tô achando o nosso som tão cheio de merda que até marquei uma reunião (tem que ser assim, senão só vejo o cara nos ensaios) pra discutir isso com o Christiano, que é guitarrista junto comigo no 4tréqui valsa. Começa pelo nome. Ô nominho escroto. Onde é que eu tava com a cabeça quando escolhi um nome tão escroto? Respondendo, acho que eu pensava que a gente com um nome desse ia tocar uma vez por ano no festival do Midsummer Madness e isso ia ser grandão, uau, que maneiro. Tava com a cabeça no cara que eu gostava, que eu consegui levar pra tocar baixo na banda e não se fala mais nisso. Nem aqui. Só pensava nisso. Deu no que deu. Quando o cara foi namorar uma outra menina, o que aconteceu foi que eu fiquei com uma banda cantando música de dor de cotovelo, que não mostra o menor senso de humor nas letras, nas apresentacaoes, nas musicas. Esquisito, ne? Sei lá o que acontece, em qualquer outra coisa a gente é diferente, animado, alegre. Acho que faz parte das expectativas que criaram pra gente, que a gente nem tinha, e acho que perdemos o bonde aí. Ficamos uma bandinha escrotinha. E é por isso que tô largando aqui o meu trabalho na semana que vem. Isso, a partir de outubro, só me dedico a tirar a poeira das idéias, coisa que num dá pra fazer quando se sai de casa as 8h da manha e se chega as 23h, pra acordar as 7h no dia seguinte, trabalhando com uma coisa que eu achei que podia ser uma brecha e eu errei, porra, errei como já errei em tanta coisa antes. Vou ler e cuidar da banda. Mudar isso tudo que tá uma bosta. Chega, eu até compreendo que a ala “adriana calcanhoto” da banda va ficar ofendida se eu disser que essa direcao que a gente tomou é uma merda. Mas o Christiano vai comigo. O Fábio tb. Júlio é médico punk, então tô bem acompanhada. Quem quiser, acompanha a mudança.

kangurubrusly

Quem assistiu ontem (17/09) ao Fantástico na Rede Grôbo Fúqui, pôde ver como é um jornalista de meia idade chutando o balde. Eu confesso que adorei. Há muito tempo não via algo tão lisérgico fora do Eurochannel.

Maurício Kubrusly conversou com cangurus por uns bons quatro minutos, talvez mais, segurou-lhes as patinhas e até deu comida pros bichos.

Isso deve ser uma volta aos loucos anos 80, quando ele escrevia pra Som Três e tinha um programa de rádio. Isso deve ser reflexo da nossa miséria. Isso deve ser um rebote de ácido. Tem que ser um rebote de ácido.

Eterno Retorno

A praga das regravações dos eigthies pelos eighties, de sucessos da década retrasada por gente que chegou às paradas pela primeira vez na década retrasada, é vale-brinde da mania dos discos acústicos, que despontou nos 90. Nada contra acústicos, nada contra regravações e ainda, se preferirem, nada contra soltar um álbum TODO de regravações que mais parece um atestado de óbito da criatividade de uma banda.

Para quem começa a ouvir música agora, “Rádio Pirata” é música dos Engenheiros do Hawaii, “Que País é Esse?” é dos Paralamas do Sucesso e “O Tempo Não Pára” é do Barão Vermelho, pois os DJs das rádios não dizem qual o autor original das regravações que tocam.

O que vale agora é a marmita requentada vender bem. Não chamam de repetição, é “homenagem”. E assim se fecha mais um capítulo da história do BRock. História? Que história, se as novidades são todas de anteontem?

O BRock eternizado pela sua própria estagnação.

O que eu quero dizer com “os relógios estão funcionando”, foda-se que disseram que tudo é remake, tudo é reprodução, releitura, não há nada de errado em reler, reler é recriar e enfim fazer alguma coisa, dela se vai extrair o novo, o zero. É ano zero, faça as contas, não é o fim da história, nem da arte nem da música nem da humanidade, esqueçam esssa besteira acadêmica porque ela é só uma desculpa para você ir ver televisão.